Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções


Nas últimas semanas estamos traduzindo um a série de K.M. Weiland sobre as partes que constituem as cenas da sua história. Para mim os textos dessa autora foram um divisor de águas. Nunca sequer imaginei os mecanismos que faziam as cenas funcionarem, agora vendo todas as partes desmontadas dessa forma, ficou muito mais fácil de dar continuidade ao trabalho que tenho lutado tanto para desenvolver nos ultimos anos. Não sei se vocês se deram conta ainda, mas escrever um livro é um verdadeiro mistério que pouquissimas pessoas compartilham. Quem sabe fazer guarda o segredo à sete chaves com medo de que com a informação à disposição surjam muitos concorrentes no mercado e eles – os que sabem fazer –  acabem sofrendo alguma espécie de prejuízo. Graças a Deus, na boa e velha America as coisas são bem diferentes e há abundância de gente de boa vontade compartilhando esse conhecimento que trago até vocês. Infelizmente nem todos brasileiros conseguem ler em inglês e daí a “raison d’être” deste blog. Percebo que nessa arte pelo menos 50% corresponde à talento mas os outros 50% são pura técnica e essa parte pode ser aprendida (e olha que estou sendo muito conservadora nessa porcentagem, há quem diga que 10% é talento e 90% técnica!). Assim espero então que curtam essas traduções que faço livremente e tentem por em prática esse conhecimento no WIP – work in progress – de vocês. Quem perdeu as outras partes é só clicar nos links a seguir e pôr a leitura em dia. Parte 1, parte 2, parte 3.

Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções

Uma vez estabelecido o objetivo de cena do seu personagem, a diversão começa de verdade! Conflito é o que faz uma história. Sem ele o personagem alcançaria seu objetivo final em minutos, todas as pontas soltas seriam amarradas instantaneamente num lindo laço vermelho e a história terminaria com um belo “e eles foram felizes para sempre”. Isso pode ser bom para seus personagens, mas irá matar os leitores.

Lá vai seu personagem, alegremente saltitante na direção de seu objetivo – que é contribuir para a caridade anual de Natal – quando POW! bandidos invadem a pista, bloqueiam o acesso ao objetivo e exigem que o personagem dê a eles todo seu dinheiro. Ta-daaaa! Instantaneamente sua cena fica mais interessante. Os leitores estão ofegantes para saber se seu personagem irá escapar dos bandidos e entregar o dinheiro da doação de caridade aos órfãos pobrezinhos. Conflito mantém sua história andando para frente. Nós dizemos “sem conflito, sem história” porque sem conflito a história acaba. Quando o objetivo inicial do personagem é bloqueado pelo conflito, ele o faz reagir com um novo objetivo, que é bloqueado por um novo conflito, que o faz mudar de objetivo – e assim por diante, até que finalmente ele alcançe o objetivo e a história acabe.  Surpreendentemente, autores as vezes experimentam dificuldades em injetar conflito suficiente em suas histórias. Seus personagens passam timidamente pela vida se dando bem com todos e fazendo nada de grande importância. Ou, se eles tem alguma briga com alguém ou alcançam algo importante, as ramificações são resolvidas tão rapidamente e discretamente que elas acabam nem sendo cruciais nem divertidas. Não tenha medo de dificultar as coisas para seus personagens. Sem conflito – e o sofrimento associado à ele – personagens não tem razão para existir. Analise suas cenas para ter certeza que cada uma põe obstáculos entre seu personagem e o objetivo dele.

Alternativas para conflitos

Como os objetivos de cena, o conflito da cena oferece possibilidades ilimitadas. Conflitos podem aparecer numa variedade de sabores, mas na maioria das vezes podem ser divididos nas seguintes categorias:

1.Oposição direta (outro personagem, clima, etc que interfere e impede o protagonista de alcançar seu objetivo).

2.Oposição interna (o personagem aprende algo que modifica suas ideias sobre seu objetivo).

3.Dificuldades circunstanciais ( não tem farinha para fazer o bolo, não tem parceiro para dançar, etc).

4.Conflito ativo (discussão, luta, etc)

5.Conflito passivo (ser ignorado, ser deixado sem informações, ser evitado, etc).

Essas generalidades podem incluir(mas não estão limitadas à elas):

1.Altercação Física.

2.Altercação verbal.

3.Obstáculo físico (clima, obstáculo na estrada, dano pessoal, etc).

4.Obstáculo mental (medo, amnésia, etc).

5.Falta física (sem farinha pra fazer o bolo).

6.Falta mental (sem informação).

7.Agressão passiva (intencional ou não).

8.Interferência indireta (oposição à distancia ou oposição não-intencional por outro personagem).

Seu conflito é integral?

Como se não tivéssemos o suficiente para nos manter ocupados só em imaginar uma boa altercação, nós também temos que limitar nosso conflito para aquilo que é integral a cada cena específica. Nas palavras de Dwight V. Swain: “conflito só por conflito” não é bom o suficiente. Se o personagem bondoso de nossa ilustração anterior perde o dinheiro da doação para os bandidos, provavelmente esse é um bom conflito. Ele diretamente interfere com seu objetivo de dar o dinheiro aos órfãos. Mas se os bandidos nunca mais aparecerem na história – se eles apareceram somente para roubar aquele dinheiro – eles não irão representar um conflito integral.

Muito pior é quando o conflito não tem nada a ver com o objetivo. Se Allie está descendo a rua, com o objetivo de ir ao salão de beleza antes de sua estréia na Broadway, uma discussão aleatória sobre o valor e importância da parada do Dia de Ação de Graças da Macy’s simplesmente não vai funcionar. Ao invés disso, temos que assegurar que o conflito de cada cena é um resultado direto de um acontecimento anterior (talvez nosso protagonista deixou o líder dos bandidos furioso jogando uma bola de neve em sua cara) e um obstáculo direto entre o protagonista e seu objetivo (talvez a parada da Macy’s está impedindo Allie de chegar no salão de beleza).

Perguntas a fazer sobre o conflito da sua cena

Uma vez identificado o conflito da cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.A oposição ao objetivo do personagem é importante para ele?(Se não, então só para começar, ele não deseja o objetivo o suficiente)

2.O conflito evolui naturalmente do objetivo?

3.A motivação da oposição faz sentido dentro do todo da história?

4.O conflito leva a um resultado lógico (resolução ou desastre)?

5.O conflito diretamente interfere com o objetivo do protagonista ou o ameaça?

Conflitos de cenas acontecendo

Como conflitos eficazes se manifestam em histórias de sucesso? Vamos dar mais uma olhada em nossos livros e filmes escolhidos:

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

No primeiro capítulo, o objetivo da Sra Bennet é conseguir que seu marido convide o Sr. Bingley para que suas filhas mais tarde possam ser apresentadas para esse jovem partidão. Seu objetivo é atrapalhado pela resistência passiva do Sr. Bennet à sua importunação. O conflito toma a forma de uma altercação verbal. Mesmo não sendo uma discussão outrightdireta e certamente não violenta ou mesmo agressiva, ainda oferece conflito simplesmente porque os dois personagens estão obviamente em desacordo. Se o Sr. Bennet fosse ceder imediatamente aos desejos da Sra. Bennet (Ah, certamente, amorzinho, ficaria mais que feliz em visitar o Sr. Bingley já que você gosta tanto dele), a cena acabaria instantaneamente (induzindo-nos a bocejar de tédio).

It’s a Wonderful Life dirigido por Frank Capra:

O conflito da cena de abertura vem na forma da incopetência do anjo Clarence. O objetivo de Joseph, o anjo superior, é enviar Clarence à Terra para salvar George Bailey. Mas Clarence não só está atrasado e preocupado com sua inaptidão, ele também é incapaz de ver a narrativa de Joseph sobre o passado de George. Isto é um conflito menor (e um que é transposto pelo menos parcialmente, com facilidade uma vez que tudo o que Joseph tem que fazer é ajudar Clarence a ver o passado), mas serve não só para apimentar a cena como também demonstrar facetas chave do caráter de Clarence.

Ender’s Game de Orson Scott Card:

No primeiro capítulo o objetivo de Ender é muito simples: ele só quer entrar no ônibus escolar e ir para casa. Mas o conflito se levanta imediatamente na forma de Stilson e outros brigões que tentam impedir o progresso de Ender. O conflito surge naturalmente dos personagens e da trama, uma vez que os brigões estão insultando Ender por causa da perda de seu monitor (ou tutor). Mas ele vai muito além do conflito só pelo conflito. Essa primeira altercação não só habilmente demostra qualidades importantes do protagonista, ela também leva a um desastre que irá aparecer prominentemente através do livro –  e finalmente prenunciar o clímax.

Master and Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir

O conflito aparece na primeira cena quando o aspirante de marinha Sr. Hollom se debate em dúvida sobre ter avistado o navio inimigo Acheron. A cena de abertura é inicialmente confinada ao conflito interno de Hollom, o que é ilustrado por uma troca de palavras concisas entre ele e outro aspirante de marinha. O conflito dramatiza belamente facetas importantes da vida no navio, prepara o conflito de Surprise vs. Acheron e prenuncia o arco do personagem Hollom. Conflito é sem duvidas uma das partes mais fáceis e prazerosas de escrever em qualquer história.

Depois de você preparar direito o conflito dentro de cada cena, sua história irá fluir, quase sem muito esforço.

Retirado do site: http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/structuring-your-storys-scenes-pt-4/

Este, Esse ou Aquele?


Encontrei essa dica na minha timeline no Facebook. Vale a pena postar aqui.

Outra dica a Língua Portuguesa, organizada pela professora Edinalda Almeida:

A dica, do dia 12 de abril, aborda os pronomes demonstrativos ESTE, ESSE, AQUELE e seu lugar no discurso:

Os pronomes demonstrativos são utilizados para explicitar a posição de uma certa palavra em relação a outras ou ao contexto. Essa relação pode ocorrer em termos de espaço, tempo ou discurso.
No espaço:
Compro este carro (aqui). O pronome este indica que o carro está perto da pessoa que fala.
Compro esse carro (aí). O pronome esse indica que o carro está perto da pessoa com quem falo, ou afastado da pessoa que fala.
Compro aquele carro (lá). O pronome aquele diz que o carro está afastado da pessoa que fala e daquela com quem falo.

Atenção: em situações de fala direta (tanto ao vivo quanto por meio de correspondência, que é uma modalidade escrita de fala), são particularmente importantes o este e o esse – o primeiro localiza os seres em relação ao emissor; o segundo, em relação ao destinatário. Trocá-los pode causar ambiguidade.

Exemplos:

Dirijo-me a essa universidade com o objetivo de solicitar informações sobre o concurso vestibular. (trata-se da universidade destinatária).

Reafirmamos a disposição desta universidade em participar no próximo Encontro de Jovens. (trata-se da universidade que envia a mensagem).

No tempo:
Este ano está sendo bom para nós. O pronome este refere-se ao ano presente.
Esse ano que passou foi razoável. O pronome esse refere-se a um passado próximo.
Aquele ano foi terrível para todos. O pronome aquele está se referindo a um passado distante.

– Os pronomes demonstrativos podem ser variáveis ou invariáveis, observe:
Variáveis: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s).
Invariáveis: isto, isso, aquilo.

Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3


Mais uma da série de K.M. Weiland sobre como estruturar suas cenas. Se você não faz ideia do que estou falando leia a parte 1 e a parte 2 dessa fantástica série antes de prosseguir.

Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3: Objetivos em uma Cena – opções

A história como um todo e cada cena dentro dela inicia-se com um objetivo. Seu personagem deseja alguma coisa – algo que ele terá dificuldades em alcançar. O que ele quer molda o enredo tanto no nível macro e micro. O que ele quer o define como pessoa, e , por extensão, o tema do livro como um todo. Os objetivos possíveis para as cenas são infinitos – e muito específicos para sua história. Seu personagem pode querer qualquer coisa em qualquer cena, mas dentro daquele universo de opções você precisa diminuir os desejos expressados dentro da cena para aqueles que irão orientar a trama. Desejar comprar cravos rosados para o Dia das Mães é um objetivo digno, mas se a mãe do personagem tem um papel inexistente na sua história de guerrra nuclear, isso não vai fazer parte da sua história – e certamente não funcionará como objetivo de sua cena. Os objetivos da Cena são os dominós que estou sempre me referindo. Cada objetivo é um passo adiante em sua história. Um objetivo leva a um resultado que induz a um novo objetivo e assim por diante. Bing-bing-bing – eles caem um sobre o outro, um dominó depois de outro. Se não – se um objetivo está fora do lugar no geral da história – a linha de dominós irá parar e a história vai vacilar, talvez fatalmente.

Objetivo da trama vs. Objetivo da Cena

A trama geral de seu personagem será um dilema que levará toda a história para ser resolvido. Ele pode querer ser Presidente, ele pode querer resgatar sua filha que fora sequestrada, ele pode querer casar com a vizinha ou ele pode querer alcançar cura emocional e um novo começo após a morte de seu pai. Se quebrarmos o objetivo global da história em pedaços pequenos, descobrimos que ele na verdade é feito de objetivos menores em sequência. Seu personagem pode não começar já sabendo que ele quer um novo começo ou que quer casar com a vizinha (embora isso deva ser imediatemente evidente ao leitor ao menos por dedução se não por outro motivo). Mas na primeirissima cena ele vai saber que deseja algo. Talvez ele saiba que quer que o cachorro da vizinha pare de comer suas petúnias. Então ele sabe que precisa encontrá-la e convence-la a mante-lo na corrente. Então ele percebe que ela é irritantemente bonita. Então ele percebe que quer sair com ela. Então ele sabe que tem que superar a péssima primeira impressão que deu a ela. Então ele sabe que deveria comprar flores para ela. E etc, etc, etc. antes que você perceba, todos esses pequenos objetivos de cena irão te levar até o objetivo global da história. O fator mais importante a se manter em mente enquanto identifica cada objetivo de cena é sua pertinência à trama. Subenredos podem dar oportunidades a objetivos que não estão diretamente relacionados ao seu objetivo principal de casar com a vizinha, mas eles também devem finalmente se amarrar na trama geral de uma forma ressonantemente impactante ou temática.  Se a realização  ou não realização de qualquer objetivo de cena não afeta o resultado final da historia é porque ele não é suficientemente pertinente.

Objetivos de Cenas: opções

Objetivos de cena se manifestarão de formas descontroladamente diferentes. Seu personagem pode querer queimar um pacote de cartas, tirar um cochilo, se esconder no armário ou afundar um barco. Mas a maioria dos objetivos das cenas podem ser resumidos em uma das categorias seguintes. Seu personagem irá querer:

1.Algo concreto (um objeto, uma pessoa, etc)

2.Algo incorpóreo (admiração, informação, etc)

3.Escapar de algo físico (encarceramento, dor, etc)

4.Escapar de algo mental (preocupação, suspeita, medo, etc)

5.Escapar de algo emocional (luto, depressão, etc)

Seus métodos de alcançar essas coisas irão frequentemente se manifestar em uma das seguintes formas (embora esta lista não seja definitiva):

1.Buscar informação.

2.Esconder informação.

3.Se esconder.

4.Esconder outra pessoa.

5.Confrontar ou atacar outra pessoa.

6.Reparar ou destruir objetos físicos.

Objetivos parciais e que atravessam várias cenas

Embora objetivos de cena sempre sejam de curto alcance (ao contrário do objetivo da trama que é de longo alcance), eles não irão sempre ficar confinados a uma unica cena ou serão completados em uma unica cena. Às vezes sua história pedirá objetivos que ultrapassem e se espalhem por várias cenas. Por exemplo, seu personagem pode saber na cena nº 3 que ele deseja sair com a vizinha mas esse não é um objetivo que ele possa alcançar em uma unica cena. Ele pode não conseguir alcançar esse objetivo específico até a cena nº 11! É ai que objetivos parciais entram na jogada. Da mesma forma que objetivos de cena conduzem ao objetivo geral da história, objetivos parciais conduzem a cumprir objetivos que ultrapassam a cena, que por sua vez levarão ao objetivo global. Em nosso exemplo, a jornada do personagem para alcançar esse determinado objetivo que vai além da cena pode incluir objetivos parciais como esbarrar com ela inumeras vezes, conseguir o telefone dela, comprar flores para ela e se desculpar por ter gritado com o cachorro dela. Objetivos que vão além, que requerem várias cenas para alcançar o alvo não negam a necessidade de objetivos individuais dentro de cada cena intermediária. Mas não se limite com a noção de que cada cena tenha que ser uma ilha em si mesma. Cada cena é somente uma pequena parte de um todo maior. A partir do momento que tudo deve ser integral, é impossível que tudo não esteja entrelaçado.

Perguntas a fazer sobre objetivos da Cena

Uma vez identificado o  objetivo de cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.O objetivo faz sentido dentro da trama geral?

2.O objetivo é inerente à trama geral?

3.A complicação/resolução do objetivo levará a um novo objetivo/conflito/desastre?

4.Se o objetivo é mental ou emocional (ex. ser totalmente feliz hoje),  tem ele uma manifestação física (ex. sorrir para todp mundo)? (Isso não é sempre necessário, mas permitir que personagens demonstrem externamente seus objetivos oferece uma representação mais forte do que meramente dizer, via narrativa interna).

5.O sucesso ou fracasso do objetivo diretamente afeta o narrador da cena? (Se não, seu POV provavelmente não foi bem escolhido).

Objetivos de cena em ação

Vamos examinar alguns objetivos de cena em ação. Só por amor à continuidade estarei usando exemplos dos mesmos quatro livros e filmes que usei em minha série “Segredos da Estrutura da História”.

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo de Sra. Bennet no primeiro capitulo é convencer seu marido a visitar o recém chegado Sr. Bingley. Apesar dela não ser a protagonista da história, ela é a atriz principal nesta primeira cena, então é apropriado que o primeiro objetivo pertenca a ela. O capítulo oferece um maravilhoso objetivo de abertura (que abre/inicia o livro) uma vez que não só apresenta um objetivo de cena de curto prazo mas também perfeitamente molda o objetivo geral da história.

It´s a Wonderful Life de Frank Capra:

O objetivo do anjo Joseph na primeira cena é encontrar um anjo que ele possa enviar para ajudar George Bailey. Como em Orgulho e Preconceito o filme abre com uma perspectiva externa ao protagonista, mas apresenta uma imagem instatânea e precisa do objetivo geral da história (salvar George Bailey ajudando-o a entender que sua vida vale a pena ser vivida).

Ender´s Game de Orson Scott Card:

O livro abre com várias cenas curtas indicando os objetivos de pessoas que não são o protagonista (usado, mais uma vez, para moldar o foco geral da trama). O primeiro objetivo de Ender é evitar os brigões e conseguir chegar no ônibus escolar sem incidentes.

Master e Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir:

Tanto o objetivo geral da história e por extensão a primeira cena individual são introduzidos na cena de abertura do fime com a revelação das ordens de  Jack Aubrey para achar e destruir o corsário francês Acheron. O filme estabelece esse objetivo permitindo os leitores diretamente ler as ordens, então pula para a primeira cena com o oficial vigiando o mar em busca de qualquer anomalia que prove ser sua caça.

Uma vez que que você colocou no lugar o objetivo o resto da cena provavelmente fluirá facilmente e naturalmente. Enquanto cada cena for inerente a sua história e mover a trama para frente você estará em curso para alcançar um romance sólido e coeso.

*Para os propósitos desta série “Cena” com um C maiúsculo se referirá a cena em geral (o que pode incluir em sua definição a sequência).

Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequencia quando me referir aos dois tipos de Cenas.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-3.html

Estruture suas cenas – Exercício: Objetivo, conflito e Desastre


Vocês devem estar acompanhando a série que estou traduzindo sobre como estruturar as cenas de uma história.  Quem chegou agora pode dar uma lida rápida na parte um http://buff.ly/1FZmo2U e na parte dois http://buff.ly/1wT0y99  dessa série antes de prosseguir.

Bem, queria saber se estou entendendo direito as instruções da autora. Ela usou como referência uma cena de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Não sei se tiveram tempo para dar uma olhada nessa cena, mas é que pra mim ainda não estava suficiente.  É que a autora já havia dado as dicas então foi fácil identificar os pontos na cena. Queria ver se conseguia fazer essa identificação sozinha e em qualquer livro que pegasse, queria saber se realmente é algo que os autores usam.  Pois bem, estou lendo uma trilogia já pela terceira vez, chamada “Nascidos da bruma: o império final” de Brandon Sanderson. É um livro maravilhoso de fantasia com um sistema de magia único que foge bastante daquela coisa batida a lá Tolkien, com elfos e anões e magos. E não tem dragões também (não se enganem, eu a-do-ro os livros do Tolkien, mas covenhamos que tem cópias demais do estilo dele zanzando por aí. De vez em quando é bom ser criativo!) Anyway, o livro é muuuuuuito bom mesmo.  Ai peguei o livro e abri logo no inicio e fui analisar as primeiras cenas, dessa vez com olhos de escritora e não de leitora como usualmente faço.  Queria identificar o objetivo,  o conflito e o desastre da cena. Esse é um excelente exercício que todos deviam fazer pra fixar o aprendizado.  A gente aprende com a repetição.  Então tá,  comecei a ler cuidadosamente e fui percebendo que tinha alguma dificuldade. Passei para a segunda cena, foi bem mais fácil.  Aqui percebemos que kelsier (esse é o protagonista) quer causar uma rebelião, o autor se utiliza de dois outros personagens para dizer isso, além da fala do próprio Kelsier onde ele admite ser apenas um encrenqueiro. Então o objetivo dele está bem claro. O conflito aparece na conversa com Mennis onde ele questiona o motivo dos skaa não reagirem à toda maldade que são submetidos e Mennis diz que é preferível esse tipo de vida do que a morte.  Ou seja, os skaa não vão se rebelar. Ai entra o desastre.  Gritos são ouvidos na noite e Kelsier descobre que são de uma jovem skaa que está sendo levada para o senhor da plantação e que ela não vai sobreviver porque ele mata todas as jovens skaa depois de ter relações com elas. Kelsier sai da choupana e mergulha nas brumas.

Muito bom isso! Consegui encontrar todos os pontos direitinho.  Voltemos a cena um. Me deu um lampejo agora! Na cena um temos que analisá-la do ponto de vista de quem tem o P.O.V, ou seja, Lorde Tresting e não o de Kelsier como havia tentado antes. Essa é a desvantagem de ter lido o  livro tantas vezes. Como já conheço a história acabo me adiantando.  O certo é ficar estritamente com os dados que a cena está me fornecendo (difícil quando já se sabe o que vai acontecer!). Como essa primeira cena é a que apresenta o personagem Kelsier, fiquei com ele na mente e não me toquei que a cena é narrada do ponto de vista de um outro personagem. Quando me ajustei a isso as coisas ficaram mais fáceis. Pois bem. Lorde Tresting deseja fechar um contrato com outra casa nobre chamada Venture. Esse é seu objetivo. Isso está muito claro também.  Aparece com todas as letras na voz do Obrigador. O conflito foi mais complicado de reconhecer.  É que ele aparece somente como um pensamento de Tresting.  Ele fica pensando como agradar Venture,  se conseguiria uma colheita extra, mas se depara com o problema da morosidade dos skaa. Ele imagina se apertando-os um pouco mais não conseguiria a tal desejada colheita  extra quando entra em cena o desastre: um skaa o encara com fogo no olhar, desafiando-o.

Legal. Tá ai o exercício feito.  Quem puder compre o livro e leia pois é bom demais. Se quiser ajudar a manter o blog compre através desse link (para os leitores que estão no exterior) e nesse link para os leitores no Brasil.

Estruturando as cenas de sua história, Pt2


Olá pesoal. Demorei um pouco a postar pois tive algumas dificuldades na tradução. Esta é a segunda parte da série sobre como estruturar as cenas do seu livro e foi traduzido livremente por mim. Se tiverem qualquer dúvida podem verificar o texto original em inglês no link ao final da página. Divirtam-se.
(Não deixe de ler a primeira parte dessa série em https://fenixresurrected.wordpress.com/2015/02/06/aprenda-a-estruturar-suas-cenas/)

Estruturando as cenas de sua história, Pt2:

As três partes da Cena

Como a própria história, cada Cena segue uma estrutura específica. No fundo, o arco da Cena é o mesmo da estrutura maior da história exibido ao longo do curso do livro:

1.Inicio = Gancho

2.Meio = Desenvolvimento

3.Fim = Clímax

Quando olhamos para o arco dessa forma, ele nos dá uma espécie de sentido fundamental/básico. Mas não nos oferece nenhum conselho específico em como criar esses elementos dentro da Cena. Então vamos esmiúçar isso mais ainda.Tanto a cena quanto a sequência seguem um arco fundamental de três partes, mas os elementos são significativamente diferentes em cada uma das partes. Hoje vamos dar uma olhada nos três elementos fundamentais da cena. Conforme prosseguimos com a série, olharemos algumas variações dessas três partes do arco, mas, em termos gerais, suas cenas terão que conter o seguinte:

Parte Nº 1:Objetivo

É onde tudo começa. O que seu personagem quer em larga escala é o que guia toda a história. O que ele quer em pequena escala guia sua cena. Se ele não quer nada, então sua história não tem ímpeto.

Sem objetivo = sem história

O que seu personagem quer em qualquer cena será um reflexo minúsculo do objetivo geral na história e/ou um passo na direção de alcançar tal objetivo. Por exemplo, se o objetivo geral do personagem é escapar de um campo de prisioneiros, o objetivo da cena pode ser encontrar uma pá, subornar um guarda para que deixe seu posto ou convencer um colega de juntar se a ele. Quando souber o objetivo do personagem em uma certa cena, você saberá o objetivo da cena.

Sem objetivo = sem propósito

Estabeleça o objetivo do personagem o mais cedo possível na cena.Leitores precisam compreender o que está em jogo.O que o personagem está tentando realizar. Porquê ele está tentando realizar isso? O que acontecerá se ele falhar?

Parte Nº 2:Conflito

Uma vez que seu objetivo esteja no lugar sua próxima responsabilidade será criar um obstáculo que impedirá o personagem de alcançar facilmente o resultado que almeja. “Sem conflito, sem história” pode ser dito mais precisamente como “sem conflito, sem cena“. Conflito é o que impede o personagem de alcançar seu objetivo – e por conseguinte o que impede a história de acabar muito rapidamente. Conflito é o que compõe a seção do meio/desenvolvimento do arco de cena. O grosso de sua cena irá provavelmente ser tomada pelo conflito. Em nosso exemplo do campo de prisioneiros, o conflito geral da história pode ser ser mais esperto e escapar do oficial cruel que comanda o campo. Mas com relação à cena, este conflito se manifesta de formas como ser pego roubando uma pá, ser chantageado pelo guarda que foi subornado ou discutir com o colega que está inseguro sobre a fuga. Seja qual for o conflito da cena, ele deve surgir naturalmente como um obstáculo para o objetivo. Uma briga aleatória com o valentão do campo pode oferecer conflito mas se não põe em perigo a habilidade do protagonista de alcançar seu objetivo então não é o tipo de conflito que você está buscando. Conflito vem de diversas formas – qualquer coisa desde uma briga com facas até um colapso por conta de um cartão de crédito perdido. Não tem que ocorrer entre duas pessoas. Não tem nem que ser uma briga ou discussão no sentido tradicional das coisas. Tudo que importa é se atrapalha o objetivo da cena de ser alcançado.

Parte Nº 3: Desastre (desfecho)

Enfim, o conflito tem a obrigação de ser resolvido decididamente – e provavelmente sem beneficiar o protagonista. O desfecho da cena é o acúmulo para a próxima Cena. Se tudo estiver muito bem amarrado não haverá nenhum próximo passo lógico e a história acabará. Alguns autores não gostam do rótulo “desastre” para o desfecho da cena pois parece indicar que algo terrível tem que acontecer ao final de cada cena. Se você está escrevendo um thriller, então está tudo bem, mas se sua história for um romance ou uma saga literária quieta? Dificilmente poderá ter gente tomando tiros ou batendo seus carros ao final de cada cena. Isso é bem verdade. É também verdade que é quase impossível terminar cada cena com um desastre total. As vezes para a história andar o conflito simplesmente tem que ser resolvido favorecendo o protagonista. (falaremos mais sobre isso no post “Variações da Cena”)

Mesmo com tudo isso em mente ainda prefiro a ênfase no desastre, se por nenhuma outra razão além de ser um lembrete contínuo de que muito está em jogo e o protagonista está desequilibrado. Como tal, desastres podem vir de várias maneiras. Tiroteios e batidas de carro estão no lado extremo da balança. Do lado mais manso encontramos desfechos que não são favoráveis como: ser feito de otário ao fazer uma má aposta, um pneu furado ao se dirigir a uma entrevista importante ou mesmo deixar aquela caixa de bombons derreter a ponto de virar uma bagunça pegajosa. O desastre também deve desenvolver-se naturalmente a partir do conflito que o criou. Se seu herói toma um fora de sua namorada como resultado de uma briga, isso é um desastre natural. Se ele discute com ela e depois é preso por estar andando imprudentemente na rua (“jaywalking” –  isso é crime em países como Estados Unidos), este provavelmente não será um desfecho muito coerente. Ou você precisa mudar o desastre para se ajustar ao objetivo e ao conflito, ou mudar o objetivo e o conflito para que eles corretamente estabeleçam a prisão como desastre. Nossas cenas no campo de prisioneiros podem acabar desastrosamente com o ladrão de pás não achando uma pá, o guarda subornado ameaçando jogar nosso herói na solitária ou nosso colega assustado lançando acusações de imprudência interesseira. O propósito em cada desastre é que o herói se acha em apuros – o que nos levará direto para a sequência.

A Cena acontecendo

Como exemplo desses três elementos da cena, considere o terceiro capítulo de Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo: Dançar no baile e chamar atenção dos recém chegados de Londres.

Conflito: Há mais mulheres do que homens, então não há parceiros suficientes para todas.

Desastre: Darcy rejeita Elizabeth como parceira.

Então tá ai! Uma cena completa do início ao fim. Uma vez que compreenda a mecânica do mais importante componente de toda história, poderá intencionalmente construir cenas fortes que não teráo só peso próprio mas que irão dar suporte a história e criarão uma trama que flui logicamente e poderosamente do inicio ao fim.

*Nesta série Cena com C maiúsculo se refere a cena em geral (que pode incluir em sua definição a sequência). Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequência para me referir aos dois tipos de Cena.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-2.html

Achei um link com o livro da Jane Austen pra quem quiser checar:  http://www.miniweb.com.br/Literatura/Artigos/livros/Jane_Austen_Orgulho_Preconceito.pdf

Aprenda a estruturar suas cenas


Aqui está o primeiro artigo na série Aprenda estruturar suas cenas. Mais uma vez o artigo foi retirado do site “Helping writers become authors”. Esse site é uma verdadeira mina de ouro e quem souber o inglês não deve deixar de passar por lá. Estou conseguindo esclarecer muita coisa na minha cabeça agora que vejo como uma cena de fato funciona. Aprender a mecânica da coisa certamente está me ajudando, afinal escrever não depende somente de inspiração. Aprender a manejar certas técnicas são imprescindíveis para desenvolver a nossa escrita. Aí vai o texto, divirtam-se!

Estruturando as cenas de sua história, parte 1:

Dominando os dois tipos de cena

Pergunta tipo pegadinha para vocês: Qual a parte mais negligenciada no quebra-cabeças que é a sua história? Okay, então não é realmente uma pegadinha. É uma questão legítima com uma resposta legítima e um tanto assustadora. E a resposta é: a cena. Sim, você ouviu direito. A cena – aquela parte de qualquer história que é mais integral, mais óbvia e mais universal – é também a mais negligenciada e menos compreendida quando falamos da arte de contar histórias. Como se explica a cena? Cada um tem uma resposta diferente.

  1. A cena é a unidade de ação. (Okay, isso é ótimo, mas no que consiste a unidade?)
  2. Uma cena é uma unidade de ação que acontece em um ambiente. (Bem, geralmente isso é verdade, mas há exceções claras.
  3. Uma cena é uma unidade de ação que caracteriza-se por um elenco específico de personagens. Quando esse elenco muda (ex: um personagem entra ou deixa a cena), a cena acaba. (Nem de perto.

É claro, algumas cenas começam e terminam com a entrada de personagens, mas outras continuam com uma porta rotatória/giratória de personagens coadjuvantes que entram e saem.

Antes de seguirmos adiante, gostaria que tirasse um momento e considerasse sua definição de cena. E aposto que quantificá-la é mais dificil do que você pode imaginar, não é?

Os dois tipos de cena

Estruturando seu romance: Chaves essenciais para escrever uma história espetacular.

O problema com a maior parte das definições de cena é que elas são, vamos colocar assim, vagas.

E por serem vagas não são de muita ajuda para autores que desejam entender essa parte fundamental da história. No curso dos próximos doze Domingos gostaria de compartilhar com vocês uma série sobre o âmago da questão no que se refere à cena. Vamos explorar alguns fatos concretos. Vamos aprender a estrutura básica das cenas, variações dessa estrutura e como usar nossa compreeensão sobre esse assunto para comprimir uma sobre a outra até termos uma história que é sólida como uma rocha do início ao fim. Para começar deixe-me ressaltar que estaremos focando em dois tipos diferentes de cenas: cena (ação) e sequência (reação). Na minha opinião estes títulos são absolutamente ridículos e que não ajudam em nada os equívocos em volta da questão. Entretanto, uma vez que estes são os termos normalmente usados para os componentes da história que estaremos falando, decidi mantê-los. Para os objetivos desta série, “Cena” com um “C” maiúsculo se referirá a cena em geral (o qual pode incluir em sua definição a sequência). Usarei um “c” minúsculo e itálicos para cena e sequência quando me referir aos dois tipos de Cenas. Na medida que a série progride, quebrarei as cenas e sequências em pedaços menores para podermos analisar o que as faz funcionar. Mas por enquanto, vamos dar uma olhada no todo.

Infográfico: A progressão emocional da cena e da sequência (Do livro “Structuring Your Novel Workbook”)

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O que é uma cena?

Lembre-se do que falamos semana passada sobre conflito e tensão? A cena é onde achamos o conflito. Esta é a parte da ação na dupla ação/reação. Grandes coisas acontecem nas cenas. Pontos da trama mudam o curso da história. Personagens agem de formas que afetam tudo o que acontece depois. Estas são as cenas que vão se sobressair em suas histórias.

O que é uma sequência?

A sequência é um fator em sua história muito mais quieto mas tão importante quanto a cena. Dentro da sequência achamos os personagens reagindo. Geralmente não há muito conflito direto, mas há abundância de tensão. Estas são as Cenas em que tanto personagens como leitores são permitidos recuperar o fôlego depois dos eventos desenfreados e fascinantes das Cenas anteriores. Reações serão processadas e decisões serão tomadas de modo que os personagens possam pular de volta na próxima cena.

Enquanto mergulhamos mais profundamente no mundo excitante da Cena, falaremos sobre como estruturar o arco de cada Cena, como ligar todas as cenas e sequências de forma que elas se comportem como pequenos dominós, como utilizar esse conhecimento para detectar problemas na trama, e iremos fundo brevemente no nivel micorscópico do parágrafo e estrutura de frases dentro da Cena.

Será divertido, então fique de olho!

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-1.html

Como usar o “foreshadowing”


Achei um texto incrível de K.M. Weiland que traduzo livremente para vocês. O original pode ser encontrado no endereço: http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2013/04/how-to-use-foreshadowing.html

Na tradução literal foreshadowing significa prenúncio, prenunciar (também anunciar e prever).

Como usar foreshadowing

Foreshadowing é uma parte necessária de qualquer história bem executada. No entanto, apesar de sua prevalência e importância, é na verdade um conceito que muitos autores tem dificuldades em compreender. Se desmembrarmos o foreshadowing à sua forma mais simples, poderíamos dizer que ele prepara os leitores para o que vai acontecer mais tarde na história. À primeira vista isso pode parecer contra-intuitivo. Por que iríamos querer que os leitores soubessem o que irá acontecer mais tarde na história? Se souberem como o livro se desdobra não terão razão alguma para continuar lendo.

É claro.

Então deixe-me dizer novamente. O objetivo do foreshadowing é preparar os leitores para o que acontece adiante na história. Não é contar a eles, é prepará-los. A maior força do foreshadowing está em sua habilidade de criar uma história coesa e plausível. Se os leitores entendem que é possível que alguém na sua história seja assassinado, não ficarão completamente em choque quando o “sidekick” (assistente do herói) levar uma machadada mais a frente. Se, entretanto, você falhar em fazer um foreshadow apropriado desse evento triste, os leitores ficarão chocados. Eles acharão que você os enganou sobre a história que eles pensavam estar lendo. Pensarão que você, em essência, mentiu para eles para então enganá-los com esse grande assombro. Leitores não gostam de ser trapaceados, ou que mintam para eles, ou ser enganados. E é ai que entra o foreshadowing.

Foreshadowing, parte 1

A implantação

Podemos quebrar o foreshadowing em duas partes menores. A primeira parte é a plantar a dica. Esta é a parte onde você sugere aos leitores que alguma surpresa ou algo importante irá acontecer mais tarde no livro. Se o bandido irá sequestrar o filho do mocinho, a dica plantada deve ser o momento em que o herói percebe um cara assustador passando tempo no playground. Se sua heroína vai ser abandonada no altar, sua dica plantada pode ser a ambiguidade do noivo em relação às preparações do casamento. Dependendo do que está sendo foreshadowed a dica plantada pode ser evidente ou sutil. Ser sutil é quase sempre melhor, uma vez que você não quer revelar a reviravolta da trama. Mas, ao mesmo tempo, duas dicas tem que ser óbvias suficiente para que os leitores se lembrem delas depois. Comumente quanto mais cedo você plantar a dica de um evento, mais forte e mais coeso é o efeito que criará. Quanto maior o evento, mais importante será plantar a dica cedo. Como editor Jeff Gerke escreve em “The First 50 Pages”:

Basicamente você precisa nos fazer conhecer as regras. Se o clímax de seu livro consistirá em entrar numa máquina do tempo e fugir  em segurança, é melhor sabermos nas primeiras cinquenta páginas que no mundo de sua história a viagem no tempo é possivel.

Foreshadowing, parte 2:

A Recompensa

Uma vez que sua dica plantada estiver no lugar, tudo o que resta é trazer a recompensa para o palco. Se plantou dicas sobre sequestro, rejeição da pessoa amada, ou viagem no tempo, esta é a parte onde você deixa essas cenas importantes se desenrolarem. Enquanto fizer um bom trabalho de implantação, provavelmente nem precisará relembrar as dicas de antes. Na verdade, é provável que crie um efeito mais sólido se deixar os leitores juntar os pedaços do quebra-cabeças por sí mesmos. Mas também encontrará momentos – geralmente de eventos menores aos quais foram plantadas dicas menos óbvias-  que será benéfico fazer uma referência à dica original (EX.:”George, seu grande malvado! Agora compreendo porque você não queria escolher o vermelho ou o roxo para os  vestidos das damas de honra!”). A coisa mais importante a ser lembrada sobre a recompensa é que ela precisa sempre acontecer.

Se plantar dicas, pague a recompensa. Assim como leitores ficarão confusos com uma reviravolta que não foi prenunciada, irão também ficar frustrados por um foreshadowing que os excita e os leva a lugar algum.

Forshadow versus Telegrafar

O truque para um bom foreshadowing é preparar seus leitores num nivel subconsciente para o que virá sem deixar que eles adivinhem os detalhes da trama.Você não quer que suas dicas sejam tão óbvias a ponto de remover todo suspense. Em seu artigo “Making the Ordinary Menacing no Writer´s Digest de Outubro de 2012: 5 meios”, Halle Ephron rotula isso de “telegrafar”:

Quando insere uma dica do está por vir, olhe para ela criticamente e decida se é algo que o leitor irá passar por ela mas lembrar-se depois com um Aha!

Isso é foreshadowing. Mas se ao invés disso o leitor geme e  adivinha o que está vindo, você acabou de telegrafar. Alguns leitores espertos sem sombra de dúvida serão capazes de interpretar suas dicas, não importando o quão ardiloso você seja. Mas se puder enganar a maioria dos leitores a maioria do tempo, pode se dar por satisfeito.

Foreshadowing (prenúncio) versus presságio

Presságio –  aquele sentimento na pele de que algo horrivel irá acontecer –  pode ser uma faceta útil do foreshadowing. Sozinho o presságio não é específico suficiente para ser foreshadowing. Diferente das dicas plantadas para o foreshadowing, o presságio é só uma aura ambígua de suspense. Jordan E. Rosenfeld descreve em “Make a Scene”:

Foreshadowing… dá a dica para eventos reais da trama que estão para acontecer, mas o presságio puramente define o tom.

Ele eleva o sentimento de tensão numa cena mas não necessariamente indica que algo ruim irá realmente acontecer. O presságio é útil para definir as emoções dos leitores lá no limite sem sem dar nenhuma dica evidente. Mas quando falamos de plantar dicas de eventos importantes, sempre reforçe seu presságio plantando algumas dicas específicas. A maioria dos autores tem um entendimento do foreshadowing tão intrínseco que eles plantam a dica e pagam a recompensa mesmo sem se dar conta de que é isso que estão fazendo. Mas, quanto melhor entender a técnica, melhor irá manejá-la. Usando essa abordagem simples para o foreshadoing, poderá fortalecer sua história e a experiência de seus leitores.