Criação de personagens

Ok, você então tem uma boa ideia para sua historia, já escreveu ela no papel (com apenas 15 palavras!) e expandiu esse pensamento incluindo três disastres e o final.
Todo esse trabalho é chamado pelos autores de “pre-writing”, ou seja, é o trabalho que faz antes de começar a escrever seu livro. Posso traduzir livremente como pré-escrita. Esse trabalho nos ajuda a organizar as ideias de forma que possamos facilmente utiliza-las no futuro. Isso nos dá uma boa noção geral da historia e nos auxilia a identificar as partes que tem falhas; verdadeiros buracos na trama, que precisam ser preenchidos.
Agora vamos passar a fase dos personagens. Sabe, descobri que editores adoram histórias que são focadas nos personagens ao invés de ser focado na trama.
Por ser um assunto tão extenso vou começar falando do básico. Até porque também, este artigo é produto das pesquisas que tenho feito para melhorar o meu projeto atual (chamado de A Vila – que é um nome provisório, é claro!) então o artigo vai seguir o meu desenvolvimento. A medida que meus personagens forem evoluindo e ficando mais densos irei escrever outros artigos sobre personagens, me aprofundando no tema.
Bem, minha primeira descoberta foi: para uma história ser bem sucedida, precisa de personagens marcantes, personagens que os leitores gostem ou simpatizem, personagens complexos – porque pessoas são complexas – e quando alguém pega um livro ela quer viver a vida através dos olhos do personagem. Resumindo, seus personagens precisam ser tridimensionais. Dessa forma os leitores vão se identificar com eles e não vão largar o seu livro até que saibam o que aconteceu no final. Isso acontece porque eles se vêem no personagem, se importam com ele, porque a dor do personagem é a mesma dor que o leitor sente. Porque as dificuldades que o personagem encontra são as mesmas que estão presentes na vida do leitor. Ou porque o personagem é tão divertido que o leitor não quer mais nada a não ser passar todo seu tempo livre com ele. As pessoas se enxergam nos personagens, simpatizam com eles, vivem através deles.
Como então fazemos isso?
Quando lidamos com pessoas sabemos como ela vai reagir se exposta a determinado problema. Sabemos se ela vai chorar ao receber tal notícia, ou se vai rir quando ouvir uma tal piada. Você conhece a pessoa. Quando escrevemos um personagem precisamos conhecê-lo para prever suas ações e reações no desenrolar da historia. Temos que conhecê-los por dentro e por fora. Mas esses personagens não existem (a não ser na sua cabeça), não são pessoas de verdade. Eles não tem vida própria. Cabe a nós escritores criar essa vida para eles. E essa é a tarefa dessa semana!
Primeira coisa foi traçar o perfil físico do personagem. Com detalhes. Se é alto, magro, homem ou mulher. Cor dos cabelos, pele e olhos. Formato do rosto, boca, pernas e por aí vai. Escreva tudo o que puder. Tudo o que vier a mente. Até altura, peso e idade. Ele precisa de parecer real aos seus leitores, então dedique-se a esses detalhes. Faça então a mesma coisa para o perfil psicológico. Escolha os traços de caráter, personalidade e tudo o mais.
Para isso eu estou adotando o hábito de fazer exercícios de escrita com esses personagens. No início comecei fazendo listas. Listas de atributos físicos e psicológicos, habilidades, defeitos, fraquezas, virtudes. Essas listas me fizeram pensar nos porquês de certas coisas. Porque ela tem medo de ratos? Porque ele não gosta de gente rica? Porque ela é muito apegada ao dinheiro, e as coisas materiais?
Outro exercício que achei sugere que entrevistemos nossos personagens. Faça uma lista de perguntas como: onde nasceu? Mora com os pais? Qual a sua ocupação? Gosta de assistir tv? Qual o melhor programa na sua opinião? Qual foi seu professor favorito no primário? e hoje? Qual foi o seu pior chefe no trabalho? Qual sua musica predileta? E filme? Você gosta de si mesmo? Porque sim? Porque não?
A gente precisa de sentir o personagem, conhecer a sua voz. Todos esses exercicios de escrita me levaram a começar a escrever a historia do personagem. Lí que a historia pessoal do personagem é a coluna sustentadora de qualquer livro. Se vocês prestarem atenção vão concordar que isso é verdade. Pensem nos livros que leram e que mais gostaram. Amei os livros de Tolkien (série Senhor dos Anéis) mas sem sombra alguma de dúvida quando penso nele, o que é que me vem a mente? Os personagens, é claro. Me lembro de Gollum, e de Frodo e Sam. Os detalhes do mundo em que se passa essa aventura ficaram esquecidos. Mas o sofrimento de Frodo não! E para quem gosta de Anne Rice, tem Lestat, Louis e Armand. Eles são realmente inesquecíveis.
Estou dando uma de Dr. Frankeinstein, tentando trazer esse personagem á vida. Hushsuashahahahehehehe (tradução: risada macabra). Dando um passo mais adiante descobri mais um exercício supimpa. Escrever o passado do personagem. Escreva cenas do passado. Uma cena dele/dela brigando com os pais. Uma cena na escola, ou no trabalho. Coloque seu personagem em situações que ele é obrigado a tomar uma decisão. Ou em situações engraçadas. Escreva uma cena em que o personagem está no shopping e uma mulher entra em trabalho de parto na frente dele. A criança vai nascer bem ali, o que seu personagem faz? Ele ajuda a mulher? Ele corre e chama um médico? Ele se desepera e vai embora do local correndo? Ele vomita? Faça isso, mesmo que nunca vá utilizar esses textos no seu livro. Nesse exercício os dois lados saem ganhando. Para você é exercício. Você melhora a sua escrita. E para para o personagem é vida que ele ganha, são experiências que acumula.
Bem, agora que você tem uma boa ideia de quem vai estrelar na sua historia, escreva um sumario de uma linha contendo a parte dele nessa historia. Tipo: “aeromoça mal humorada tem que suportar as trapalhadas de um passageiro bebum” (e consegui isso em apenas treze palavras! Estou melhorando!).
Outro exemplo: “Jovem satanista é escolhida para conduzir noviço a uma cerimônia secreta sem que melhor amiga descubra” (oops, tem uma palavra extra. Preciso de praticar mais!)
Expanda o sumário de uma linha que já escreveu para cada personagem incluindo: o que motiva o seu personagem ou o que ele deseja abstratamente? Qual é o seu objetivo na vida, ou o que ele quer de concreto? Qual é o conflito deste personagem ou o que o impede de alcançar seus objetivos? Como seu personagem irá mudar? Ou o que ele vai aprender no fim da historia?
Lembre-se que a qualquer momento você pode (e deve) voltar nas etapas anteriores e adequá-las ao personagem que está nascendo dos seus exercícios. Eles não serão perfeitos já na primeira tentativa. A medida que for escrevendo irá perceber algumas verdades sobre ele e terá que modificar uma coisa aqui ou ali para que seja coerente. Lembre-se sempre que o personagem precisa ser real para os leitores. Trate-o como se fosse uma pessoa de verdade e eles vão ganhar vida diante dos seus olhos. Saibam que o motivo nº1 de manuscritos rejeitados por editores é a presença de personagens achatados, com apenas uma dimensão. Da mesma forma que pessoas tem várias dimensões assim também devem ser seus personagens.
Um abraço e até a próxima!

18 pensamentos sobre “Criação de personagens

  1. Bem, eu nunca fiz esses exercícios de criação de personagem. Eles sempre me pareceram muito… Ficha de RPG. Descrição, personalidade, etc; esse tipo de coisa me toma muito tempo pra escrever e no fim eu não vou usar direito. Apesar disso, creio criar personagens bem reais. Minha dica é não pensar neles como um estereótipo e sim como pessoas reais. Estereótipo não precisa ser “Herói trágico”, “Princesa raptada” etc, mas sim coisas mais amplas como “Bom” e “Mau”. A maioria dos autores tem HORROR a fazer seus protagonistas fazerem algo moralmente desaprovado, e aí ficamos com personagens unidimensionais. Mas quem foi que nunca fez algo ruim na vida? Eu tenho vários personagens com ene erros desse tipo. Minha princesa tem uma paciência de Jó, mas quando não gosta de alguém, ela realmente não gosta – Não importando se a pessoa é boa e quer muito provar que não quer o mal dela – Além de ser paranóica a níveis perigosos. Um padre meu odeia a tudo e a todos e não quer conversa com ninguém, além de também cismar com pessoas. Um arqueiro meu é um manipulador que se faz de ótima pessoa, mas é tapado e não consegue perceber as pessoas que querem seu mal à sua volta (E pra isso precisa do padre). Enfim, eles fazem coisas erradas. E arcam as consequências por isso. E têm as imagens manchadas por isso.

    Outro problema, ainda na questão de bem e mal, é o autor FAZER o personagem fazer coisas ruins, mas não pôr na luz que ele fez besteira. O autor acaba glorificando o erro e ninguém parece ligar muito – Se ligam, a personagem logo dá um jeito e tudo termina bem – E aí ficamos com uma personagem irreal.

    Minha maior dica, porém, são os detalhes. Falemos de figurantes, personagens terciários: Uma coisa é um padeiro, um guarda, uma dançarina numa trupe. Outra coisa é um padeiro cujo filho foi sequestrado há muito, um guarda de bigode que tem nome ambíguo e até comenta com o personagem principal sobre como sempre odiou o nome e como sempre lhe trouxe transtornos, uma dançarina de rua que vem de muito do sul e cuja família morreu na viagem e agora tenta uma existência digna. Se esses detalhes caírem na narrativa, eles enriquecem. O primeiro grupo são só nomes, o outro grupo são pessoas, mesmo que só apareçam por uma página.

    Então, fui adicionando detalhes nos meus personagens. Minha princesa tem insônia e fica as noites que viaja mexendo na fogueira; meu arqueiro não gosta de doces e odeia o nome próprio – Usando só o primeiro sobrenome -; meu padre tem uma irritante mania de mastigar uma folha de uma erva calmante (Que é venenosa quando aquecida e que vai acabar matando ele com o tempo). Minha freira teve catapora aos 18 anos, só.

    Detalhes roxam. ❤
    Adorei o post, btw. Que bom que tem um blog brasileiro ajudando em escrita 8D

    • Hey Grinch, adorei seu comentário. O que quis dizer é que a gente constrói o personagem aos poucos. O exercício não foi inventado por mim, achei num site estrangeiro mas acho que vale como ponto de partida. É realmente uma ficha de RPG mesmo. Pelo menos foi isso que entendi. Começa com uma lista seca e fria e aos poucos vamos adicionando todos esses detalhes que você mencionou até chegarmos a um personagem bem multidimensional. Vivo. Acho que algumas pessoas tem mais facilidade em montar personagens e outras , sei lá, em construir diálogos. Certamente você não tem problemas em elaborar seus personagens, então pode pular várias etapas desse processo (por exemplo, esqueça a tal da lista de RPG, você não precisa dela!). Embora também tenha pulado a parte da lista de RPG na construção dos meus personagens, achei que deveria pensar nas pessoas que não tem a mínima ideia de onde começar. Tenho visto que muitos adolescentes e até pré-adolescentes tem lido o blog, então decidi fazer algo que todos pudessem aprender. Muito bom o seu comentário. Ele complementa alguns aspectos que faltaram no meu artigo. Num some não, eu vou sempre postar algo novo aos Sábados. Seus comentários serão muito bem vindos.

      • Não podia concordar mais sobre as pessoas que não tem a mínima idéia sobre como começar. Isso me faz lembrar da minha primeira história original séria que parou acho que no quinto ou sexto capítulo e nunca mais viu a luz do dia. Naquela época, eu queria fazer algo BOM… Só que eu também não sabia por onde começar. Meu protagonista terminou como um estereótipo de Kid Hero (http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/KidHero), a não ser pelo fato que ele era fraquinho e nunca conseguiu derrotar muita gente na história. Still, eu tinha pavor a fazer ele fazer algo ruim. O “mentor” dele, por sua vez, roubava inúmeras coisas que eles precisassem pra viagem, coisa que meu Kid Hero desaprovava na hora.

        Oh, o clichê. Eu precisava melhorar isso.

        Até que chegava a hora que meu Kid Hero iria matar uma pessoa e não demonstraria remorso por isso (Nunca cheguei a escrever essa parte). Pera, isso é hipócrita. Eu teria que repensar essa parte melhor. Então, por que não fazer meu Kid Hero (O nome dele original era Seyren, que eu tinha tirado do Ragnarok Online. Sim, eu era jovem e sem imaginação na época. Agora o nome dele é Seymour e muda pra Seizhen, tudo uma alusão pro número 7, que tem bastante espaço na história). Uhh, me desviei do foco. Prosseguindo: Por que não fazer meu Kid Hero, o Seymour, FAZER algo BEM errado, mas aí ele ficar completamente depressivo por isso? A pontos perigosos? Aí achei uma perturbação interessante pra ele: Ele seria obsessivo com o conceito de bem e mal, e louco por fazer sempre as coisas boas e ser o melhor possível. Isso o levaria à ruína, uma hora.

        Nisso, cheguei a uma subversão. Eu tenho um personagem Bom. Mas ele é tão compulsivo com o conceito de Bom que vai acabar ficando louco antes dos 20 anos e vai acabar fazendo muita besteira por esse conceito, tanto pra ele quanto pra amigos e inimigos. E os outros personagens NOTAM isso, nos levando a vários sub-plots que podem envolver essa maluquice dele.

        Acho que estou divagando demais, mas deixa só eu completar o raciocínio…

        Chegamos aí ao Twist, à subversão, ao anti-clichê, ao WHAT THE HELL I DON’T EVEN que fará o leitor se espantar. E que fará nossos personagens reais. Eu adoro subversões… Demais. Minha história, que se chama Märchen-Engine: Falso Märchen (Nome provisório pra série), brinca especialmente com troços de contos de fadas europeus. As outras histórias da série brincarão com contos de fadas de outros lugares do mundo e espero que eu consiga fazer isso tudo direito. XDD

        Bem, não sumirei. Sempre que quiser – Ou que postar – Estarei aqui. Já até favoritei o blog, agora vou dar uma olhada nos outros posts pra ver se tem algo pra eu fazer minha montanha de texto nos comments. \o

  2. Pingback: Os números de 2010 « FENIX RESURRECTED'S BLOG

  3. Me amarrei no post e nos comments! Estou LOUCO por começar meu livro, mas não sabia por onde, especialmente no que diz respeito a personagens. Hoje mesmo a tinta vai tocar o papel e vou começar a rabiscar uma história; valeu galera 🙂

  4. Ola. O meu nome é Jorge e sou de portugal. Adorei o seu topico. Ate porque estou a procura de ajuda para criar as minhas proprias personagens para um livro que estou a escrever. Pensei numa historia em que pudesse envolver dons e crianças e fantasia e por isso ja criei algumas listas de caracteristicas para as minhas personagens principais.Gostaria imenso que me desse feedback destas mesmas listas. Deixo aqui o meu email para que você me contacte e assim eu lhe mando o que já fiz para poder saber a sua opnião… aguardo: jorgenunes89@hotmail.com
    Beijo

    • Olá, Jorge!
      Eu sou Renato. A Barts me pediu para ajudá-la com o blog, pois tem estado sem tempo.
      Tudo bem com você?
      É já que te envio um e-mail para que possa me mandar o que quiser. Espero poder te ajudar.
      Abraço.

  5. Deixo aqui aquilo que já fiz até agora para as minhas personagens (algumas)… espero uma resposta da vossa parte. Abraço

    James Buttler o helpender © Jo Nunes 2012 – 2018

    Personagens
    (características e biografias)

    James buttler
    Pessoal
    Nome completo: James Andriew Buttler
    Significado do nome: Nenhum
    Apelido: Jamie
    Nascimento: 13 de novembro de 1989 (12 anos quando começa a história)
    Cor dos olhos: Claros
    Cor do cabelo: Castanho claro
    Descrição física/aparência: Cabelo curto. Pele branca. Sem sinais no rosto. Estatura média alta. Entroncado. Lábios finos. Olhos pequenos e brilhantes. Orelhas tapadas pelo cabelo. Dedos grandes. Forte. Faces pouco rosadas e cara oval.
    Marcas Caracteristicas: Tem um olho de cada cor. Num deles a iris em vez de ser um círculo é uma vírgula como os gatos, que é a marca de todos aqueles que nasceram com um dom.
    Roupas e Acessórios: Calças de ganga com um cinto preto. Camisola larga. Usa um relogio prateado falso comprado nos chineses. Usa botas da montanha.
    FAMILIA, AMIGOS E INIMIGOS
    Pai: Patric louis buttler (49 anos)
    Mãe: Bonnie parkar buttler (47 anos)
    Irmãos/irmãs: Helen Andriew Buttler, apelidada de “Len” (16 anos)
    Avô/avó: Andrew
    Melhores amigos:
    Inimigos: Perry (tipo gordo que lhe batia na sua infancia)
    Relacionamentos:
    Animal de estimação: Spenks – Papagaio (todo verde, com excepção da cabeça vermelha e da barriga azul)
    Localidade de residencia: Vive num estado norte-americano, nos suburbios de uma cidade.

    Objectos, poderes, etc…
    MAIOR DESEJO: No início apenas poder defender-se e encarar de uma vez por todas, Perry. Depois, formar uma academia para futuros helpenders
    MAIOR MEDO: Não conseguir acordar dos pesadelos que tem regularmente.
    PIOR MEMóRIA: Quando perry o prendeu a uma árvore pelos pés de cabeça para baixo
    VISõES E OUTRAS CAPACIDADES: Vê as doenças que os outros à sua volta irão ter no futuro, mas nada plausivel de explicação com lógica.
    BIOGRAFIA
    FASES DA SUA VIDA
    Nascimento:
    InfÂncia: Criança introvertida, sempre com medo de Perry.
    Adolescência: Apatico. Não se dá com a irmã e gosta de se aventurar. Relação com os pais bastante negativa. Sempre tenta procurar mais gente igual a si e assim isola-se mais da familia.
    Maturidade: torn a-se temerario e faz bom uso do seu dom. Possui já a sua tao desejada academia.
    Escola: mesmo sendo um excelente aluno passa sempre ao lado dos outros

    Helen buttler
    Pessoal
    Nome completo: Helen Andriew Buttler
    Significado do nome: Nenhum
    Apelido: Len
    Nascimento: ( anos quando começa a história)
    Cor dos olhos: Cor de amendoa
    Cor do cabelo: Loiro e liso
    Descrição física/aparência: Feiçoes rudes. Sem peito. Alta e magra.uso de maquilhagem. Cabelo preso.
    Marcas Caracteristicas: Nenhuma
    Roupas e Acessórios: Vestidos claros. Pulseiras.
    FAMILIA, AMIGOS E INIMIGOS
    Pai: Patric louis buttler (49 anos)
    Mãe: Bonnie parkar buttler (47 anos)
    Irmãos/irmãs: Helen Andriew Buttler, apelidada de “Len” (16 anos)
    Melhores amigos:
    Inimigos: Relacionamentos:
    Animal de estimação:
    Localidade de residencia: Vive num estado norte-americano, nos suburbios de uma cidade.
    Objectos, poderes, etc…
    MAIOR DESEJO: Conseguir ser psicologa de renome e ajudar as pessoas
    MAIOR MEDO:Perder o irmão
    PIOR MEMóRIA:
    VISõES E OUTRAS CAPACIDADES:
    BIOGRAFIA
    FASES DA SUA VIDA
    Nascimento:
    InfÂncia:
    Adolescência:
    Maturidade:
    Escola: Aluna do primeiro ano da escola dos Helpenders

    • Olá, Jorge!
      Aqui é o Renato novamente.
      Esse é o conteúdo que me enviaria por e-mail?
      Ele parece bem interessante.
      Uma coisa que faço para me ajudar a entender meus personagens é fazê-los responder a um questionário. Seria como uma entrevista. Imagine que eles estão em um programa de TV famoso de onde mora. Faça perguntas relevantes. Imagine que eles são celebridades. Por que os espectadores assistiriam a uma entrevista com eles? Ela está interessante? Não? Pois torne-as interessantes. Faça da vida deles algo fora do comum. Nossos personagens não podem ser comuns. Eles devem atrair o espectador. Se você não os achar fortes, com uma personalidade que chame atenção, o leitor também não se sentirá atraído.

      Você lê em inglês? Se sim, existem incontáveis questionários na internet que trazem perguntas bem interessantes para que possa aprofundar seus personagens. Se fizer uma busca por “character sheet writing” verá que existem formulários para todos os gostos. Dos mais simples aos mais complexos. Caso não saiba inglês, creio que você possa usar um tradutor online para traduzir a página da web em que os formulários se encontram.

      Acho que quanto mais você souber sobre seus personagens, melhor. Mas isso não quer dizer que irá utilizar toda a informação contida ali.

      Espero ter ajudado. E se quiser saber algo mais específico, é só perguntar e tentarei ajudá-lo.

      Abraço.

  6. olá reanto, me desculpe or nao ter respondido. muito obrigado por sua dica. voce gosta de harry potter? se gosta vai adorar meu livro

  7. Muito obrigado mesmo…. acabei de começar a formatar meu livro e descobri que na verdade faltava “vida”, ao meus personagem, depois desse post posso enfir realizar o sonho de ter uma boa historia a conpartilhar….

    “Que os ventos da inspiração sigam sempre com você”…

    Abraços…

  8. Olá de novo. Peço desculpa não ter vindo dizer mais nada aqui mas acabei não escrevendo mais. Nos dias de hoje ganhei uma vontade imensa de voltar a escrever a historia e queria saber se você fênix acha que tenho hipóteses de criar uma boa historia com as características das personagens que lhe dei. Obrigado e aguardo sua ajuda

    • Ei Jorge, também estive afastada do blog por uns tempos. Ando me dedicando a escrever livros infantis em formato de quadrinhos e atualmente estou fazendo um curso de colorização de HQ. Por conta disso a parte de roteirização vai ficando um pouco de lado mesmo. Mas é assim mesmo, a nossa inteligência trabalha em grandes jorros, ou estirões e daí pára para o cérebro dar conta de assimilarmos aquilo que aprendemos. Então, depois dessa parada, começamos um novo ciclo de interesse, damos um novo estirão de aprendizado e é ai que você se encontra agora, naquela vontade louca de querer voltar a escrever e aprender etc. Não se preocupe, você é normal, acontece com todo mundo dessa mesma forma. As vezes fico longos tempos sem criar nada e do nada puft! volta aquela vontade e o ciclo recomeça!!! Bem, vamos às suas questões: eu não sei quais são as premissas da sua história porque você conversou com meu amigo Renato Gondim na época em que entrou em contato com o blog. Me parece que enviou os dados da sua história para ele e a partir daí conversaram sobre o assunto. De qualquer forma sei que podemos tirar boas histórias de qualquer ideia, basta sabermos trabalha-la. Li a lista das características das personagens que enviou naquela época. Fica difícil dizer qualquer coisa que seja justa sobre seus personagens porque nessa lista eles ainda estão no estado mais bruto possível, ainda estão nascendo, são bebês. Como posso julgar personagens que mal nasceram? Isso não seria justo. O que precisa fazer é começar a escrever pequenos contos, relacionados ou não com a trama do livro, usando esses personagens. Precisa começar a usar esses personagens, trazê-los á vida, fazer com que eles falem com você e com o publico. Essas características deles tem que se mostrar nessas historietas, têm que sair do papel, do mundo 2D e se tornar real e palpável. Tenho um personagem das minhas webtiras “As Aventuras de Ciça e a Vovó Zumbi” que se chama Rodrigues. Quando eu o escrevo sei exatamente o que ele diria em cada situação e como ele agiria e também se desenhá-lo fazendo algo diferente de sua personalidade ele já me denuncia pois ele está tão vivo dentro de mim que sua voz é inconfundível. Você precisa chegar a esse nível com todos os personagens principais antes de começar a escrever sua história, então por isso escrever essas historietas ou contos não relacionados é tão importante. Porque te dá a base de sustentação a qual seus personagens se apoiam. Bem, vou parar por aqui senão eu é que vou acabar escrevendo um livro. Mais uma vez desculpe pela demora. Espero que continue escrevendo bastante e boa sorte! Bjus Barts

  9. Olá de novo. Recomecei a escrever meu livro de novo. Até ao momento uma revista aqui de Portugal se mostrou interessada na história e até me fez uma entrevista. Dizem que pode ser bastante interessante da maneira como lhes contei tudo. Penso que será uma história que cada um de nós se poderá ver nela. Gostaria dentro dos possiveis passar por cá mais vezes e partilhar com voces um pouco da historia caso seja possivel. ate agora eu tenho um outro livro e gostava so de colocar aqui um pouco do veu..

    Capitulo Primeiro

    DESCONHECIDOS

    Estava calor. Um calor abafado e insuportável quando me pus à espera da minha mãe, que me viria buscar no seu novo Mercedes cinzento. Chegara a hora da minha mudança, uma mudança completa na minha vida, mas que só agora me punha a pensar em vários fatores que tinha de equilibrar entre positivos e negativos. Neles, eu podia ver claramente muitas coisas boas, como os verões passados na praia quente e solarenga de Katerown, com amigos de infância, ou as voltas à cidade de bicicleta, um dos meus hobbies favoritos.
    Uma mala e uma pasta seriam as únicas coisas que tinha pensado levar para a casa dos meus padrinhos, em Sutterfrin, lugarejo para onde iria viver nos tempos que se avizinhavam.
    No entanto, fora a cidade de Katerown que me vira nascer. Apenas as complicações financeiras e as discussões tornavam tudo tão insuportável que eram as principais razões do destino agora traçado e pelo qual esperava com alguma ansiedade, pois não conseguia ter mais sossego fosse dentro ou fora de casa e para mim já não havia nada a fazer para superar tais incómodos.
    – Ainda estás a tempo de não ir! – Avisou-me a avó “Camila”, como era conhecida lá na rua, estando quase a chorar com a minha partida. E eu sabia que no meio de tanta turbulência ela era a única na família que ainda me compreendia. Mas eu tinha mesmo que pensar na viagem para Sutterfrin e afasta-me de vez das incertezas que ainda podia ter.
    A viagem seria penosa, demorada e muito quente, já que o interior do carro, bastante bonito e com pele de camelo , tudo aquecia mais do que devia, e por mais de uma vez que já assistira a pequenos fogos no seu interior. Mas nada que me afligisse mais do que umas possíveis saudades, que de certeza que iria ter a curto-médio prazo. No entanto via também esta mudança como uma oportunidade de poder tornar-me melhor e principalmente por sair do inferno que a minha casa tinha dentro dela. Lá, os dias pareciam não ter fim, em que eu, era o alvo para todas as conversas e assuntos sem o mínimo interesse. Deste modo mantinha-me distante e até já tinha a decisão mais que tomada, ao ponto de ser matriculado na escola mais popular da nova cidade, o Liceu de Awferid onde esperava fazer novas amizades.
    Era bom estar a pensar em algo assim mas estava tão absorto em tais pensamentos que quando voltei a mim a minha avó estava a esbracejar e a gritar comigo, algo que era normal nela quando sentia que estava a falar para o boneco ou quando estava muito nervosa. Ambas as coisas dariam para ela estar a ter um enfarte, pois eu estava mesmo a leste.
    Finalmente o som de uma buzina. Rouca, estranha, mas que cortou aquele ambiente pesado em que eu tentava explicar à minha avó que não estava nada a ignorá-la e sim a pensar em como me devia comportar quando chegasse perto dos meus padrinhos. O que no meio daquelas ideias todas me tinha escapado por completo, mas com alguma sorte passou por palavras verdadeiras.
    – Vê se não ficas sem comer e se não apanhas frio Dani. – Acrescentou por fim a voz da pessoa mais preocupada no meio de uma despedida silenciosa da minha parte. De facto aquelas foram as últimas palavras que ouvi da minha avó mesmo antes de me passar, pois detestava aquele apelido. Ao menos agora iria ser chamado de Daniel ou Foller, mas não de Dani, que era um apelido muito irritante na minha opinião. A história dele remonta duma festa do quarto ano, quando interpretei o papel de uma rapariga chamada Dani e que todos na família viram como um papel de uma verdadeira estrela pois como tinha a voz muito fina, era ideal para mim, segundo eles. Mas eu não apoiava nada disso e como passado que era tinha de ficar enterrado na minha infância, o que muitas vezes e contra a minha vontade não acontecia.
    Mas ao largo disto tudo eu estava era concentrado numa luz que cintilava no asfalto quente e a exalar fumo que se precipitava para o ar. Alguém me acenava e isso era bom sinal, pois só havia uma pessoa capaz de fazer tal cumprimento sem sequer chegar à minha beira. Uma pessoa com uma Harley Davison que percorria ruidosamente a estrada em direção a mim. Com uma mota que parecia uma gelatina depois de atacada por uma colher, tremendo por causa do calor e que eu adorava, só por saber que era única em toda a cidade de Katerown.
    O meu pai chamou o meu nome e logo reconheci a sua voz, grave e robusta. O seu tronco atlético e desportivo. Ele trazia um casaco de cabedal apertado até ao peito, umas calças verde alface que comprara no Havai, nas primeiras férias com a minha mãe, e infelizmente estava agora a lembrar-me mais de coisas boas do que de más para ser capaz de deixar tudo para trás sem vacilar, o que momentos antes me parecia completamente impossível de fazer com a minha decisão já mais que segura. Mas a mota distraiu-me uma vez mais e com ela trouxe um cheiro forte a gasolina num tom carregado, que era a única coisa que pecava em algo que admirava tanto.
    Olá rapaz! – Exclamou com um sorriso o meu pai para que eu acordasse de vez. – Estás grande. E a tua mãe como está?
    Era claramente uma pergunta de provocação, pois ele sabia perfeitamente como ela estava, mas eu não me importei muito com a pergunta e então respondi de forma rápida e fechada.
    – Bem…
    – Pronto para mudarmos de ares? – Questionou ele de modo bastante aberto e parecendo empolgado com a ideia.
    Momentaneamente um arrepio atravessou-me as costas, e suscitou em mim um medo de morte.
    – Tu…. Estás apto a conduzir a mota? – Aquele era um receio que tinha sempre que o meu pai parecia muito empolgado com algum assunto, ou quando o dia dava razões para tal. Normalmente não passava sem um acidente por semana quando saía de casa contente. Apenas porque era um distraído e não prestava atenção aos sinais de trânsito, ou por estar a olhar para as nuvens, que, segundo ele, o faziam esquecer dos problemas.
    Depressa me arrependei da pergunta feita mas por sorte ela saiu bastante baixa, de modo a que ele não ficasse zangado, e no fim, apenas um riso abafado saiu e ele sorriu.
    – Bem… Acho que sim. Achas que podemos ir?
    Fiquei fascinado da maneira como ele falou e pouco tempo de pois vi como a mota se movia graciosamente ao passar por entre as faixas brancas da estrada velha e esburaca pelo imenso tempo em que já não via obras nela. O vento passava por entre os meus cabelos ora ondulados ora retesados, e parecia que as minhas preocupações desaparecido como se fossem apenas excertos de um sonho mau e que daí em diante ficariam apenas numa nas almofadas do meu antigo quarto.
    Agora sentia-me livre como uma ave no céu. A sensação de estar a sair das preocupações da minha “outra” vida, era de alegria e bem-estar, e eu estava com a sensação de ser capaz de recomeçar do zero.
    Foi durante a viagem, que demoraria cerca de meia hora até ao largo onde viviam os meus padrinhos, que eu e o meu pai tivemos a grande oportunidade de nos falamos, mas eu sabia que em princípio, tímido como ele era, não seria muito possível tal coisa. Senti-o diferente, fosse por causa da idade ou do destino que nos iria separar, mas não era só isso que me deixava triste na sua presença. O distanciamento entre ambos, embora eu estivesse a poucos centímetros dele, pareciam quilómetros que nos separavam, como se uma rede não me deixasse tocar-lhe e um vidro não me deixasse ouvi-lo caso ele falasse. Isso fez-me confusão e de novo lembrar-me dos meus amigos. Fiquei então angustiado só de pensar, tentando não achar que acabara de cometer um grande erro. E não era muito difícil pensar assim, pois eu era bastante pessimista.
    Tinham passado uns trinta e cinco minutos desde que começara a ter estes pensamentos e nem tinha que o descanso da Harley estava pousado. Rondada por um solo arenoso eu vi uma pequena mas bonita casa. Tínhamos chegado.
    A casa não era propriamente de ricos como eu estava habituado à minha, e as suas dimensões também não me esclareceram a tal conclusão. Tinha uma cozinha estreita que acabava numa janela com a persiana descida.
    Os quartos pareciam-se com os da minha antiga casa, com a pintura ainda fresca, cheirava-se perfeitamente. O mais pequeno, certamente onde eu ficaria também estava pintado, num tom meio avermelhado que não me seduziu muito, mas felizmente tive a notícia de que havia um outro bastante maior, e o meu pai levara para lá as coisas. Este figurava bastante o meu tipo, com a cor azulada a predominar por completo, alguns móveis, poucos e pequenos, e o mais interessante, uma televisão e uma data de cd’s pendurados a pregos na parede por baixo de uma prateleira com uma aparelhagem de alto som, com duas colunas do lado e a mostrarem a marca da Sony. Perguntei-me que estaria no quarto errado mas depressa percebia que seria mesmo onde eu ficaria nos próximos tempos, ou anos.
    Estava a viver um sonho antigo, não que não tivesse isto em Katerown mas aqui, isto era diferente, mais novo sem dúvida, e o melhor era que seria um quarto só para mim, não tendo eu de compartilhá-lo com nenhum irmão mais velho que se armava em mandão. Estou a falar do James. Era o meu único irmão e desde que atingiu os 18, atingira também a parvalheira, digo sem dúvidas. Enfim.
    A casa parecia abandonada, sem que alguém aparecesse para me dar as boas vindas, com tudo perfeitamente organizado. A meu ver tinha um aspecto de abandono na sala, algo perdida entre fotografias velhas e armários de loiças dos anos 50, e o tecto tinha buracos feitos pelos bichos da madeira. Tomara que não me caísse na cabeça. Suspirei.
    – Não está cá ninguém, pai.
    A minha afirmação mostrava arrependimento e eu senti-me vulnerável às expectativas que teria tentado pensar serem mais favoráveis que “o normal”. Tinha a certeza que estava errado mas mesmo assim, as saudades apertavam.
    O meu coração contraiu-se dentro do peito e eu não conseguia respirar da forma correcta, soltando alguns soluços enquanto olhava em meu redor, vazio e sem vida.
    – Talvez estejam a chegar. Talvez…
    Aquele momento de pura hesitação por parte de Johan, deveria proceder-se devido a algo que ele sabia e não me contara.
    Sentia-se a eminência de uma derrocada na minha cabeça com aquele suspense e, por momentos, pareceu que eu ouvi uma voz feminina a rir-se.
    Tinha gente em casa mas eu não via clima vivo. A mudança estava a dar comigo em doido. Os risos voltaram a ouvir-se e desta vez nitidamente claros. Isto, porque depois disso um mar de gente saiu de trás das cortinas da janela da sala e começou-me a cantar os parabéns. Senti uma confusão de sentimentos a invadirem-me os sentidos e, num sentido de carácter união e tristonho, tornei aquilo num aconchego no meu coração. Contorci as mãos vezes sem conta e os meus ossos salientes obrigaram os dedos a fecharem-se contra o meu corpo, abrindo os meus olhos para deslumbrar toda a beleza genuína que me rodeava. Até aí, já nem me lembrava de algum dia ter participado numa festa, seja pelo que fosse, e quando havia o meu aniversário, apenas assistia a prendas de palavras amargas entre os meus país. Tanto só para mim, de gente que nem me conhecia.
    – Lamuriei-me estupidamente.
    – Não dizes nada? Não gostaste? – Gritavam os presentes, sentindo-me eu completamente baralhado. Era tudo tão estranho, abstracto e deformado.
    Chegara até a pensar se estariam a gozar comigo para depois me porem a trabalhar.
    Nem tive tempo de pedir desculpas e fui a correr para o meu quarto depois de subir as escadas ainda que irregulares, que emitiam um ruído estranho, e percorrer um longo corredor cheio de imagens e fotografias de família.
    Tranquei a porta com violência e a paisagem tinha mudado radicalmente. Via parcialmente que iria chover em breve e por ali nada me agradava, com casas cinzentas e um cheiro a fumo vinha dos carros.
    – Mais valia não ter vindo para aqui! – Interroguei-me a mim mesmo, batendo com a mão na secretaria, ainda meia húmida do verniz que o meu pai passara, pois era carpinteiro.
    Uma profissão era certo, mas em relação às que haviam na minha antiga cidade, nada era.
    Eu estava habituado a médicos e engenheiros, numa cidade grande.
    Não sabia desvendar o verdadeiro motivo pelo qual tinha fugido da sala, mas naquele momento, o que eu mais desejava era que o amanhã chegasse.
    Ainda era de dia e pelo estado do sol, não deveria passar muito das cinco e pouco. Suspirei em sinal de cansaço. Só agora me dava de conta que tinha a pele eriçada.
    A temperatura descera bastante, pelo menos uns dois graus, e a temperatura não passaria dos onze graus antes. Decerto que a minha roupa era quente, usando eu uma camisola de malha que a minha mãe fizera antes de me mudar para cá. Um casaco desportivo da marca Adidas, fino mas com a intenção não de me aquecer mas de combinar com a camisola faziam o conjunto no meu tronco algo magro, mas que toda a gente dizia ser atlético, apesar de eu não achar.
    Por outro lado pensava que não seria mesmo verdade, até porque eu fazia musculação todas as sextas de manhã num ginásio ali à beira. As calças que usava eram de ganga, acabando com uma beira fina virada para cima. Não era a minha roupa favorita mas em breve as minhas melhores peças seriam, trazidas pela minha mãe. Não estava preocupado em relação a nada disso. Também não era pessoa que preocupasse com muitas coisas. Reparei quase sem crer na janela do quarto, virada para a restante cidade.
    A vista era autêntica e bastante original, nada do que vira até então em Katerown. Ao menos nem tudo me aborrecia ali, tomei eu atenção ao que pensava, com um pingo de ironia nas palavras que vagueavam na minha cabeça, algo aturdida pelo cinzento do céu.
    As portas não abriam com facilidade, e vi que teria de recorrer à minha força para as abrir. Tinham um aspecto velho, com uma pintura branca pintada de fresco por cima de um cinzento-escuro e gasto, visto em algumas partes com falhas. Tinha buracos provocados pelos bichos da madeira e por fim ganhei coragem para abrir a tal janela, mas detive-me quando ela soltou um barulho de arrastamento encravado que me levou a encostar-me de imediato aos pés da minha cama, baixa e com cobertores extremamente coloridos.
    Um barulho semelhante a pequenas pedras começou a ouvir-se a bater nos vidros já embaciados, e eu soube que começara a chover. Não era mau aquele murmurar mas mesmo assim sentia-me incomodado. No meu interior, o meu coração palpitava de tal forma, que pensava ir desmaiar, pois não tinha comido.
    – Daniel? Está tudo bem? – Perguntou Moli, a minha madrinha, do lado de fora do meu quarto. Eu conseguia notar a preocupação na voz dela, mas nada disse.
    – O que se passou? Tivemos de mandar as pessoas embora! O que se passa? – Insistiu ela, desta vez sendo o meu padrinho também falava, mas eu continuei calado, ouvindo bater a porta várias vezes.
    Era óbvio que estariam preocupados, e continuava assim, estando a noite a precipitar no céu aveludado de nuvens aglomeradas e pesadas. Ainda estavam a cair gotas do telhado.
    Não me levantei por um instante e o silêncio instalou-se pesadamente. Eu não sabia, mas tinha adormecido.
    Durante essa mesma noite, alguns sonhos ligeiros, não deixaram marca no meu consciente, mas que ainda assim me deixavam agitado, fazendo-me acordar por breves segundos, não dando noção de onde estava. Não havia necessidade de eu sonhar muito, pois nem era meu hábito realizar proezas semelhantes, e assim, as horas passaram sem que as minhas memórias me abalassem verdadeiramente. Saberia porém, que na manhã seguinte acordaria meio atordoado e com a sensação de extrema amargura, com algumas dores de barriga, que talvez, o que fariam, era acordar-me agora e pôr-me a assaltar o frigorifico. Tal não sucedeu e eu voltei-me para o outro lado, não me recordando de mais nada, até à manhã seguinte.
    Quando amanheceu, eu não ouvira nenhum dos meus dois despertadores que trouxera de Katerown.
    – Daniel? Oh meu deus, ainda não abriste a porta?
    Reconheci a voz melodiosa da minha madrinha, mas, por agora, mostrava ser uma voz aflita e totalmente exagerada de preocupação. Afinal eu não estava tão…
    – Que horas são? – Quis saber eu, esperando alguma resposta do lado de fora da porta, que entretanto veio, mas em total sentido de reprovação.
    – Não interessa que horas são. Apenas sei é que estás meia hora atrasado. É o teu primeiro dia de aulas. Por favor levanta-te!
    Dei um salto da cama para o chão, tentando ficar de pé nem que fosse por cinco minutos, mas o corpo estava de tal forma adormecido que eu ainda cambaleei até à casa de banho, apenas para ver a minha figura triste. O meu cabelo, que já estava um pouco grande demais, meio avermelhado, com madeixas cor de amêndoa, que agora descobrira que tinha, estava completamente emaranhado sobre si mesmo e muito despenteado. Seria um dilema penteá-lo, pois era forte o suficiente para não querer recompor-se com água, e se fosse com gel então….ufa nem quero pensar! Duro como ficava, era a sentença de morte para o meu tempo livre, quando me dedicasse e torná-lo obediente para ele ficar direito e apresentável.
    Decidi que ficaria assim. Parecia uma estrela de Rock misturada com um mendigo que não tem com que se pentear, mas com certeza haveriam lá outros iguais a mim. Pensei eu para tentar não dramatizar.
    Seria um milagre eu conseguir chegar ao liceu em menos de vinte minutos e eu podia escolher entre ir de autocarro, ou ir a pé, mas ao sair da porta de casa, por onde saíra aos tropeções, reparei numa bicicleta estacionada mesmo junto ao portão. Não interessava de quem era e eu peguei nela, esperando que ninguém me visse a cometer aquele furto tão singelo, e depois de observar que o caminho estava livre, pus-me a dirigir em direcção ao liceu a grande velocidade quase encravando a corrente e mal me importava em ver a paisagem cheia de árvores e casas, algumas antigas que me circundavam a cada pedalada que dava.
    Pouco tempo depois, observei um grande edifício avermelhado e, apenas soube que aquilo seria uma escola pela grande tableta acima da porta principal, bastante arranjada com motivos vegetais. Espreitei a tableta e fiquei profundamente aliviado ao ver as palavras «Liceu» e «Awferid».
    Demasiado depressa para ter tempo de raciocinar, levantei a dianteira da bicicleta, de modo a virar-me o mais possível para o portão principal, e, ganhando velocidade, esgotei as minhas forças mortais para chegar a tempo da porta não fechar, estacionando a bicicleta junto a uma arvore a que a prendi, e logo depois ajeitei a minha roupa e o cabelo, de forma a não dar nas vistas para não pensarem que estava demasiado desesperado.
    Estás com pressa rapaz! – Exclamou suavemente, quase em tom de troça, o porteiro, e eu fiz-lhe um ar de aborrecimento que ele entendeu logo. Afinal o meu “disfarce” não tina resultado.
    O interior da escola era frio e calmo, mas ainda assim conseguia ouvir os murmúrios de colegas meus a entrarem para as salas, ou não. Mesmo assim teria de encontrar a sala de físico-química, para não levar um aviso logo no primeiro dia.
    – És o Daniel Foller?
    Mostrava ser o tipo de rapariga que andaria sozinha na escola, tendo um elegante aparelho metálico nos dentes, que lhe dava uma aparência bastante razoável, exibindo com ele um sorriso bastante simpático e tímido, com olhos profundos de constrangimento.
    – Apenas Daniel se não te importares. – Pedi eu afavelmente, ajeitando a minha camisola larga, que me fugia das mãos e me fazia parecer um “baldas”. Não tirei no entanto, os olhos do chão, pois não estava habituado a falar com raparigas, aliás, desde que me lembro de existir, não falara com nenhuma até então.
    – És desta turma?
    Não havia por onde fugir à questão, mesmo que eu não pretendesse revelar-me já.
    – Com certeza. – Respondi em forma de murmúrio ainda que bastante audível, que percebi com o sorriso aberto dela.
    Aquela rapariga mostrava grande graciosidade, fazendo ao mesmo tempo um esforço notável para não mostrar vezes demais o seu “acessório”.
    – Queres ir comigo no próximo intervalo para ficares a conhecer a escola? Já sei todos os recantos! – Afirmou ela de maneira fulminante, parecendo bastante contente com a última a parte da frase, e, ao pensar em tais palavras senti-me a corar. Devia parecer um tomate no tempo ideal para se poder apanhar.
    Um convite. Não me apetecia, de todo, conhecer nada ali, para já. Mas teria de lho dizer de maneira a que não ferisse os seus sentimentos tão elevados, de poder ter alguém com quem falar e estar. Notava-se isso bastante bem, e eu tinha de sair dali ou morreria de timidez.
    – Obrigada, mas…pode ficar parta outra altura? Amanhã?
    De certo que não fora a melhor frase a ser empregue ali, mas não estava disposto a colaborar com aquela nova desconhecida.
    – Não faz mal. – Amuou ela. – O meu nome é Anna. – Depois desceu o tom de voz, olhando para os pés. – Vemo-nos por aí.
    Agradeci novamente, mas já a rapariga de cabelo loiro, com uma saia aos quadrados verdes sobre fundo preto, se tinha afastado, indo na direcção das casas de banho, logo ali ao virar de uma esquina em que estavam afixados alguns papeis com avisos. Ela tinha ficado triste, mas eu não podia mesmo sair dali para lado nenhum.
    A sala não tinha ninguém, e algumas cadeiras estavam desocupadas, com a maioria em vista de terem pertences de alguém. Como era novo ali, decidi esgueirar-me para as cadeiras do fundo, as três únicas que pareciam não ter dono, mas dei conta de que todas já tinham coisas em cima delas, duas mochilas e uma capa, aparentemente velha e já rasgada que pus com cuidado em cima do parapeito da janela mais próxima, larga e fechada por um vidro que estava nitidamente sujo com pó.
    Tocara e eu estava super nervoso. Os meus colegas começaram a entrar, primeiro, um rapaz com sardas, meio aloirado e de óculos. Tinha uma pose intelectual com os livros de geologia e matemática debaixo do braço direito. Trazia uma tshirt às riscas verdes de dois tons, um mais cor da relva, muito vivo, e outro escuro, quase da cor do musgo. Era simples, e por isso, talvez fosse gozado como agora sucedia, quando um bruta montes com estilo skinhead e a esmagar uma lata de Coca-Cola o empurrou, deixando-o fazer cair os livros e folhas que trazia. Corri para ajudá-lo, e comecei a dar-lhe os livros espalhados pelo chão à minha volta.
    – Sou o Daniel! – Disse eu ao tentar que ele perdesse a timidez e o medo.
    – Ke…Kelvin..! – A sua expressão era tão inocente que até senti pena dele. Depois afastei-me e sentei-me de novo no meu lugar, prestando atenção ao resto da turma, notando que a maioria era tudo raparigas, para meu espanto.
    Uma expressão interessada chamou-me a atenção. Mostrava sinais de grande ansiedade e muito medo. Sim, era a rapariga do aparelho, e não tirava os olhos de mim.
    Baixei a cabeça e olhou fixamente para a minha secretária, com riscos e cortes editor por x-actos. Sabia que me observava ainda e senti-me a corar, sentindo as minhas orelhas a arder. Ela riu-se baixinho. Era engraçada, não podia negá-lo.
    A entrada do professor saltou-me, ao mesmo tempo que me deixou com receio. Estava estático e recto como uma estátua ao sol. O meu peito doía-me e comecei a suar em pingos longos.
    – Tem calma, ele não te morde!
    O sussurro da rapariga que me observava com um ar incisivo não me deixou mais descansado, mas abstraiu-me uns minutos da compostura rígida a que me propus reger, e agora conseguia sentir de novo os dedos.
    A aula seguiu com a apresentação do professor, de nome Kockin qualquer coisa, e começamos logo o trabalho a sério, com o estudo de um caso que desconhecia, não me interessando minimamente por aquilo. Tinha a ver com raízes, e não achava nada daquilo um pouco que fosse, de interesse, claro, era físico-química.
    – Agora… – Aquele compasso de espera fez-me ficar ainda mais nervoso quando o homem de cabelo quase branco e de óculos no nariz, começou a observar os presentes durante longos minutos, que na verdade foram breves segundos, mas que para mim, pareceram um tempo interminável, até que, a sua voz quebrou o silêncio cortante que invadia a sala.
    – Mr. Foller… – Estremeci de um salto na cadeira. Ele continuou com um ar entusiasmado.
    – Conte-nos por favor como é viver em Katerown.
    Eu nem sabia como reagir. Dei por mim a pensar em mil e uma formas de começar a explicação, que fosse breve e que cativasse a atenção de todos.
    Uma história de terror ou uma grande aventura em que eu seria o herói…Não, de certeza que não eram as mais distinguidas formas de poder ser aclamado o “maior da turma”, por isso, cingi-me a explicar um pouco da minha experiência.
    – Katerown… – Comecei para que parecesse minimamente respeitável. – Tem sol, a maior parte do tempo não chove, há praias enormes para se poder passear ou apenas estar ao sol, grandes edifícios de empresas na parte mais central da ostentosa cidade…
    Olhava em volta e verifiquei que todos me observavam com olhares de admiração e especulação. Limitei-me a continuar, com um pouco mais de entusiasmo, não exagerando para não pensarem que fosse doido, ou coisa do género.
    – Vivi lá até este ano… – Hesitei em revelar as razões de me ter mudado, e contornei a situação de uma forma mais inteligente. – Mudei-me por causa do curso que quero tirar por aqui, para poder ser arqueólogo.
    – Mas Mr. Foller…
    O que o meu professor acabara de fazer fora quase um crime. Tornou a minha confiança num autêntico fiasco. Perdera a vontade de continuar, suscitando em mim novo medo, com toda a sala a franzir o sobrolho na minha direcção em sinal de impaciência.
    Todos menos uma pessoa. A mesma que ainda me olhava com um sorriso aberto e inocente, deixando-me mais à vontade, mas mesmo assim, tensamente rígido.
    – Na sua antiga cidade haveriam árvores, certamente… Ouvi dizer que é um espaço muito verde!
    Ele tinha razão. Parecia conhecer muito bem o lugar de onde eu provinha, mas mais nada disse, para me dar nova oportunidade de falar, ao que não respondi, mas olhei-o em busca de poder interpelá-lo.
    – Sim, claro…
    A afirmação saiu baixa e penosa, dando-me a sensação de estar com uma expressão ridícula.
    A aula parecia um interrogatório para ambientalistas. Ainda faltavam quase quarenta minutos para o milagroso toque estridente, mas salvador, que me faria sair da “cadeira eléctrica”.
    Mas de repente o clima foi cortado por uma batida seca e forte na porta, que virou todas as atenções na direcção do som, inclusive com a apreensão do professor que agora que mostrava muito direito, depois de arranjar o casaco, bastante brilhante e de cor cinzenta. Parecia um “smoking”.
    A porta abriu-se e uns sonoros e pesados passos ecoaram na sala e nos corredores do exterior desta.
    De fato muito formal e com uma gravata azul turquesa, de porto severo e olhar furtivo, apresentou-se ainda que olhando para nós, um homem com os seus cinquenta anos. Certamente que seria o director ou alguém com muito prestígio ali, pela maneira como todos os presentes o olhavam com precaução, quase não levantando a cabeça para o fitarem nas faces pálidas.
    – Muito boa tarde meus senhores…
    Olhei de relance para o meu professor e notei que ele tremia a cada palavra proferida a nós.
    – Na próxima semana terão uma visita de estudo a um museu local. Verão uma exposição de várias catedrais românicas em fotografias emolduradas, que vos servirá como introdução à disciplina de História e Cultura das Artes, o qual eu serei o vosso professor e director de turma.
    Esfregava as mãos ao dizer tal coisa e eu tive grande noção que ele estaria ali para nos preparar para um ano de pesadelo. – Obrigado pela atenção. Bom dia.
    E saiu porta fora em passo largo, quase não pestanejando, sempre com aquele ar rígido e de grande altivez.
    Decerto que seria um bom motivo para eu nem aparecer na visita, tendo inventado uma doença ou uma indisposição qualquer, que fosse bastante convincente. Além disso já tinha tido uma disciplina semelhante no ano transacto, mas não me desagradando de todo a ideia de ver catedrais.
    Teria de reflectir no assunto e preparar-me no caso do meu plano de falta falsa, desse para o torto.
    – Olá! – Chamou uma voz atrás do meu ombro.
    Logo atrás de mim, distanciada por trinta centímetros estava uma rapariga. Tinha uns olhos brilhantes e muito vivos, cor de amêndoa. Mostrava um rosto bastante perfeito com curvas bem delineadas nas faces algo rosadas. Tinha um sorriso fechado mas muito humilde e simpático, e reparei que a sua expressão mostrava um pouco de aflição e nervosismo, pois olhava sistematicamente. Parecia estar preocupada com algo ou com alguém.
    – Olá. – Repetiu antes de se apresentar. – O meu nome é Bella. Ouvi dizer que és o Daniel Foller. É verdade?
    Notei que ela quase me segredava tal pergunta, mas também reparei em todos os olhares de novo, pousados em mim, e agora nela, de forma quase mortífera.
    – Quando vieste para cá?
    Aquela pergunta era tão directa como a que Anna me pusera ao perguntar o meu nome. Não percebia a razão mas, toda a gente parecia querer-me ali. No entanto, os olhos que controlavam aquela rapariga, tão frágil e curiosa, pareciam queimar-me o olhar e o corpo cada vez que o confrontava com algum receio.
    – Desculpa, não posso falar mais. O Edward está a olhar para aqui. Finge apenas que me foste chegar uma caneta do chão, porque ele parece zangado.
    Fiz-lhe um sorriso tímido e debrucei-me na cadeira para fazer o que me pedira. Não queria certamente ser odiado por ninguém.
    Era um rapaz, branco da cor de mármore mais branco que existe, o que arrepiava-me. Quase não parecia ser humano e o seu rosto mostrava em grande parte, ódio serenamente controlado. Não gostava de mim, sabia-o, mas não pretendia que ele me fizesse mal, até porque ele deveria ter chegado ali primeiro que eu, pela sua estatura bastante corpórea e altiva, mesmo sem mostrar sinais da idade como rugas ou barba. Não teria tido barba em nenhuma altura, sabia-o pela face completamente lisa, que seria impossível poder ter por melhor que a tivesse cortado. Arriscava-me a dizer que teria uns vinte e poucos anos.
    – Obrigado. – Agradeceu Bella com um sussurro breve. O seu murmurar era tão suave como uma criança de dez anos, apesar de ela já ser uma rapariga bem desenvolvida. Era simpática, mas seria melhor afastar-me, pelo menos por agora. Ouvi-o quase rugir. Era estranho estar ali no meio dos dois.
    Finalmente a aula parecia estar a terminar aquando reparamos nos restantes que arrumavam as suas coisas à pressa, arrastando as cadeiras e soltando um barulhinho de fundo que me incomodava os ouvidos, assemelhando-se aquilo a um enxame de abelhas em ponto de caça eminente. Senti-me tonto e deixei-me ficar quieto na cadeira à espera de me acalmar. As minhas mãos tremiam e reparei que Edward passara mesmo atrás de mim, raspando o seu longo casaco de pele cinzenta nas minhas costas. Limitei-me a ignorar que ele estava ali e tentei não pensar que ele me viria pedir explicações pela conversa com a amiga dele.
    Depois a campainha tocou de forma prolongada, e até que todos saíssem, não mexi um dedo sequer. Só depois me levantei e arrumei o caderno na pasta de uma alça que trouxera. Teria agora que enfrentar o espaço interminável da escola, e eu precisava urgentemente de comer.
    Soltei um suspiro de alívio quando atravessei a porta da sala e não observei ninguém por ali perto para me interpelar. Senti de novo a minha cabeça no lugar, assim como todo o corpo e bocejei. Anna riu-se baixinho, estando mesmo atrás de mim.
    – És muito engraçado sabias?
    A voz era suave e eu conhecia-a, mas quando a conheci, vi que não teria proferido uma frase para que respondesse. Eu sabia que ela teria encontrado sim, o meu eu, que eu procurava manter na penumbra.
    Virei o rosto e olhei por instantes, a face divertida que conseguia observar, estando esta fixada em mim. Mostrava ter o semblante um tanto ou nada carregado de receio, como se ainda não estivesse à vontade para se dirigir verbalmente a mim, deixando o seu olhar pregado na tijoleira do chão.
    – Estás bem?
    Percebi que tal questão fora posta pela expressão estúpida com que me deveria encontrar, ou por algum cabelo fora do seu devido lugar, dando-me a ideia de que faria figura de idiota ali. Mas porque é que eu estaria assim?
    – Como já disse, sou a Anna, Anna Lindsley.
    O nome era giro, mas nada irrelevante para mim.
    – Tens medo do Edward?
    Boa! O Edward. A conversa já não me estava a suar bem, pelo que comecei por parecer menos nervoso. Ele seria perigoso para mim, mesmo que isso à partida fosse mentira. Sabia-o perfeitamente.
    A rapariga de estatura média, tal como eu, remexeu num dos bolsos grandes da sua mala, vermelha e brilhante.
    Prestei atenção à situação. O seu cabelo longo cobria-lhe a face, e depois, olhou para mim com um olhar muito aflito. Com uma mão tentou uma vez mais alcançar algo e depois desistiu. Suspirei ao pensar que fosse buscar o telemóvel para depois me pedir o número, o que me deixaria extremamente aborrecido e irritado. Pelos vistos seria apenas um caderno esquecido na aula anterior, o que não constituiria tanto motivo de preocupação, e ela descansou depois de mo informar.
    O meu estado de espírito estava gelado e aborrecido, tendo a consciência de que nada estava ali a fazer com aquela rapariga que não via como tal. De facto, não passará muito tempo desde que começara a falar com Anna, e senti o meu cérebro a divagar e a agitar-me, quando uns dedos me irromperam os pensamentos sobre o almoço, como flechas.
    – Entrámos? – Perguntou uma voz aguda bem junto de mim e dos meus ouvidos, ainda meio tapados pela sensação de querer ter uma fuga rápida. Depois detive-me por instantes, para pensar no meu horário. Senti-me mais confiante, face à certeza de que a hora de sair para almoçar se aproximava, depois desta aula. Porém, esta aula teria de se realizar, o que era péssimo.
    De certo modo, a ideia de que sequentemente iria para casa, parecia deixar-me com um novo ânimo.
    O professor Gregory já estava sentado na sua secretaria de madeira americana. Tinha barba robusta, olhar erguido e uma expressão forte e vincada de impaciência nas rugas que apresentava sob a boca e na testa. A aula começou sem percalços, ainda que tivesse de falar novamente em Katerown, onde me limitei a imitar as palavras proferidas anteriormente.
    Estava agora em ciências.
    Os olhares mostravam cansaço, quando alguns reviravam os olhos e ninguém prestava atenção. No fundo da sala, à frente, o rapaz que ajudara do ataque de um brutamontes, que felizmente agora tinha faltado, ainda se mostrava interessado, e para meu espanto, escrevia muito quando eu pronunciava algo da antiga cidade. Depois acenava com a mão e erguia o polegar em sinal de provação. Ao menos tinha um ouvinte, já não era mau.
    Quando a hora de saída chegou, ergui-me da cadeira e peguei na mochila, depois de dar um jeito ao cabelo, pois parecia-me estar a cair para a frente dos olhos. Na verdade, teria de o cortar o mais depressa possível, pois já me chateava ter de aplicar gel todas as manhãs, e ele estava a começar a ganhar caspa, o que me atrapalhava, já que a minha roupa preferida tinha sempre preto, um inimigo altamente perfeito para o meu problema capilar.
    Quando encontrei a saída para o portão principal, fui directo para o exterior, cansado e com vontade de descansar um pouco.
    A bicicleta estava exactamente no mesmo lugar onde a deixara, e eu corri um pouco até chegar perto. Havia gente por todo o lado, muitos alunos, o que me iria dificultar a saída, mas a sorte estava comigo, e consegui colocar-me no passeio principal, a caminho de casa, num ápice.
    Como tinha tempo, pedalei devagar e olhei em redor, para observar toda a paisagem, cheia de casas bastante arranjadas e de cores vivas, árvores enormes e cheias de folhas, em cada um dos lados, sem muito trânsito na rua.
    O ar era fresco e fez-me apertar o casaco azul-marinho que eu trazia, ainda aberto. Parecia que a chuva estava para chegar, com nuvens negras a aglomerarem-se no céu e a fazerem formas estranhas no amplo espaço vazio e soturno.
    A porta de casa dos meus padrinhos rangeu quando lhe dei um jeito com a perna, para que abrisse, pois estava meia empenada por ferrugem nas dobradiças velhas. A casa precisava urgentemente de ter obras, mas, parecia que isso não aconteceria nos próximos tempos.
    Suspirei e entrei, em direcção à cozinha que permanecia silenciosa e escura, dando-me logo a razão pela qual a casa emanava a mofo.
    Agora percebia o porquê de quando chegara àquela casa, no dia em que supostamente, deveria ser o do meu aniversário, a casa parecia velha e assustadora.
    Os meus padrinhos trabalhavam todo o dia, até altas horas da noite, e deixavam sempre a casa fechada e desarrumada, como podia comprovar pela pilha de loiça suja em cima da banca e da mesa encostada a uma coluna, que dava também encosto para o sofá que se via imediatamente ao abrir-se a porta, com um pequeno espaço a separar a porta deste. O sofá era grande e tinha a forma de L, todo branco, agora meio sujo por causa do pó, apesar de ter um plástico a protegê-lo quase na totalidade. Havia restos de piza pelo chão e os tapetes, à entrada e junto à copa estavam gastos, muito decorados, é certo, com flores e formas geométricas, de um bordeau carregado, mas inacreditavelmente, cobertos de pó.
    Não gostava nada daquilo, e nunca fizera limpeza até agora, mas aquilo fizera-me tanta impressão, que decidi pegar numa vassoura. Teria de a encontrar primeiro, nos cinco armários à beira do balcão de granito, o maior que havia, junto ao forno de cor negra. No entanto isso não constituía problema para mim, até porque era bastante bom a encontrar coisas, e lá o encontrei, facilmente e no meio de alguns produtos de limpeza e aventais.
    Levantei mais pó do que o que limpei, mas a cozinha ficara bem melhor assim, achei eu para comigo próprio.
    Passara-se meia hora desde que comecei as limpezas, e agora apenas dispunha de meia hora para almoçar. Também não sabia cozinhar, por isso decidi comer a caminho do liceu, num dos cafés que havia até lá, ao todo três. Uma sanduíche e um sumo chegavam-me para aguentar toda a tarde e não cair a meio de uma aula qualquer. Eu era forte e na verdade, também não gostava muito de comer, pois queria-me manter em forma. Nunca fora gordo e não era agora que o iria começar a ser, certamente.
    Peguei nas chaves e dei um ligeiro jeito ao cabelo em frente ao único espelho de corpo inteiro que havia no hall de entrada. Depois peguei de novo na bicicleta, desta vez meio descuidado (apenas me apercebi disso a caminho da escola), e saí à procura do meu almoço de fast-food.
    Permaneci atento a todos os nomes de ruas por onde passava, para futuramente, se gostasse do café, saber onde era e qual o seu nome.
    As montanhas que viam muito ao longe, e, por breves segundos fascinaram-me. Ali não era tudo tão mau como previra de manhã, com todas as perguntas sobre o meu “passado”.
    Senti-me bastante confortável em cima da bicicleta cinzenta e alta, podendo passar por sítios estreitos quando aparecessem carros.
    Finalmente apareceu um café, de nome “Food & Friends”, e gostei do aspecto da montra, cheia de bolos e bebidas em lata, dispostos lado a lado. Não estava cheio e foi fácil ser atendido rapidamente, dirigindo-me de imediato à esquina que me levaria directa ao liceu. Desta vez não estava atrasado.
    Tudo correra como planeara. Fui digerindo pequenas quantidades de fanta enquanto me aproximava do portão, agora visível. Estava bem mais bem-disposto e quase me desaparecera a ideia do martírio matinal.
    Havia uma leve brisa no ar, que me passava na face e me fazia levantar os pêlos dos braços em sinal de pequenos arrepios, já que a minha temperatura corporal era mais quente do que a aragem no ar, que fazia folhas nas árvores, grandes e robustas, agitarem-se de um lado para o outro como forma de uma dança perfeitamente ensaiada. Com grande surpresa vi, parada e encostado ao muro que figurava uma das alas para o portão, o rapaz que tinha sido envergonhado de manhã, com este perfeitamente à vontade num grupo de cinco raparigas em seu redor, com cadernos e a fazerem grande alarido.
    – Génio da matemática! – Pensei com alegria e ao mesmo tempo com tristeza, simultaneamente a soltar um suspiro. Afinal a única fama que tinha era para uma rapariga, que não fazia propriamente o “meu estilo”.
    – Daniel Foller certo? – Interrogou uma voz algo familiar, mas muito distante para que a reconhecesse. Virei a cabeça na direcção da voz e vi uma cara muito delicada, com uns grandes olhos azuis da cor do mar, cabelo aloirado com madeixas, e um capacete negro de motoqueiro. Trazia uma mochila, que, pela expressão de dor no seu rosto suado em forma de coração, a deveria estar a cansar muito. Estendi-lhe a mão para oferecer ajuda de imediato.
    – Importas-te? – A minha voz era fraca e rouca. Eu não estava a fingir. As palavras que tinha dito apenas me escapavam, como se de uma anel largo se tratasse, a fugir de um dedo demasiado fino para ele. Senti-me atónito perante tal conclusão, tão negativa.
    A brisa leve e suave invadiu-me os sentidos. Os meus olhos abriram-se repentinamente. Notei nas folhas de uma árvore que se agitava, o mesmo nervosismo que tinha dentro de mim, quando um frio miudinho me trespassou. Dei um passo e ela afastou-se. Então sorri para a deixar mais à vontade.
    – Não te preocupes. Sim, acertas-te no nome. Não que seja algo de muito extraordinário. – Estremeci antes de fazer a questão que tinha em mente. – Como te chamas?
    Ela deu outro passo para trás, afastando-se ainda mais de mim, e começou a andar para trás sem que a que o seu lindo rosto se desviasse do meu. E depois desapareceu ao entrar na porta principal. Parecia um dejá-vu da primeira vez em que nos encontramos, quando ela quase me atropelara e desaparecia rua abaixo.
    Visto que a minha ajuda tinha sido dispensada e que permanecia sozinho à entrada do liceu, decidi-me por também entrar, tentando a todo o custo visualizá-la novamente por ali perto. Havia algo de fascinante naquela rapariga, algo que não sentira por nenhuma até então, e que me punha sem palavras, com as pernas a tremer.
    Sobrevivera. Um penoso sentimento de abandono percorria todo o meu corpo, originando os maus pensamentos de ter abandonado os meus país, o que me era ainda tolerável e suportável, mas pouco. Não sentia os braços há algum tempo e comecei a perguntar-me se seria resultado da brisa que me deixará os membros adormecidos, ou, por outro lado, bem mais grave e incompreensível, se aquela rapariga me tinha deixado assim, em tão mau estado. O que quer que fosse aquilo, deixava-me mais ciente de que agora estava na hora de entrada.
    Ao chegar à sala do primeiro piso vi que os meus colegas estavam muito contentes e a fazerem grande festa.
    – O que se passa?
    – Vamos mudar de horário! – Gritou Anna, com um tom totalmente eufórico.
    – Isso… é bom? – A minha pergunta parecia um clone de ironia e sarcasmo, o que quase ofendeu aquela rapariga que novamente baixou o olhar e se afastou. Senti-me vazio, o dia não podia estar-me a correr pior.
    – Sr. Foller, Sr. Foller!
    Alguém me chamava. Não seria com certeza um colega meu, e arrepiei-me só de pensar que tivesse feito algo de errado. Propus duas opções para, agora, o director do liceu se estar a dirigir a mim; a primeira seria, por ter chegado bastante atrasado à aula de química de manhã, já depois do toque e depois de o porteiro se preparar para fechar a porta, e por não me ter apresentado a ele quando o deveria ter feito. Ou a segunda, menos grave, a bicicleta que estaria estacionada num sítio proibido ou fora do lugar, ou até pior, não poderiam entrar veículos desses no liceu.
    Endireitei-me para escutar o sermão que supostamente iria dar.
    – Estou muito contente por o ter por cá! – A sua ovação era tão sincera como as lágrimas de uma criança quando tem fome.
    Era ainda jovem, com um fato azul-marinho e uma gravata vermelha, com o nó mal feito, o cabelo muito liso e penteado classicamente, com pala e risca ao lado.
    Não passaria seguramente dos quarenta e cinco. Até o meu padrinho seria mais velho, com cinquenta e tais. Depois segurou-me o ombro com firmeza e aproximou-se de mim, ao que eu correspondi com curiosidade.
    – Então o seu pai encontra-se bem de saúde? Como está o Sr. Foller, seu pai?
    Apanhara-me de surpresa, pois não fazia ideia de que este pudesse conhecer o Sr. Evans.
    – Bem… Penso eu! – Ainda hesitei antes de lhe pôr uma pergunta. – Conhece-o?
    Ele soltou um riso abafado e dirigiu-se às escadas. – Venha comigo!
    – Mas… – Murmurei, preocupado com as aulas, ao que ele acenou a cabeça em sinal de reprovação, deixando-me aliviado. Depois segui-o até uma sala cheia de retratos e fotografias antigas, situada no piso inferior, mesmo à beira do bar.
    – Aquele ali era o seu pai!
    Não me aproximei para observar pela janela, enquanto o senhor Andrew falava. Tentava interiorizar uma decisão para futuramente poder suportar. Caso visse o meu pai, nas férias de verão, seguramente que ele viria com a mãe, mesmo que se tivessem separado, ou a ida até Katerown para lhe fazer as questões que inundavam o meu espírito de curiosidade.
    Ele falou muito. Muito mesmo, que quando entrei deveriam ser umas três horas e meia, e quando finalmente me mandou sair, o ponteiro das horas e dos minutos apontavam para as cinco horas. Hora de voltar a casa.
    Voltei as costas à sala, com o director a agradecer ainda e desloquei-me a grande velocidade para a saída. Estava cheio de vontade por regressar a casa. Estava tão entusiasmado, mas assustado com todas as informações, que desconhecia, do meu pai. Talvez pudesse satisfazer uma ou outra coisa que ainda me perguntava se seria possível.
    – Olá Daniel. – Exclamou Sally mesmo junto da minha bicicleta.
    Sorri de espanto.
    – Olá… Sally, não é? – E acenei, enquanto ela me fixava o rosto com aqueles olhos azuis profundos e vivos.
    – Posso fazer-te companhia? Penso que tenha sido um pouco inconveniente a desaparecer como faço sempre.
    Ela devia estar a tentar arranjar maneira de pedir desculpas, contornando a situação.
    – De facto.
    – Mais uma vez peço desculpa.
    Ao aproximar-se de mim vi os seus cabelos lisos e brilhantes a ondularem, enquanto ela se movia graciosamente. Era formidável falar com ela. E tremi desde a ponta dos pés à cabeça. Ela baixou o olhar, havendo silêncio até sairmos das imediações do liceu, e perguntei-me se lhe deveria falar ou deixar que o silêncio imperasse, o que me estava a incomodar. Optei por falar.
    – Porquê?
    Não consegui dizer algo melhor, com o receio que ela não entendesse aquela pergunta tão sem sentido.
    Sorriu e encolheu os ombros. A seguir sentamo-nos num degrau do passeio ali à beira e Sally abriu o casaco roxo que lhe chegava aos pés.
    – Então ainda continuas a achar que sou maluca… Era a isso que te referias?
    – Parece que lês mentes! Lamento – E baixei o olhar em sinal de vergonha.
    O olhar dela mostrava serenidade e nenhum rasto de ódio, o que me fez sentir muito à vontade. Sabia que já não me sentia assim à muito tempo.
    Depois soltou uma gargalhada.
    – Bem… Fico aqui! – Respondeu suavemente ao tirar as chaves de casa.
    Com aquilo tudo nem me dera conta que tínhamos voltado a andar, com as bicicletas na mão. Olhei para a estrada meia reduzida a reflexos do sol, ainda fraco, que lhe batia. Em seguida reparei que a “minha” casa estava ali mesmo, a duas casas de distância.
    – É aqui que moras? – Quis saber com uma expressão demasiado ansiosa para não disfarçar o entusiasmo de ter Sally com vizinha. Como se não sentisse que aquilo não passaria de um desejo forte de estar perto dela.
    Mas o que estava eu a pensar? Não conhecia aquele Daniel. Eu estava estranho, e isso deixava-me assustado, mais assustado que as perguntas da manhã daquele dia interminável. Depois ela virou-se para mim e olhou com curiosidade nos meus olhos.
    Senti-me pequeno à sua beira, e não olhei directamente para aquela desconhecida que queria tanto conhecer. Peguei na bicicleta e mexi no plástico que cobria o guiador.
    – Essa é uma bela pergunta! – Afirmou num tom quase inaudível, que me interroguei se estaria a dirigir-se a mim.
    O silêncio instalou-se e só foi quebrado com a resposta segura que ela deu. Entretanto, ainda suspirei profundamente para ouvir, tendo o olhar posto nos seus lábios, que agora se moviam.
    – É a casa da minha amiga Charlotte. Veio para cá passar férias e vou-lhe entregar as chaves que o meu pai lhe mandou entregar por causa de um carro dado como presente. Eles são grandes amigos!
    – Aborreci-te! – Afirmei ao tapar a cara com as mãos, estando com um ar enervado. Olhei-a muito rapidamente quase à toa, para depois fazer parecer o parvo que era.
    – Sou mesmo estúpido… Todos pensam que sou uma coisa e depois, faço perguntas festas – Continuei de mãos na cara, não conseguindo enfrentá-la, naquele ar quase angélico dela.
    – Não considerei um insulto, por isso não me sinto mal pela tua pergunta. Apenas penso que sejas um pouco tímido? Será a palavra certa?
    Apesar do que eu dissera, ela parecia estar bastante alegre, o que já não me surpreendia. Depois ela mostrou o seu sorriso aberto e perfeito, e abriu o pequeno portão verde, para percorrer ainda um pequeno caminho até à porta branca com desenhos em alto-relevo de anjos.
    Cerrei os punhos para me despedir, mas o som do “adeus” não saiu, e em vez disso, uma tosse rouca ecoou pela rua, deixando-me embaraçado.
    Ela despediu-se acenando.
    – Até amanhã… – Disse, deixando o meu coração a bater como uma metralhadora que não parava de disparar. Quase desmaiei ao sentir tudo a andar à volta.
    Pus um pé fora do passeio, e preparava-me para cair, quando… algo duro me abraçou e segurou. Sally segurava-me com as duas mãos à volta da cintura, quase colada a mim.
    – Tens de ter mais cuidado Daniel… – Advertiu enquanto eu me sentava no passeio, quase não raciocinando com o que sucedera. Sabia perfeitamente que ela não teria tempo de me agarrar de tão longe que estava.
    – Como é que tu… O meu sussurro pareceu nem se ouvir. Sentia que uma coluna de pedra me amparara, e isso era quase impossível.
    Espantosamente a voz dela parecia tão brincalhona que se preparava para rir. Tentei encontrar uma solução para tal momento e deparei-me a pensar que tudo não passava de uma mistura de emoções.
    Uma vontade de sentir as suas mãos tão frágeis. Sabia que algo era impossível, e despedi-me com pressa, dirigindo-me a casa, já em cima da bicicleta. Éramos desconhecidos ainda. Havia tanta coisa a perguntar, e ficava nervoso só de pensar que no dia seguinte nos voltássemos a ver, para lhe questionar tudo que quisesse.

    Espero que gostem…

  10. So uma observação, cá em Portugal a palavra “gozar” nao e a mesma que ae no brasil. Aqui é do genero, fazer troça da pessoa. rebaixá-la. Espero nao terferido a sensibilidade de ninguem. Cumps.

  11. Alem deste livo aqui em cima chamado Penumbra estou trabalhando em um outro projeto de nome: The Collins, Memórias de um Cavaleiro-Vol I. Tduo se passa num ambiente medieval.
    Deixo abaixo uma pequena parte do que já está escrito. Espero que gostem…

    Um nevoeiro cerrado abafava-nos cada passo. A neblina escondia olhos canibais. Dar um passo demasiado longe das muralhas do castelo podia significar uma perna a menos. Sor Vannigan passou-nos à frente.
    — Ordens são ordens — disse.
    Apenas uma estratégia para nos espantar o receio. O caminho era seguro até ao picadeiro. Era um ponto de passagem movimentado.
    — Quanto tempo, Sor?
    Perguntei-lhe com esperança de ficar tempo suficiente para dormir. Não me deitava numa cama há mais de uma semana. Mas chuva pesada, e neve de rachar os ossos, houve que chegasse.
    — Ninguém se ponha com ideias — disse Sor. — Essas espadas dentro das calças, entendido? Não estamos aqui para mulheres e vinho. Água para os cavalos e pouco mais. Para mim, água quente. Já me pesa mais a sujidade do que a armadura. Quero todos de prontidão.
    Ordens são ordens. Que remédio. Todos ficámos a sonhar com o banho que apenas Sor ia tomar. Havia no ar um cheiro de lenha queimada, trazido pelo nevoeiro. Vinha das casas circundantes. Como raio ainda vivia alguém tão longe do castelo? Como é que ainda viviam depois de reclamarem terras e ouro ao rei? Não havia razão para o rei ceder. Existia uma só sentença para os insubordinados. Decapitação. E não seria a primeira vez que o rei varria uma aldeia com uma carga militar. Sor Vannigan não se havia de importar de cumprir a ordem, de espada em punho. A consciência era uma coisa que o homem tinha trancada em algum poço fundo.
    Olhei para Patric. Estava a dois passos de mim. O rapaz deu-me pena. Rapaz era uma maneira de dizer. Não devia ser mais novo do que eu. Descaía os ombros sempre que se atrevia a levantar os olhos perto do Sor. O pai tinha sido executado, há uns anos, por desafiar o rei. Um ferreiro exímio que deixou o ofício nas mãos do filho. A única razão pela qual foi poupado. As armas necessitavam de boa forja. Fez a própria armadura. O metal estava sempre reluzente, como acabado de polir. Ambos fomos agraciados com a honra de servir sob as ordens de Sor Vannigan. Era isso ou ficar sem cabeça.
    A patrulha tinha sido demasiado longa. Mais um dia e alguém ia cair de dentes no chão. Mesmo Sor Vannigan pareceu usar o banho como desculpa para descansar o corpo por uns minutos. Ordens são ordens. O raio das ordens. Vinham de um rei que perseguia inocentes mas poupava o filho de um fora-da-lei, que seria capaz de lhe abrir a garganta tivesse ele oportunidade.
    Para alguns de nós, o regresso a casa já era quase um sonho de tolos. O cheiro da morte entranhava-se em tudo. Todos os lugares por onde passávamos eram cadáveres gigantes deixados pela espada. Era a vontade do rei.
    Para lá da aldeia, estava a fronteira dos corajosos cavaleiros. O desconhecido. Patric disse-me que era a morte certa. Nenhum dos cavaleiros que seguiram nessa direcção regressou. Nem um cavalo. Nem um rumor. Nada.
    Tínhamos de inventar coragem sem dizer um pio. A única resposta de Sor Vannigan para queixumes era uma faca no pescoço.
    Ele vinha de uma família com posses, que chegara a avançar pretensões de ocupar o trono. Às vezes, em histórias de camarata, lá se ouvia suposições acerca do seu passado. Que foi um jovem completamente diferente do homem que era agora. Tinha sempre um sorriso nos lábios e uma mulher nos braços. Agora já não sorria. A sua companhia era o Tempestade. Aquele cavalo devia conhecê-lo melhor do que qualquer pessoa. Tão negro como a armadura de Sor Vannigan, das botas de couro ao manto pesado. Mas a perícia com a espada era o motivo das maiores histórias. Nenhum cavaleiro, vivo ou morto, dizia quem sabia. Ninguém lhe era superior de espada na mão. Não havia resposta certa para o segredo do lenço branco que usava atado na mão esquerda. Os palpites eram muitos, mas a certeza era apenas uma. Quem lhe mexesse, ficava sem a cabeça.
    Sabia-se que Sor Vannigan jurara vassalagem ao rei há menos de um ano. Na verdade, pouco mais se sabia. Tinha recomendações dos antigos Senhores. A força real ganhou um comandante de poucas palavras, mas de acções. Preferia que a espada falasse por ele. Todos lhe conhecíamos as palavras gravadas no aço da lâmina. “Ao rei, a glória e a redenção de todas as almas que tomarei por ele.” Era tudo o que precisava que se dissesse. As palavras dos adversários não lhe atravessavam a armadura. Quem tivesse contas a ajustar, podia enfrentá-lo nos Duelos. Um único golpe costumava ser suficiente para os arrumar sem grande sofrimento.
    Era impossível ameaçar um homem assim. Lutava movido pelo instinto de um animal selvagem, sem recear a lâmina adversária. Uma liberdade que nenhum de nós possuía. Todos lutávamos apenas para não perdermos a vida. Patric não se mostrava muito interessado nas motivações de Sor Vannigan. Estava de ombros caídos. Calado. Havia nele algo que me enervava. Acabara de receber uma ordem direta e nem sequer fez um sinal para dar a entender que se ia mexer. E a cada dia ele estava pior. Quantas mais adversidades aparecessem, mais ele se rebaixava perante nós. E com o tempo a piorar cada vez mais a única coisa que valorizava no “miúdo” era a facilidade em fazer aparecer fogo com as lâminas das nossas espadas. Fora isso era um simples miúdo amedrontado e não um guerreiro experiente a engrossar a nossa força. Mas em primeiro lugar, a minha preocupação era com os olhos que nos rodeavam. Algo de muito maligno e que nitidamente não gostava de nós estava prestes a atacar.
    Sor Vannigan já tinha notado e o miúdo também, daí a expressão de medo que tinha no rosto. Por minha vez eu já tinha a espada na mão e mantinha a minha posição. Não iria cair assim. Se queriam alguma coisa de nós que a viessem buscar. Eu encarregava-me de cobrir o perímetro. Sabia também que todos nós quereríamos estar em segurança dentro do castelo. Mas esta não era a hora para partilhar o medo com os outros. Eu tinha de os proteger e assim seria. Fosse como fosse. Estava preparado para morrer. E acreditava que além de mim haveria mais alguém pronto para partir, se isso significasse uma morte digna O nosso reino era a chave de tudo. “Aposto que não te vais mover se aparecer alguma coisa. Ai aposto sim.” Dissera um dos colegas do miúdo quando momentos antes tinhamos visto as folhas dos arbusto a mexer e nem uma palavra trocamos, com receio. A verdade é que o medo estava com todos.
    “É dificil avançar sem sabermos o que nos espera ali”. Refleti eu a tremer. Correriam todos dali se fosse dada uma ordem e nem pensariam em olhar para trás. Eu apenas queria que a patrulha terminasse.
    – Gary deu-nos a entender que tinhamos de permanecer até ao fim – Disse Patric, pela primeira vez que ganhou coragem para falar. – Senão morremos à mesma. Não passaríamos de hoje. Sei que é dificil de aguentar. Se realmente aquilo que ali está nos quer atacar deve estar com receio pois já passou tempo demais parada. Devemos atacar, senhor?
    Sor Vannigan levantou-lhe uma mão. Olhava fixamente para o arbusto . Patric sabia que quando ele estava assim pensava em algo importante.
    – Quero saber o que acham que é. Falem claro e rapidamente. Não se acobardem em fazer som algum.
    Patric era bastante melhor em forjar espadas do que em falar. As palavras custavam-lhe a sair quando estava calmo mas em contrário mostrava-se falador em momentos apartados. Ninguém tinha tanta habilidade como ele em esconder o seu nervosismo, e os seus colegas aida pensavam que ele falava sempre quando devia e queria.
    Pelo som que ouvimos, para lá daqueles fetos estará um lobo faminto. – Disse eu. – Seriamos capazes de o capturer sem inguém saber, senhor. Fariamos um casaco. Um casaco com a sua pele. O tempo frio está para durar, e temos de ter roupa quente. Não a cho que alguém possa confrontá-lo quanto a isso. Ninguém se atreveria. Posso avançar se assim quiser.
    – Irá sangrá-lo?
    – Não. Não haveria necessidade. O corpo sera jogado fora e sumirá.
    – O que utilizará?
    – O arco. Depois deitarei o corpo ao lago cheio de pedra lá dentro.
    – Já reparou no tamanho?
    Encolheu os ombros.
    – Ainda nem viu o animal e já pensa como poderá atacá-lo? Isso é muita imprudência.
    – Ou astúcia – Sugeriu Patric. – Astúcia – Repetiu Sor Vannigan. – Há uma besta atrás destes arbustos, entre a nossa vida e a nossa morte. Ela já sabe o que quer. – Sorriu levemente. Assegurai-vos de que esse miúdo não se aproxima dos ramos – e saiu dali a galopar em direcção à casa que tinhamos visto.
    – Vocês darão ouvidos a um cobarde? – peruntou o miúdo enquanto era capturado.
    – Eu não. Mas, são ordens. – Murmurou-lhe um dos seus antigos companheiros. – São ordens rapaz.
    O miúdo tentou tirar um punhal para ameaçar quem o segurava. Passos pesados na neve disseram-nos que mais alguém estava com o grupo mas não vimos ninguém chegar.
    – Calem-se todos que temos alguém a vigiar-nos. Vocês vêm alguém? – Sussurei enquanto via os outros três com um ar gelado no rosto, tentando suster a respiração
    – De onde veio este vento? – Perguntou ele ao tentar soltar-se da neve espessa que lhe pesava nos pés.
    – Que raio de pergunta do rapaz. Não acha chefe? – Perguntaram os dois homens que me acompanhavam e mais o miúdo.
    – Também o sinto, Homem. – Tirei por um instante o meu capuz para olhar bem em redor. – Tenho frio desde a ponta das orelhas até aos pés. Mas estamos bem, não estamos?
    – Têm aqui uns corpos Senhor.
    Todos tivemos vontade de vomitar.
    – Não deviam brincar com coisas dessas seus palermas. – Disse-lhes ao entrar com eles dentro de uma brecha de arbustos ali perto.
    Harry olhou-me cheio de medo e eu vi que um dos seus olhos estava a sangrar.
    – verão que não significa nada. Devem ter-se perdido e congelaram. – Puxei de novo o capuz e senti um calor a subir pelo meu corpo. Fiquei em silencio.
    – Se alguém vê isto…
    – Vocês já tinham visto algo assim?
    – Nunca chefe. – Eles pareciam aterrorizados com aquilo. Como teria acontecido?
    – Como acham que eles estão?
    – Mortos? – George respondeu a franzir uma sobrancelha. Agora que tinha visto já podia acreditar. Se eles estavam ali era verdade. Estava verdadeiramente alguém atrás de nós e aquilo era um aviso.
    O outro assentiu quando percebeu o meu raciocinio.
    – Vocês são esquisitos. Conseguem ver um monte de corpos empilhados na neve e não fogem, mas com um barulhido atrás das folhas quase que se cagam. Mas estes não nos pertencem. Pelo menos à patrulha porque usam roupas de camponês. – Eu tinha a certeza do que falava porque eles faziam parte dos terrenos do castelo e trabalhavam-nos dia e noite. – Agora acabou a patrulha. Temos de decider o que fazer com eles.
    Com aquela frase eles sabiam que aquela era uma ordem do chefe do grupo. O medo obrigara-os a ceder. As suas cabeças estariam a prémio se outros soubessem.
    Harry foi o primeiro a arrepiar caminho por entre a neve. Era quase invero e na colina do leão cada inverno trazia novas particularidades. Este que estava à espreita podia bem ser um sinal de fome e de doenças para todos. Devido ao pedido proveniente do Reino da Onça onde pediam para não caçarmos próximos das suas terras. O que queria dizer que durante uns tempos, não havia festividades para ninguém e por causa disso, o nosso rei andava aborrecido e irritado. Uma palavra a mais e zás, cabeça num espeto às portas do castelo. Atrás deles estava eu esperando mais que nunca para não sermos vistos ou algo nos denunciar. Aqueles olhos que antes nos estavam a ver não nos seguia agora, mas tinhamos de estar a tentos a tudo. Os dois que tinham visto os corpos não se tinham esquecido do que ficara lá atrás. EEstavam sempre a falar nisso.
    A noite estava a chegar. O céu tinha mudado de um cinza pálido para um azulado morto e escuro. As nivens misturavam-se com a noite e faziam figuras horriveis no céu. Uma caveira apareceu. Depois foi a lua que não tinha cor muita ou quase nenhuma cor.
    – Podemos avançar já para o interior do castelo – Disse George depois de se levantar.
    – Com os corpos aqui, nunca – Respondi-lhe de pronto. Ele já não conseguia esperar nem mais um minute.
    – Vou avisar Sor Vannigan do sucedido.
    Nem precisei de lhe responder quando meti a mão em cima da minha espada e lhe dirigi um olhar feroz.
    Harry encaminhou o companheiro até uma árvore ali perto a fim de lhe chamar a atenção. Ele sim, era um bom cavaleiro para o grupo.
    “- Para quê sacrificarmos tudo com este maluco?”- Ouvi as palavras de George a ecoarem nos meus ouvidos. Ele podia não se ter apercebido, mas a sua voz gritante ouvia-se a quilometros de distância.
    – É melhor arranjarmosuma maneira de sairmos daqui chefe. O lugar não é est+avel. Podemos estar cercados de ursos, lobos, ou outros animais esfomeados. Os corpos chamam a atenção.
    Harry fez uma cara muito estranha. Quase como aquela que Patric fizera com o frio. Mas desta vez a respiração falhara-lhe completamente e começava a ter convulsões. Um género de sussuro veio ter perto de nós vindo sabe-se lá de onde. As folhas quase que queria espetar-se nos nossos mantos e o vento ficou agressivo para cortar a nossa carne. Aquele lugar era amaldiçoado, ou se não o fosse parecia. Seria da presença dos corpos?
    – Temos de sair daqui, senhor. –Gritou Patric quando finalmente se conseguiu soltar das cordas. Precipitous-se para cima de mim para protecção.
    – O que se passa?- Não me ouviu lá atrás? Veja bem o que está a acontecer.
    Patric parecia certo no que dizia. Em tanto tempo de cavaleiro e nunca vira algo tão negro. Seria mesmo assombração?
    – É o fogo, o vento e as folhas. O que acha que eles fazem aqui? – Apontou para os corpos que agora rolavam na neve por causa do vento. Estavam quase a voar com a velocidade do vento por cima deles. Depois o miúdo colocou-me dentro de uma pequena gruta que tinha ali perto. Afastado dos corpos e dos outros dois palermas que pareciam estar já congelados pelo frio.
    – Aqui estará seguro. Use a sua espada para abrir mais um pouco de espaço para mim.
    – Eu não te deixarei rapaz! – Disse-lhe em alta voz. – Vem e aquece-te. Podes sobreviver. Não te preocupes com eles.
    O miúdo discordou.
    – Nunca deixo ninguém para trás, Senhor! Apenas precisamos de nos aquecer. Trate de arranjar fogo. Faça com uns paus e umas pedras que encontre por aí. Se fizer como lhe digo, sobreviveremos.
    – Tu não aprendes pois não miúdo? És teimoso como o teu pai era. Não vês que se acender uma fogueira atrairei mais atenção indesejada?
    – Não acenda o fogo e terá uma morte ainda pior que a deles.
    As vestes de Patrice ficamvam-lhe grandes. Mas apesar de o seu capuz lhe tapar quase a visão ele dava tudo para ser bem sucedido. Por um momento tive receio que ele se perdesse com tanta neve e vento à sua volta.Era algo aflito de se ver pois toda a sua vida dependia de nos tirar dali ou ser morto pela morte de um superior e mais dois colegas.Seria isto como assasino dos corpos que nos acompanhavam e por fim seria queimado numa fogueira como se fosse um bruxo.
    Por fim ele parou e olhou-me com algum custo por baixo do capuz.
    – Nada de fogo. – Sussurrei-lhe rapidamente.
    Patric tomou aquilo a mal e virou-se de costas.
    – Apenas haverá um caminho.
    Forçou os arbustos cerrados a abrirem-se à nossa passagem, sempre com a espada em punho para cortar a vegetação mais forte e alguns ramos. Depois passou ao largo do ponto de vigia do castelo e andamos curvados sob um manto de lama espessa onde costumavam pôr os restos das refeições ou os bocados de carne podre. Enquanto isso Patric olhava à nossa volta em busca de guardas distraídos e atirava-lhes pedras certeiras na nuca, fazendo-os deslizar em silêncio pelas rampas do castelo. Depois, pegava neles com cuidados e encostava-os à parede, para parecerem estar a dormir.
    A Torre maior estava mesmo no cimo do castelo onde Patric sabia serem os meus aposentos. Mais uma vez ele se curvou para deslizar pela neve e abriu-me a porta que dava acesso à escadaria principal da torre.
    O meu coração parecia ter desaparecido. Não consegui reagir a tamanha façanha. Mas também a tamanho erro. Por cima de nós as nuvens pareciam estar de volta e sobre o pequeno monte de carne podre lá em baixo, eu não vi os corpos que traziamos connosco. Tinham desaparecido.
    – Eles voltaram! – Ouvi uma voz a gritar atrás de nós quando Sor Vannigan acabara de subir o ultimo bocado de caminho que nos separava. Depois parou de espanha em punho com o manto sobre as suas costas a nodular no vento da noite agora cerrada.
    – Não fique aí Senhor! – Gritou o miúdo ao tentar corer na direcção do seu mestre.
    Sor Vannigan não entendera o sentido daquelaurgência e mergulhou a lamina da sua espada na barriga do rapaz. Olhou para ele e apercebeu-se do erro que tinha acabdo de cometer quando Patric ainda lhe segredou qualquer coisa, enquanto escorregava até ao chão.
    – Parece que temos aqui um traidor, meus senhores.
    O coração de ambos os nossos corpos saiu do peito e desapareceu. Procuramos explicação naquilo que não havia. Não podia ser. Os meus olhos olhavam simultaneamente para a frente e para o chão. Um grande erro cometido e sem perdão. Um erro pago inocentemente…
    – Virem-se os dois e não façam movimentos bruscos. – Ordenou Sor Catriga. – Não ousem mexer em vossas armas sequer. Não quero ver mais sangue derramado. Hoje.
    – Não podem dizer que sou um traidor sem provas fiáveis. Podemos defender-nos pelo menos? É o mínimo que merecemos, Senhor.
    Sor Catriga virou-se de costas a conferenciar com aqueles que o acompanhavam. Depois dirigiu-se na nossa direcção com toda a sua sentinel a segui-lo de perto para o poder proteger. O medo tomara posse do homem e via nele um temor incrivelmente notório em cada passo desiquilibrado que dava. Murmurou qualquer coisa antes mesmo de se chegar perto. Depois retirou a espada de Sor Vannigan das mãos. Eu senti o cheiro do ferro com o sangue misturado. Após isto gritaram:
    – Assasino! Aqui, Aqui!
    Sor Vannigan ouvira com certeza aquele burburinho de passos certos a chegar. O chão desfez qualquer dúvida quando começou a tremer de leve. Os passos eram da guarda real. O rei estava a chegar ao local.
    Eu deixei-me estar na escuridão a fim de passar despercebido.
    Depois eu virei a face ao barulho que tinha ouvido na direção do pátio da torre. Após este gesto Ele apareceu. Joelhos ficaram no chão e espadas metidas nas bainha. Sor Vannigan tentou defender-se mas perante a imagem do rei qualquer palavra podia ser tomada a mal porque parecia perturbado. Talvez não fosse assim. Talvez a presence do rei ali fosse sinal de esperança para nós. Mas afinal, o que queria o rei?
    Senhor, diga-me o que se passou durante a patrulha que enviei em volta do castelo esta tarde.
    Eu estava estático perante tais palavras. Sentia o sangue quente nas orelhas que fervilhavam de preocupação. Um Segundo elemento da entidade real apareceu e colocou-se a par do rei. Era uma figura com bastante altura, forte e com cicatrizes feitas nas ínumeras batalhas que travara. Usava uma armadura negra que reluzia sb a luz lunar. A sua capa longa ia desde os ombros e arrastava-se pelo chão sem cuidado algum do dono que a usava.
    Sor Vannigan ouviu um expirar longo por parte de Gary, filho mais velho do rei que o acompanhava para todo o lado. – Acabe com isto logo, pai – pediu com voz nobre e calma. Depois tirou a sua capa e colocou-a em redor de seu pai que tremia com o frio do exterior. Mas de um momento para o outro tudo mudou. O vento parara e o frio apertava cada vez mais.
    Um dos guardas colocou-se abaixo do nosso nível de visão para procurar algo na neve.
    – Onde estão? – Perguntaram os dois com autoridade. – Onde os colocaram? –pareciam loucos a esfregar as mãos na neve, mais fundo e mais à superficie. E o que se via era um manto branco a cobrir-lhes as costas, o cabelo e as vestes. Mas de súbito pararam e puseram-se de pé. Parecia que se tinham lembrado de algo. Mas nada disseram, além destas palavras: – Claro que não podiam dizer onde os tinham colocado. Porque os destruiram!
    Mas não tinham razão. Se falavam dos corpos, e eu nem sabia como sabiam deles, estavam engandos ao pensar que nos tinhamos desfeito deles. Aliás, se soubessem da aflição que sentíamos pela sua perda…
    Sor Vannigan ouviu perfeitamente o ar de frustação que vinham deles.
    – Não fique demasiado preocupado com a situação, Senhor. Pelos vistos enganei-me e o meu colega também e por isso lhe peço desculpa pelos dois e por incomodar a sua noite. Assegurar-me-ei de que esta falha jamais se repita de novo. – A sua voz estava segura mas rápida. Voltaram a recompor-se e dirigiram-se de novo às escadas. O meu coração finalmente sossegara. Há muito que não sentia tanta tranquilidade. O que tinha ido à frente fez de conta que estava a andar em bicos de pés, tamanha for a a vergonha. O melhor era mesmo não se meterem mais no nosso caminho pois com ou sem rei da próxima vez que os vise em tamanha falta de respeito e estariam os dois em muitos maus lençóis. Mas havia ali um resto de desconfiança que no olhar de ambos não me deixou sossegado. Por sua vez, Sor Vannigan perdera a postura e lançara a sua espada contra os dois guardas que estavam distraídos.
    Acabara de cometer um terrivel erro ao ferir assim um membro da guarda real.
    – Parece que assim já não se levantarará tanto a crista daquele ali.
    Depois e para se certificar que o trabalho anterior tinha sido bem feito, pegou uma vez mais na espada segurando-a firme e em posição recta, e inclinou-se perante o rei. Por sua vez também o rei se curvou, o que queria dizer que lhe dava permissão para acabar com tudo. Mas, naquele momento, Sor Vannigan achou que não tinha de virar um assassino e matar daquela forma. Por isso deteve-se. Sor Vannigan viu que dentro de si ainda Morava um homem como qualquer outro, sensível e humano. E não chegou a fazer o tal gesto com a espada. Por isso e durante um breve momento deu oportunidade a que aquele a quem antes trespassara a espada, ainda pudesse respirar.
    Apareceram do nada umas sombras no chão do pátio. Primeiramente uma, depois duas e a seguir já era um grupo gigante que não conseguia contar porque já havia uma mancha enorme a deslizar no chão. Sor Vannigan não viu mas eu vvi. Eu deveria avisá-lo. Mas não me dizia respeito. Se era a morte, ela que o levasse. Ele estremeçeu quando se apercebeu mas nem um ruído lançou.
    Uma espada duas vezes maior que a sua veio na direcção do seu corpo e cabeça.
    Não se ouviu nenhum grito. Apenas uma lâmina que rasgava tecido e metal fraco. Gary desferiu um golpe, e outro, e ainda outro, para depois recuar dois passos e se pôr de novo ao lado do rei. Ele sim, mantinha-se de pé, paciente e com o rosto Escondido pela sombra das nuvens que tapavam a lua cheia. Dizia-se por ali que “em noite de lua cheia a morte vinha e mais de meia”, isto para confirmarem que até na noite mais bela, o rei podia matar e virar um monstro, fazendo tudo pela calada para depois não ter culpa de nada. Pois, mas isso era quando não havia testemunhas para presenciar os seus appetites animalescos.
    Então, a espada de Gary parou quando já não restava mais nada. A lamina que outrora brilhava com a lua tinha trespassado malha, ferro, carne e ossos. O rei lançou um grunhido de culpa. Viu-se sangue espalhado por todo o lado, e este até tinha sapicado as pedras da torre. E as gotas escorriam para for a do patio, de modo a se precipitarem no andar mais abaixo que dava acesso ao resto do castelo através de uma porta de um arco com uma porta de madeira.
    O rei disse algumas palavras que não entendi mas que certamente iriam de encontro ao corpo morto de Sor Vannigan, pois apontava para ele repetidamente.
    Eu enchi-me de fúria e só me apetecia atacar aqueles dois malfeitores.
    – Meus Deus! – Gritei dentro de mim ao ver a espada de Gary a enterrar-se no corpo já morto de Sor Vannigan. O som que ela fez foi bárbaro quando senti que os seus ossos se quebravam ao tentar alcançar o coração do homem.
    Um grito ecoou em todos os corredores do castelo próximos. Gary gritava e soluçava com o sangue de Sor Vannigan nas suas vestes e na sua armadura de prata.
    O seu pai aproximara-se dele , pondo a mão no seu ombro para o confortar. As espadas de pai e filho tinham caído e um silêncio prolongado seguiu-se.
    Aquela cena tinha sido horrenda. As espadas foram entretanto recolhidas e lançadas a uma fogueira que tinha sido acendida pelos guarda durante a noite para se protegerem do frio.
    Eu fiquei ali sem me atrever a soltar um gemido. Apenas querendo aproximar-me do meu Senhor sob aquele céu escuro e frio. Mas senti que o meu corpo já estava demasiado gélido. Parecia ter congelado no tempo.
    O corpo de Sor Vannigan jazia ali no meio, com mais de metade do corpo coberto de chagas feitas pela espada do rapaz assassino. Via-se que não tivera peidade na hora de matar.
    Os olhos dele estavam abertos. As pupilas sem vida, já roxas. A minha espada caiu no chão. Fechei os olhos e tentei pedir alguma coisa lá para cima. Asua pele estava fria como o gelo e o meu coração duro como pedra. Haveria vingança.

    Frederic vs Vannigan

    Quando os primeiros raios de sol me atingiram, ainda com a lua no horizonte eu sabia que tinha terminado. Ouvia-se passos nas ruas e gente muito excitada, ora chamando ora berrando. Eu nao sabia mas estava prestes a haver a dizimação do corpo de Sor Vannigan numa fogueira. Diziam que era o seu ultimo momento de glória, palavras proferidas pela boca do rei e do seu filho assasino. Foi nesta altura que eu soube que era o momento de fazer frente ao rei e a quem lhe estivesse ligado. Era a minha vingança, uma vingança silenciosa.
    O corpo tinha já sido levado, amarrado e coberto por uma bandeira com um brasão dourado a que não tive acesso, pois estava numa pilha alta de madeira, para ficar acima da maioria dos presentes em sinal de respeito. Todos pensavam que ele tinha morrido como um herói ao serviço de Frederic – o Rei das mentiras. Só de pensar nessa alcunha, que eu lhe dera, começava a sentir comichões na cabeça que me faziam arder as orelhas. A Guerra estaria presente se, por exemplo, este episódio da morte de Sor Vannigan fosse espalhado. E eu sabia que era o alvo preferido pelo rei para ser o próximo a “morrer como herói”, depois de proteger o rei de uns malfeitores quaisquer.
    Mas aquele homem que ali estava nada tinha feito ao rei. Muito pelo contrário. Apenas se tinha defendido após guardas reais o terem ameaçado com espadas pontiagudas apontadas à barriga. E por um crime que nem provas tinham. Assim ele perdera a sua honra perante a imagem do rei e quisera marcar uma posição, como um homem de honra que era.
    Ainda em cima do tal brasão estavam as vestes da noite anterior, já lavadas e sem vestigios de ali terem tido sangue.
    A tensão estava presente em todo o lado. Fosse na respiração dos guardas que guardavam o corpo, nos passos que os cavalos davam quando eram puxados para o local certo da cerimónia ou pela multidão que queria ver onde e como estava o corpo do herói do rei. Ali no meio pareceu-me ver Harry e Patric a acenar-me repetidas vezes mas no fim apenas pensei que tudo não passaria da minha imaginação pois quando tentei prestart atenção já apenas havia uma brecha na multidão sem nada lá no meio senão o fumo de um pequena fogueria que tinha sido acendida para aquecer aquela manhã gelada de inverno. Sobre toda a multidão haviam nuvens negras que adivinhavam um temporal quando a noite caisse.
    Por aquela hora o rei estaria sentado de forma calma na sua cadeira, com os seus cabelos penteados, a sua espada e a sua melhor capa. Usaria também a roupa mais bela que possuisse nos seus aposentos, para saborear mais uma vitória que ninguém podera ver nem gritar “vivas”. Mas hoje haveria sobre ele uma sombra sob a cabeça do homem que caçava à noite e falava às multidões durante o dia, dizendo-lhes que nada temessem e que enquanto ele vivesse nada de mal aconteceria às suas casas, famílias, ou terras. Nessas Alturas ele já não era rei pois não vinha com coroa alguma. Apenas era um guerreiro, o guerreiro de Murdock – o Reino da raposa.
    No entanto haviam perguntas sem resposta e elas tinham de ser respondidas no máximo até ao fim da noite pois a população desconfiava das mortes que se a repetir dias afim. E onde sempre o rei saía como vencedor. Ou o seu filho que ínumeras vezes Segundo contava chegava no ultimo momento para enterrar a sua pesada espada nas costas do malfeitor ou ladrão. U se não fosse nenhum dos dois era um mebro da guarda que morria e todos os que faziam parte dela sabiam que nunca for a assim. Quando morria algum de nós, os outros fugiam.É tão fácil de contar como a verdade que as minhas palavras carregam. Não iriam “congelar” simplesmente na neve que rodeava o castelo por ali ficarem à espera de uma morte lenta e dolorosa. E o míudo sabia demais sobre isso mas não tinha falado assim tanto para que eu percebesse, como agora começava a entender, que talvez tivéssemos de nos preocupar com algo mais do que um tempo frio e as súbitas rajadas de vento que matavam pessoas, ou os olhos misteriosos que apareciam no meio do bosque e nos espiavam fazendo ruidos estranhos.
    – Este Homem foi um herói que jurou proteger o Reino de Murdock, o Reino da Raposa, e por isso sera levado pelo vento nas cinzas que esta fogueria criar, para que todos os que as virem e sentirem se ajoelhem à sua passagem pois ele era bom. O melhor que já vi lutar.
    O cavaleiro que tinha na mão a tocha aproximou-se então da pilha de Sor Vannigan.
    – Talvez fosse melhor desviar o olhar para não infligir mais dor Senhor. – Aconselhou-me com um olhar triste e uma face amargurada. – Todos honraremos a sua memória em vida e lutaremos no futuro para relembrar a sua morte.
    Mas eu quis ver e entrou em mim uma vontade ainda maior de vingança.
    Ofogo for a acesso e as suas chamas eram de um laranja forte, quase vermelho, a cor que na noite anterior via por todo o chão do patio. As crianças gritraram quanso um primeiro bocado de metal começou a ser derretido pelo fogo. E eu não consegui piscar os olhos para perder uma chama que fosse daquela fogueira imensa. Elas entravam em mim para me aquecerem o coração e o aconcegarem po saber que estava a fazer o mais correto em ralação àquele bom Homem.
    Um bocado de tecido fugiu com a brisa que agora se sentia vinda do mar, pois, aquele reino era conhecido como o reino da raposa porque haviam pessoas matreiras dentro dele, como o rei, mas era ainda mais conhecido por ter um imenso porto de pequenas embarcações e algum dia teriamos de ter grandes barcos se a Guerra começasse mesmo. Sendo assim, Gary agrarrou esse tecido. Ele era apenas um miúdo que obedecia às ordens do seu Rei. Depois soltou uma gargalhada e atirou de novo o tecido para o seu devido lugr.
    – Assasino. – Disse eu a murmurar. Depois alguém me parou quando pus a mão na espada que tremia por causa da raiva e desejo de justiça.- Chegará a altura – Disse calmamente. Esta pessoa parecia conhecer os meus pensamentos.
    A temperatura nunca tivera tão baixa como naquele momento, embora eu estivesse bem agasalhado com uma capa que normalmente usava para fazer a patrulha. Apenas a usava agora por se tratar “de um momento delicado”, palavras do Rei.
    – Ao menos morreu com honra – Disse uma mulher que estava perto de mim. Era atarracada e com rugas de expressão na face esguia, o cabelo já grisalho e os olhos de alguém que já me tinha aprecido outrora e que agora não me estava a recordar. – Tinha espírito de guerreiro.
    – Não era a honra que ele queria – Respondeu uma rapariga muito jovem um pouco recuada.- Se vises as vezes que ele entrava e saía do castelo para fazer estas “patrulhas” verias que o que ele queria era apenas cumprir o seu dever e fazê-lo bem feito.
    Na verdade aquilo não podia ser mais verdadeiro pois ele era duro, isso era sabido e com bons e dolorosos exemplos nas batalhas para os inimigos, mas com os jovens cavaleiros como nós, ele era assim para que pudéssemos crescer à sua imagem. Um homem. Verdadeiro. Sem medos nem sonhos e sempre com a vontade de serviro seu senhor. Não apenas o rei.
    E eu estava admirado com as palavras daquela linda donzela.
    – Procurai os culpados para que venham aqui e sejam julgados sob o commando do Rei! – Gritou o jovem principe já no meio da multidão.- Ele merece isso. Estareis dispostos a dignificar o seu nome, verdade?
    – Estamos e faremos isso, pelo Rei e por Sor Vannigan! – Disse um dos servos que ali tinha aparecido com um cavalo branco que era para o rei na sua primeira caça daquele dia. Uma actividade que nunca deixava de fazer, nem em momentos rigorosos como era o caso da guerra. O cavalo levantou as patas dianteiras atiçando toda a multidão a seguir o exemplo daquele Segundo guarda real. Começava assim um periodo de infelicidade àquele que se achava senhor “de tudo e de todos”. Sim, era o próprio rei que não demoraria a saber das notícias pela boca do seu adorado filho que tinha fugido dali mais branco que o giz, por ter a noção que mais tarde ou mais cedo os dois estariam em sarilhos.

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