Ideia não é história

Idéia não é história

(Esse texto foi retirado do livro de Bob Mayer “The fiction writer’s toolkit” pp. 76-87 e traduzido livremente por mim. )

Para mim, existe uma diferença muito grande entre a ideia e a história. Eu tive grandes idéias que eu não consegui transformar em uma história. Por outro lado, já peguei algumas idéias não tão grandes assim e as transformei em histórias muito boas. A idéia original é a fundação/base. É uma frase que dá início. Então você tem que descobrir como irá contar aquela idéia. Isso é a história. É o edifício que vai em cima da fundação/base. A diferença entre a idéia ea história é a razão pela qual eu não fico muito empolgado pra compartilhar minhas idéias com outras pessoas. Eu acredito que duas pessoas podem ter exatamente a mesma idéia, mas elas vão chegar a duas histórias muito diferentes.

Uma ideia geralmente é um resumo. Descobri que muitas escritores imaturos/iniciantes começam com o resumo, então ficam encalhados tentando transformar isso em algo concreto (no papel em preto e branco). É por isso que eu bato até a morte na mesma tecla que o escritor deve ser capaz de colocar a sua ideia em uma frase e, em seguida, escrevê-la no papel. Ele a torna real. Faz com que a distância abismal que existe entre idéia e a história diminua. Só pensar na sua ideia não é suficiente. Você tem de dize-la em voz alta e anotá-la no papel. Eu sempre acho que colocar no papel me força a focar e acabo descobrindo subitamente que esta grande ideia que tive na minha cabeça é muito mais difícil expressar claramente do que eu imaginava.

É um grande salto passar de idéia para história. História inclui personagens, o tempo, o ponto de vista, ritmo, local, etc etc . História tem de responder a todas as perguntas que vêm à mente no segundo você conta a alguém a sua ideia. A história responde: Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Também responde ao Porquê da sua intenção.

A ambigüidade não é uma coisa boa na maioria dos romances. Você tem que ser um bom romancista para levar o seu leitor por uma cavalgada longa e vaga. Existem cursos dedicados a destrinchar e analisar exatamente o que James Joyce fez em seus livros, mas não é provável que eles irão iniciar um curso semana que vem sobre você para analisar o seu livro. Vários autores que lecionam em universidades têm realmente incutido sobre mim este grande problema que eles têm com estudantes de literatura que pensam que ser vago e ambíguo é algo bom quando escrevem. Muitas vezes ser ambíguo é, acima de tudo, mais um sinal de que o escritor não sabe exatamente o que quer dizer.

Assista o filme, O Jogador. Veja os escritores tentando promover seu conceito para o personagem que Tim Robbins desempenha. A linha dele para todas elas é: “Diga em 25 palavras ou menos.” Como um romancista, para se promover a um agente ou editor você tem no máximo um parágrafo para fisgá-los, normalmente tem apenas uma frase. Se você não puder fazer isso, você está em apuros.
Eu estava assistindo “Biografia” na televisão ontem à noite e eles estavam entrevistando Clint Eastwood. Ele falava sobre um filme ou outro e dizia, “A coisa que eu gostei sobre este roteiro foi … “E ele ia resumia em uma frase ou duas. Ele não ia e dizia “Cara, eu realmente gostei daquela grande cena da página 28, e da virada na página 43, e … “Eu acho que muitos escritores ficam presos nas minúcias de sua história e perdem de vista a grande perspectiva.

O que você mais gosta sobre o seu livro?

Outra das minhas formas favoritas para ir da ideia à história é a seguinte: “Leve-a um pouco mais adiante.” Depois de você usar “e se”, jogue o jogo de dar um passo a mais. Você ficará surpreso ao ver onde a história pode te levar. E se as coisas não forem como aparentam? Quando estiver começando não use muito essa técnica, mas a medida que vai ficando mais proficiente na escrita, ela ajuda a desenvolver tramas mais complexas e mais interessantes. Ela permite que você adicione camadas á sua história.

Eu não posso enfatizar mais sobre a necessidade de ser capaz de ter aquela ideia original em sua mente a todo o momento e ser capaz de dize-la em uma frase. Isso vai impedi-lo de cometer muitos dos erros comuns em manuscritos.

Se você não conseguir contar a alguém de forma rápida e concisa sobre o que é a sua história, você vai se perder no caminho quando você tentar escrever-la. Tente contar a sua história a alguém que saiba nada sobre ela. Se você não consegue explica-la sucintamente para outra pessoa, certamente você vai ter dificuldade para escrevê-la.

Outra coisa a lembrar é que quase tudo já foi feito antes. O segredo é fazer um pouco diferente. Muitos autores são escritores de best-sellers que “lançaram” um género. Havia horror antes de Stephen King, mas ele levou-o para um outro nível. Ele mesmo admite, por exemplo, que “The Stand”,foi inspirado pela idéia de um livro anterior, “Earth Abides”, mas King levou a idéia de a nível mais alto.

Não escreva para o “mercado”. Porque realmente não tem como saber como o mercado vai estar daqui a dois e meio ou três anos que levará para você ser publicado. O mais importante ao tomar essa decisão é escrever qualquer coisa que deseje. Mas lembre-se se pretende vendê-lo (a uma editora) de que você precisa escrever de uma forma que outras pessoas irão querer lê-lo também.

A idéia original é igualmente crítica quando se trata de comercialização seu manuscrito, como você verá quando chegarmos a seção sobre negócios. Adivinha qual será a linha de abertura de sua carta de apresentação? Adivinhe o que é provavelmente a única coisa que um agente ou editor vai ler?

Sei que você está pensando que isto é terrivelmente injusto. Você pode sentir que, tendo quatrocentas páginas brilhantes de manuscrito e tentar vendê-lo com base em apenas uma ou duas frases é uma piada, mas pense nisso, como é que você compra um livro?

A maioria das pessoas compram porque conhecem o autor e gosta de lê-lo. Mas se você é um novo escritor, então você não têm essa opção. Então, como você comprar um livro de um autor que nunca ouviu falar? Você fica na livraria, lê o livro inteiro, então vai e compra o livro? Vá para a sua livraria mais proxima ou ainda melhor, no supermercado. Fique perto da estante de livros. Veja quanto tempo cada pessoa lê os livros nas prateleiras. Quantos segundos dão a cada livro? Então, quando eles escolhem um livro, quanto tempo eles passam olhando para ele?
Porque você acha que é diferente com agentes e editores?

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