Personagens em livros infantis – Heróis e Vilões

Personagens em livros infantis – Heróis e Vilões

Queria falar um pouco sobre construção de personagens em livros para crianças ou adolescentes. Estou trabalhando uma estória para jovens adultos e tive ontem uma aula sobre heróis e vilões, que geralmente são os personagens mais proeminentes na literatura infantil ou juvenil. Essas reflexões são fruto de uma aula de Fantastic Fiction, levantadas pela nossa professora e escritora Judith Anderson. Na verdade, fizemos mais uma reflexão sobre quais os atributos que esperamos encontrar nos heróis ou vilões e quais as perguntas que podemos nos fazer quando pensamos os nossos ‘heróis’ e ‘vilões’.

Heróis

Em geral, o herói ou heroína da estória é o ou a protagonista. Atualmente, é comum encontrar protagonistas como heróis relutantes, humanos, com defeitos que precisam ser superados. Ela/ele precisa lutar contra conflitos e obstáculos internos e externos. Mas também é comum que o herói tenha atributos positivos: força, coragem, capacidade de superar os obstáculos propostos, além de alguma coisa que o torna único (não necessariamente um super poder, pode ser uma característica de personalidade) – embora ele seja ‘gente como a gente’ muitas vezes, as crianças e adolescentes o vêem como alguém que inspira, que realiza algo que eles desejariam realizar ou ter a capacidade de superar um obstáculo da forma como ele supera. Uma heroína (ou herói) normalmente é persistente e corajosa – mas não é uma coragem ‘cega’, a coragem precisa vir de uma capacidade de entender e equacionar o problema de forma inteligente. Afinal, o leitor é, muitas vezes, mais inteligente e perspicaz que o escritor, e o problema precisa ser realmente desafiador. Descobrir as habilidades e desenvolvê-las também faz parte da ‘construção’ do herói – hoje o herói não nasce pronto, ele se torna um herói…

Será que tem alguma ‘regra’ na construção desse personagem? E os anti-heróis, tipo Artemis Fowl? O livro Deconstructing the Hero, de M. Hourihan, fala da predominância dos heróis jovens rapazes, brancos e ocidentais, que lutam contra o ‘estrangeiro’ do mal. Essa tendência tem diminuido e já vemos heróis subvertendo essa tendência. Porém, eles ainda são bastante comuns – basta ver os filmes no cinema. É interessante ver como os heróis atuais são um pouco mais ambíguos do que antigamente, que precisam superar as suas próprias dúvidas e conflitos. Suas habilidades são, ao mesmo tempo, ordinárias e extraordinárias. Os heróis, no final da estória, sempre (ou quase sempre) sacrificam alguma coisa muito importante para eles próprios, fazer uma escolha crucial – escolher o menor entre dois males.

Vilões

Nessa aula, a reflexão também girou em torno dessa figura e da necessidade da existência do vilão ou vilã na estória como uma forma de lidar com os nossos próprios lados obscuros. Muitas vezes, o vilão ou a vilã também funcionam como os portadores das mensagens do tipo: isso é o que acontece com aquelas pessoas que fazem escolhas equivocadas. Não tem certo ou errado nessas construções, mas é interessante pensar, quando escolhemos a função do vilão nas nossas estórias, o que estamos querendo dizer com elas. Em geral, eles têm algo no passado que os fez se tornarem antagonistas ou maus. Ou talvez eles tenham feito escolhas ruins, que os levaram para ‘os caminhos errados’. Existe, nesse caso, uma opção ‘moral’ e é bom quando podemos colocar esse elemento – ou não – de forma consciente no nosso texto. Os monstros, geralmente, são maus por natureza (é a natureza de um monstro ser um monstro, afinal – embora, nem sempre… quem viu o filme Monsters & Cia, sabe que eles podem ser adoráveis). De novo, há uma tendência a caracterizar o vilão como um estrangeiro, alguém com alguma questão física, uma pequena (ou grande) deformidade física que se reflete no caráter e é importante ter cuidado com isso. Na minha opinião pessoal, o importante é estar consciente desta caracterização e que função ela tem dentro do contexto da estória. Afinal, o vilão existe, a grosso modo, para ressaltar as qualidades do herói e permitir que o herói seja heróico… Mas aquelas velhas questões do politicamente correto ainda se aplicam: a bela e magra heroína, a velha e feia bruxa, o gordinho engraçado, o estrangeiro perigoso, o branco como o símbolo do bom, o preto como símbolo do mal… reproduzimos, muitas vezes, sem nos darmos conta, os mesmos estereótipos. O problema não é usar o estereótipo, é escolher conscientemente quais estereótipos queremos usar e quais desejamos questionar ou subverter. Os vilões em geral têm um olhar frio, uma expressão dura ou uma falta de expressão ou de emoção, são vaidosos, se vestem bem, mas são demasiadamente preocupados com a própria aparência, e muito interessados em poder e riqueza. São manipuladores, desonestos, mas espertos. Em geral, ocupam alguma posição de podem em relação ao herói.As crianças respondem a esses vilões, mas será que existem outras formas de caracterizá-los? Os melhores vilões, pra mim, são aqueles que conhecem as fraquezas da heroína (ou do herói), aqueles que ameaçam não só fisicamente, mas psicologicamente também.

Mas a representação destas forças antagônicas não são só humanas e não necessariamente más em si mesmas. Podem ser outras ameaças a serem superadas: uma doença, um fenômeno da natureza, um momento difícil, por exemplo. Nestes casos, é interessante pensar quais são as oposições possíveis. E existem os personagens moralmente ambíguos, como o Lord Asriel de Northern Lights, e o Snape, de Harry Potter. Interessante…

Falar de personagem continua dando panos pra manga e volta e meia vou voltar a esse assunto.

Escrito por Monica Solon

maio 13, 2008 em 6:31 pm

Esse texto pode ser encontrado no endereço: http://palavrasnopapel.wordpress.com/2008/05/13/personagens-em-livros-infantis-%E2%80%93-herois-e-viloes/

5 pensamentos sobre “Personagens em livros infantis – Heróis e Vilões

  1. pois é…
    Heróis e Vilões.
    Olha, o programa Dramática PRO 4 é muito legal e, se vc se vira no inglês, ele ajuda MUITO na construção de muita coisa de sua história. (pra windows tem como baixar piratex)
    Uma coisa que aprendi com ele e gostei muito foi classificações como Protagonista, Personagem Principal, Contagonista, Antagonista, Personagem de Impacto, Personagem de Apoio (Razão, Emoção, etc).

    Você pode separar todos como pode dar mais de um “cargo” aos seus personagens.
    Mas é bom sempre ter em mente isso pq ajuda muito.

    Personagem Principal – através de cuja visão a história é contada.
    Protagonista – o “herói” (não precisa ser o principal)
    Contagonista e Antagonista – muitas vezes se misturam, mas um exemplo clássico é o de Star Wars. Darth Vader é o Contagonista, pois ele não é aquele a ser derrotado, mas é quem se coloca no caminho do Protagonista tentando impedí-lo de atingir seu Objetivo. O Antagonista, aquele a ser derrotado é o Império. Mais uma vez, os dois papéis podem ser acumulados, ou não.
    O personagem de IMPACTO é um dos mais importantes. Ele é quem criará um equilíbrio com o protagonista. Ele é quem trará o apoio principal ao herói e o ensinamento de como superar seus problemas. No final da história, OU o herói muda para vencer, OU o de Impacto muda, enquanto o herói ser reafirma continuando como era.

    Mais uma vez, Star Wars… Luke (Protagonista) e Obi Wan (Impacto). Quem trouxe o conhecimento? Quem teve de mudar ao final? Deu pra entender?
    A Léa seria o Apoio Emocional, enquanto o Han seria o Apoio Racional.
    Bem, existem muito mais tipos de APOIO, mas eu não lembro de todos. Só sei que pensar dessa forma ajuda bastante, mesmo que ao escrever você não faça um uso consciente de tudo isso.

    Somado a isso, acho que fica legal o Mito do Herói, que o George Lucas seguiu a risca na criação do Star Wars.

    Bj.

  2. Uma coisa que me chamou muito atenção, nesse Post, foi por você ter dito que vilões são mais interessantes quando conhecem as fraquezas do seus inimigos.

    E o único que vi isso, na questão de ser até o fim, foi o Conde de Monte Cristo. Ele era o antagonista e depois, se tornou um vilão imbatível. Ele sim, conhecia em mínimos detalhes dos seus inimigos…

    Bye.

    • Ok, em primeiro lugar: o texto não foi escrito por mim, eu apenas o achei interessante e postei aqui. A autora do texto se chama Monica Solon e a pagina dela na internet é : http://palavrasnopapel.wordpress.com. (Este é um aviso para todos os meus amados leitores, eu lhes peço humildemente: Por favor, sempre prestem atenção no autor do post pois ainda essa semana teve gente me acusando de plágio. Eu expliquei que não era plágio e blá blá blá. O pior é que meu acusador nem voltou pra pedir desculpas!!!).
      Voltando ao assunto dos vilões. Olha, vamos fazer um pouquinho de interpretação de texto: a autora não disse que o melhor vilão tem que conhecer as fraquezas do inimigo, ela jamais colocou isso como regra. O que ela fez foi dar uma opinião; a opinião dela. E não há o que contestar nisso. Cada um tem sua opinião e pronto. Monica Solon gosta de vilões que exploram as fraquezas não só físicas, mas também as fraquezas psicológicas dos protagonistas e ponto final.
      Todos os vilões têm que conhecer cada detalhe ou cada fraqueza do herói? A resposta é NÃO. Mas convenhamos, um vilão que tenha motivação e objetivos que não bata de frente com as motivações e objetivos do protagonista vale pra quê? O que esse cara tá fazendo nessa história? Um livro precisa ter tensão, conflitos, forças que se opõem, que se chocam. O escritor tem inúmeros recursos para criar isso na historia, um deles é aproveitar o vilão… E na verdade não se trata de “aproveitar o vilão”, o próprio conceito de vilão/antagonista já diz que ele é a força que se opõe ao protagonista. Resumindo, antes que eu transforme esse comentário em um livro: o antagonista não precisa conhecer as fraquezas do protagonista, mas você como escritor, para ter um antagonista de peso e coerente tem que criá-lo de forma que ele atue como essa força opositora.

  3. Pingback: Os números de 2010 « FENIX RESURRECTED'S BLOG

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