Especial Fantasia #3 – Criando mundos

Quando penso nesse tópico a primeira coisa que vem a minha mente é a Terra Média, o mundo criado por Tolkien para ambientar a sua historia. E acho que é exatamente isso que vem a mente de todos. Mas será que temos que passar anos criando e criando esse mundo para depois escrever a historia? (Ele levou 20 anos!) Será que tenho que criar tantos detalhes e/ou tantas lendas para que o mundo pareça real? Bem, vocês vão querer me matar, mas acho que não. O mundo de fantasia tem que ser consistente e tudo o mais, mas você não precisa passar o resto da sua vida construindo-o. O mundo fantastico precisa ser verossímel, sim. Não posso discordar disso. Mas o que quero que tenham em mente é que ele jamais vai ser um mundo real. Ele apenas parece real, mas na verdade não é. Como ouvi no meu podcast favorito Writing Excuses, o que temos que fazer é dar ao leitor a sensação de que o mundo tem uma história passada, temos que criar a ilusão de que essa historia passada existe e isso é bem diferente que de fato escrever  toda essa historia. Um método interessante foi dado no podcast para resolver esse problema. Veja o que será importante na sua historia, por exemplo, uma espada mágica que seu heroi carrega. Se essa espada é importante, se a trama gira em torno dela, então você certamente vai precisar de saber toda a historia da espada, suas origens e como que o poder que emana dela funciona. Já no caso de um pequeno vilarejo que o heroi se hospeda apenas por uma noite não é importante, então não há a necessidade de gastar paginas e mais paginas construindo a historia da origem do vilarejo e que no ano tal aconteceu isso ou aquilo ou que a ponte foi construida por fulano porque blá blá blá.

Olhando o site da wikipedia, que eu amo de paixão, descobri que existem duas formas de se lidar com a construção do seu mundo ficcional. Tem autores que preferem escrever do macro para o micro, ou seja, começam delineando os traços gerais do mundo como a geografia, clima e a historia mais global e aos poucos vão passando para detalhes cada vez menores como continentes, civilizações, nações, estados e cidades. Um mundo construido atraves desse metodo geralmente é muito bem integrado e os componentes individuais se encaixam bem.  Entretanto isso requer um trabalho considerável antes que esse ambiente possa ser usado em uma historia.

A outra estratégia é micro para  macro, ou seja, do pequeno para o grande. Aqui o escritor começa focando nas partes menores do mundo, com poucos elementos não muito consistentes mas necessarios para a historia. Aos poucos o escritor vai tecendo detalhes e adicionando fatos importantes sobre a geografia local, cultura, estrutura social, governo e politica. A maior parte dos locais importantes são descritos e suas interrelações determinadas. As areas ao redor podem ser descritas com menos detalhes, com a informação sendo mais geral. Depois, se o escritor precisar usar outras partes deste mundo então essas descrições podem ser aprofundadas. O beneficio dessa estratégia é que o escritor pode quase imediatamente utiliza-la na historia. Os detalhes pertinentes para a historia ou situação são rapidamente desenvolvidos e as informações podem ser usadas sem ter que esperar para que o restante do mundo seja detalhado. O ponto negativo dessa aproximação é que o mundo construido desta forma pode gerar inconsistencias em uma escala global.

Eu achei que essa segunda estratégia bate direitinho com o que ouvi no Writing Excuses e realmente acho que é uma forma mais produtiva de abordar a construção de mundos. Muitas vezes a  pessoa que começa a desenvolver um mundo fica tão empolgada com ele que acaba passando anos desenvolvendo a parada e nunca escreve a historia (o termo para esse comportamento em ingles é worldbuilding disease. Quem saca ingles pode achar muita coisa buscando por esse termo no Google). E isso não é interessante para nós que somos aspirantes a escritores. Temos que ter sempre em mente que  nosso objetivo é contar uma historia.  Nada pode entrar no caminho, nos impedir ou retardar esse objetivo. Lembrem-se disso.

Bjus da Barts

21 pensamentos sobre “Especial Fantasia #3 – Criando mundos

  1. HAHAHAHAHAHAHAH!
    Eu sofro dessa doença. BIG TIME!

    Estou há mais de 5 anos, acho que 8, construindo o mundo sobre o qual escrevo hoje.
    É muita coisa, muito detalhe… e ainda assim, acho sempre insatisfatório. Preciso de mais!

    Meu método não existe. Eu não tenho um método fixo. Esse mundo do qual falo nasceu de um sonho. Eu sempre uso sonhos como inspiração. E de um deles PUFF, veio a primeira idéia. Algo pequeno. Algo simples. Depois me perguntei… e esse esse SIMPLES fosse COMPLEXO? E se esse PEQUENO fosse GRANDE e, na verdade, algo tão grande que sem aquilo a vida não existia no planeta?
    Pronto. Criei um motivo pra vida no nosso planeta existir. Mas peraí! E quem criou isso, essa coisa grande? Puff… criei entidades… sua história… como surgiram… seus filhos… os humanos… seres fantásticos que vivem entre nós… e pronto.
    Resultado… é tão grande que hoje me sinto inferior e incapaz de escrever sobre ele. Mas não me acanho.
    Tb, no bolão, já foram pelo menos 3 línguas diferentes com 5 formas escritas e 7 dialetos…

    Isso sem falar noutras histórias. Às vezes um mundo fantástico não precisa ser TÃO fantástico.

    Tenho um em que vivem seres humanos e o que chamam de desumanos. Os desumanos vieram dos humanos há milhões de anos, mas por 1001 fatores, doenças, genética, etc, foram se diferenciando. Hoje existem milhares de espécies de desumanos e todos são tratados como os “animais” deste mundo. Aqui eu queria explorar esse lado desumano da humanidade em lidar com seres “semelhantes” de forma preconceituosa ou como inferiores.

    🙂
    tem limite de caracteres aqui?

    • Isso deve ser alguma forma de compulsão ou tara sua! kkkkkkk
      Pois é, estou a 6 anos tentando terminar A Vila. Mas na verdade meu problema não é por ficar criando um mundo muito extenso. Estou escrevendo as cenas, mas sei lá, acho que é falta de força de vontade, ou talvez seja porque estou me divertindo tanto escrevendo esse blog que fico entediada quando vou para a historia. Deve ser isso. É o enigma da Fênix!!!

      Bjus da Barts

      Ah, acho que aqui não tem limite de caracteres não, então pode mandar ver. Escreva um livro só nos comentários.

      • Barticulovsky, acho que se tá sem graça, para!
        Deixa fermentar um tempo na gaveta. Esquece que a vila existe.
        Eu sempre acho que devemos nos forçar se não desestiremos sempre
        frente a qq dificuldadezinha ou desânimo. Entende?!
        Mas se já está sofrendo…
        Se quiser me mandar pra eu dar uma olhada e te dar uma injeção de idéias, estamos aqui.

        \o/

  2. OI Fenix ^^ !! oia eu aqui denovo ^^ !!
    Achei ótimo esse seu artigo sobre ” criando mundos”. No entanto eu queria saber uma opinião sua e do seu leitores.
    No romance que estou escrevendo, quero colocar criaturas do nosso fouclore brasileiro que é muito pouco divilgado nos livros de fantasia. Porém eu não quero colocar esses personagens na sua “forma real” porque ficaria meio que infantil demais ( se é que você está me entendendo).
    Por exemplo: quero colocar o sací do meu romance, meno humano possivel. Tipo…orelhas pontudas, com 1 metro e 20 mais ou menos. Resumindo: Uma criatura mágica estranha, mas com suas qualidades principais como uma perna só, gorro vermelho e cachimbo.
    Oque você acha?

    • Olha, não sou grande conhecedora do folclore nacional, mas acho que é possível sim. Afinal, a história é sua e você dá o tom que quiser a ela. Como a figura do saci foi bem difundida por causa do personagem que Monteiro Lobato criou para O Sítio do Pica-Pau Amarelo a imagem que temos dele é mais água com açucar. Isso é porque esse personagem foi feito para um programa voltado ao público infantil, o que não significa que seja uma representação fiel do Saci do folclore. Busque a origem do Saci, de onde vem essa lenda e analise as outras características dele. O Saci não é só um neguinho de uma perna só, de gorro vermelho e que fuma cachimbo. O personagem não é só feito de aparências. Ele tem motivação, acão e tem um passado que afeta o presente. Vá até a fonte, procure as lendas. A imagem do Saci que a maioria de nós tem é a que Monteiro Lobato criou, busque a origem do Saci e então crie seu personagem com base nele.

      Bjus da Barts

      • Eu acho muito boa a idéia de se usar nosso foLclore.
        Eu estava falando disso duas semanas atrás com uma antiga orientadora minha.
        Quanto ao Saci não acho que o problema seja aparência, aliás, quanto a nada. Afinal, tem figura mais medonha que um PALHAÇO? E ele supostamente é infantil e brincalhão.
        O que faz de algo medonho, maligno ou não são suas ações, intenções.
        Outro exemplo é o filme do Gremlins que sempre tive em mente. Tire o tom cômico e o filme fica de terror sem precisar mexer neles.
        Um Saci é o que em inglês chamariam de Trickster. Uma entidade brincalhona, como o Loki, filho de Odin (acho). Eu vejo o Saci como um brincalhão, que não mede consequências e que não se importa com nada fora a própria diversão. O problema é só que retratando ele somente assim vc cairia em um personagem muito parecido com centenas de outros. Talvez pesquisando as motivações dele vc poderia der um direcionamento legal. E, sério. Não tem coisa mais aterrorizante que algo que não PARECE medonho, mas é. Já um Saci de orelhas pontudas e de 2m eu correria com medo só em ver. Não dá nem tempo de ele brincar e ser o Saci que conhecemos.

        E tenho dito! hahah

  3. hum, gostei destas dicas. Eu acho que a descrição do local é fundamental para localizar o leitor na história, pelo menos nas minhas as leitoras ficam bem envolvidas, na última que escrevi, várias delas queriam ir para onde estava se passando a história, genial isso.

  4. Valeu pessoal pela dica ;).
    E Fenix, eu vou fazer isso mesmo oque vc falou. Vou pesquizar sobre os personagens. E o bom de tudo isso é que sei que na biblioteca publica daqui tem um dicionário dedicado ao fouclore brasiléiro e nele falada da origem de todas as lendas.

    • Tá vendo, esse é um otimo começo! Eu lí alguma coisa por aqui e descobri que o Saci perdeu a perna em um jogo de capoeira e que ele não é só um traquina, ele tem poderes mágicos e é grande conhecedor das ervas da mata. Pesquise a fundo e dê um ar mais sobrio no seu Saci.
      Bjus da Barts

  5. hahahah!
    Mas eu já disse, o DRAMATICA não é usado pra ESCREVER como se fosse um processador de texto. Ele serve pra vc criar e estruturar sua história.
    As vezes vc até tem uma história, mas tem algo errado com ela. Aí vc vai no Dramatica e começa a encaixar a sua história no que o Dramatica tá pedindo e PUFF, uma luz divina te ilumina e coisas que não faziam sentido, passam a fazer (ou o que fazia, perde, hahaha).

    Divirta-se!

  6. Fenix !! Oque você pode me dizer sobre vilões de livros de fantasia?
    Eu estava pensando hoje, enquanto via um filme e tentei descobrir oque difere um vilão do outro. Porexemplo: A maioria do vilões de história de fantasia sempre tem aquela historia de ” governar o mundo e ser o mais poderoso “. Porque todos os vilões são assim?
    Enquanto eu me questionava, decidir pensar no vilão da minha história como uma pessoa que quer apenas lutar pelos ideais que ele acha correto e que não pratica o mal apenas porque gosta. Acho meio dificil de expressar oque quero dizer, mas e ai oque você me diz?
    Na sua opinião todos os vilões são iguais ou são apenas parecidos? Tem como um vilão ser totalmente diferente do outro?

    • Ei Willian, tudo bem?
      Não acho que todos os vilões queiram dominar o mundo. Não me lembro desse tema em “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley, muito menos em … sabe que acabei de descobrir que quase não lí nada de fantasia? Que mico! De qualquer forma, acho que não é para ser assim não. O vilão não deve ser vilão apenas porque gosta de praticar o mal. Ele é o vilão ou o antagonista porque ele se opõe ao objetivo do personagem principal. Na verdade o verdadeiro vilão deve pensar que ele é o herói da história. Ele deve ter motivos bem convincentes para fazer as maldades que faz. O vilão ao meu ver tem que ser um personagem tão bem construido quanto o personagem principal. O que você colocou ai no seu comentário sobre o seu vilão ser alguém que tem um ideal que ele acredita e luta e essa é a forma certa de construir o personagem. Acho que vilões não devem ser todos iguais. Tem sim como fazer o seu vilão ser diferente dos outros. Basta que você o trate como uma pessoa unica, com personalidade unica e história passada que é só dele. Da mesma forma que não existem pessoas idênticas por causa das inumeras variáveis que a atravessaram e a marcaram, assim também acontece com os personagens se forem bem construidos.
      Bjus da Barts.

  7. Muito interessante essa matéria.
    Na realidade, os portugueses fazem esse tipo nas descrições de livros do gênero fantasia. Eles fazem o possível de ter descrição, diferente dos autores de outros países. O interessante, quando terminei de escrever os 5 livros, vi que a descrição nos livros, é idêntico daquele povo, que tendem a escrever sem delongas.
    O mesmo para Vilões, pois o meu livro possui o maior acervo de Antagonista do mundo. Acho que ninguém bate de frente, pelo menos, nessa era. E ainda, sem aquele clichês de Vilões, sempre desejando uma coisa.

    Sempre quando assisto algum filme, fico na expectativa de ver o vilão com um propósito dos demais. Isso é raro de se ver. Inovar é fácil , mas só aqueles que se esforçam e suam para que isso torne em realidade.

    • Oi Vincent,

      Fico muito feliz por você ter gostado dos posts. Tá sabendo que vai ter um sorteio aqui no blog? E cada vez que comenta você aumenta suas chances de ganhar. O sorteio é no dia 10/07. Participe!!!

      Bjus da Barts

  8. Legal, Fenix. Irei ler as outras matérias sim…
    Espero que você possua mais matérias do que essa e sempre atualize.
    A propósito, você tem alguma posição de quando o seu livro será lançado?

    Bye.

  9. Nossa, eu ia ler todos os comentários e depois o texto, mas se faço isso me atraso para o trabalho. Então… melhor eu comentar com base naquilo que suponho ter no texto.

    Eu gosto de escrever. Tenho uma trilogia encaminhada. Mas essa trilogia é um romance “normal”. Não beira a fantasia em momento algum. E mesmo nela, eu busquei criar “um mundo” diferente do nosso. Sabe? Jornais próprios, comércios, bandas e tal…

    E eu também tenho uma trilogia fantástica. E é nessa que eu uso e abuso da minha capacidade de criação. Não que ela seja muita kkk. É um mundo a parte do nosso. Ele tem nome e vida própria. Bem, quer dizer… =X

    Nesse mundo, há toda a sorte de criatura mágica. Algumas, eu mesmo inventei. E outras ou são do nosso folclore personalizadas do meu jeito ou de outras culturas. O que eu mais gosto sobre a criação de mundos é que isso permite que a gente conheça realmente bem toda a história que vamos contar, mesmo que não interesse para quem leia como aquele mundo surgiu. Mas como autor ou autora é obrigação nossa saber mais do que quem lê.

    Nesse mundo, existe deuses ou entidades, como quiserem. E uma outra coisa que eu gosto de pensar quando crio é o motivo daquilo ter existo ou como aquilo passou a existir. Criei lendas sobre como surgiram seres que a gente “conhece”, o por que de eles viverem aquele tempo, como eles podem ser vencidos e várias outras coisas… nem sei se um dia sairá do papel. Mas é algo que eu me divirto quando escrevo.

    Meu mundo se conecta ao nosso por portais, por brechas que surgiram com o tempo entre os dois mundos devido a um grande acontecimento no mundo de lá. Por causa disso, se uma coisa não for feita, os dois mundos correm risco de “colidir”.

    • Muito legal você ter compartilhado o seu processo criativo conosco Tiago. Eu gosto também de criar mundos e concordo plenamente que nós autores temos obrigação de saber mais do que quem lê. Acho que o motivo do meu post foi alertar aquelas pessoas que controem e constroem e constroem, nunca chegando a contar a tal história que tinha em mente no início. Não há problema algum em construir bem o seu mundo, mas ficar nisso a vida toda? Geralmente quem escreve quer ser lido, mas se a pessoa nunca para de construir esse tal mundo, quando então que ela vai de fato escrever a historia? Construir o mundo é legal, mas ele só faz sentido dentro da historia que o escritor quer contar.
      Achei bem legal suas ideias, espero que todas saiam do papel. Já pensou em escrever contos? Estou nessa onda agora e já até enviei alguns para concursos de contos. Você sabe se tem algum concurso de contos aqui nos ES?
      Bjus da Barts

  10. Pingback: O mal do criador… | crgondim

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