Tipos de finais

Tipos de Finais
Escolhendo como terminar sua obra
Por Sandro Massarani em http://www.massarani.com.br

Um escritor deve dar igual importância aos três atos de sua história (início, meio e fim), mas não há como discordar de que muitas vezes um ótimo final consegue redimir uma narrativa medíocre e um final mal formulado pode acabar enfraquecendo uma ótima obra. Logo, para muitos, a última impressão é a que fica e um autor deve saber trabalhar bem com essa ideia. O final de uma obra deve representar o maior obstáculo enfrentado pelo personagem principal. É a sua maior batalha, seja ela interior ou exterior, e formará o clímax da obra.

Lembrando que um final deve ser sempre “satisfatório”, ou seja, o espectador/leitor deve, ao fim da narrativa, chegar a conclusão de que o final respeitou as características da obra, mesmo que esse final não tenha sido de total agrado para todos. Uma das maneiras de se conseguir um final satisfatório é basicamente responder às perguntas levantadas no início. Podemos superficialmente dizer que o Ato I, o início da obra, é o momento de levantar perguntas. Será que o personagem principal conseguirá determinado objetivo? Durante o Ato II, o meio, a história se desenrola, e no final, o Ato III, as perguntas do início devem ser respondidas. Veremos que há exceções a esse modelo, mas facilita muito pensarmos em uma obra como um diálogo intermediário (Ato II) entre perguntas (Ato I) e respostas (Ato III).

Após analisarmos inúmeras obras, em todos os campos da narrativa, podemos observar características comuns relacionadas aos finais desses trabalhos, e obter assim uma espécie de classificação. Por isso, meus estudos levaram a conclusão de que uma obra narrativa pode ter seis tipos de finais: Utópico, Positivo, Negativo, Balanceado, Inconclusivo e Surpreendente. Vamos analisar cada um desses tipos.

***ATENÇÃO: Utilizarei algumas obras como exemplos e seus finais serão descritos. Portanto, caso você não queira saber esses finais, basta não ler a parte dos exemplos que acompanha a explicação de cada tipo de final.


FINAL UTÓPICO


O Final Utópico é aquele onde tudo dá certo para o protagonista. Ele consegue seus principais objetivos, o vilão/oposição é derrotado e punido e os personagens secundários que apóiam o protagonista também terminam bem. É o famoso “viveram felizes para sempre”.

Alguns teóricos chamam esse tipo de final de Hollywoodiano, pois muitos filmes americanos tem a tendência de retratar esse tipo de história. Isso ficou claro principalmente durante a década de 30, altamente turbulenta por causa da grande crise capitalista de 1929. Acontece que a vida não é assim, e esse final acaba não correspondendo a realidade. Logo, o autor deve ter um pouco de cautela. A maioria dos desenhos animados da Disney tem finais utópicos, havendo raras exceções como O Rei Leão.

A ideia central por trás desse tipo de final no nosso mundo contemporâneo, é a de que o cidadão passa por tanta apurrinhação e estresse na vida diária que uma obra utópica serve para levantar o seu ânimo, e isso muitas vezes é verdade. Em alguns momentos queremos sim ver tudo dar certo para um personagem ficcional, mas dificilmente uma obra séria se sustenta com esse tipo de final.

Exemplos:

Uma Linda Mulher (Garry Marshall, 1990) – Uma prostituta conhece um milionário e ambos acabam se apaixonando, vencendo todos os impecílios. Típico de contos de fada.


FINAL POSITIVO


Quando o personagem principal consegue a maioria dos seus objetivos, principalmente o de vencer o principal obstáculo, mas sofre algumas perdas durante o caminho, temos o Final Positivo, mais próximo da realidade do que o Utópico. Raramente o personagem principal morre em um final positivo, mas isso pode acontecer, desde que a mensagem final seja a de um triunfo realizador.

Personagens secundários ligados positivamente ao protagonista geralmente são os escolhidos para serem “sacrificados” e provocar sofrimento. É importante notarmos que dificilmente um final é positivo se o objetivo principal do protagonista não for alcançado. A exceção seria o protagonista perceber que o seu desejo inicial não corresponde mais a sua vontade, e então ele acaba ficando mais satisfeito e realizado alterando seus objetivos no fim.

Exemplos:

O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien, 1955) – Na clássica trilogia de fantasia, o grande inimigo Sauron é derrotado pelos povos livres. Porém, incontáveis perdas significativas ocorrem na jornada, como a do guerreiro Boromir e o êxodo dos Elfos, que resolvem sair da Terra Média. No entanto, a mensagem final é clara o bem triunfa.

Rocky (John Avildsen, 1976) – Boxeador fracassado do subúrbio da Filadélfia tem a chance de disputar o título mundial de boxe. Reparem que o principal objetivo de Rocky não é vencer Apolo o doutrinador, mas sim aguentar os 15 rounds e conquistar a tímida Adrian, o que ele consegue. Se ele vencesse a luta aí sim o final seria utópico, muito forçado, e provavelmente o filme não ganharia o Oscar.


FINAL NEGATIVO


Bem, esse tipo de final é aquele que você mal consegue levantar da cadeira ao concluir a obra de tanta depressão. O personagem principal simplesmente não consegue seu objetivo e geralmente tem um destino trágico. O positivo contido na narrativa não é suficiente para equilibrar nossos sentimentos. Ao contrário do que possa parecer, Hollywood está cheia de finais negativos, incluindo inúmeros vencedores de Oscar.

Exemplos:

Amadeus (Milos Forman, 1984) – O grande gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart não consegue se estabelecer como um músico da corte austríaca, tem grandes dificuldades no casamento, fica doente, morre e é enterrado em uma vala comum. O pouco sucesso em vida e o monstruoso sucesso após a morte não compensam o sofrimento. Oscar de melhor filme.

Menina de Ouro (Clint Eastwood, 2004) – Boxeadora fica quadriplégica e seu técnico a ajuda em seu suicídio. Esse é bem pesado. Oscar de melhor filme.

The Amazing Spider-Man 121 – A Noite que Gwen Stacy Morreu (Gerry Conway, Gil Kane, John Romita, 1973) –  Para quem só conhece o Homem-Aranha dos filmes, saiba que sua vida nos quadrinhos é mil vezes pior. Nessa trágica história, Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker (o nosso herói), é atirada de uma ponte pelo mortal Duende Verde. O Homem-Aranha ainda lança sua teia para resgatar a amada mas ela acaba perdendo a vida. Até hoje persiste a dúvida se ela morreu do choque da queda ou quando a teia grudou nas suas costas provocando forte impacto. No primeiro filme, a Gwen Stacy é substituída por Mary Jane e a morte não acontece. Apesar do Duende ter morrido acidentalmente no duelo final, a perda é irreparável e, como muitas das histórias do Homem-Aranha, o fim é depressivo.


FINAL BALANCEADO


O Final Balanceado é difícil para o autor escrever, e na minha opinião é o tipo de final mais próximo da realidade. É um final onde o personagem principal consegue seu objetivo com grande perda, ou onde ele não consegue seu objetivo mas no fim temos uma sensação de esperança, um pequeno sorriso no canto da boca. Grandes obras foram feitas e agraciadas com este tipo de final. Às vezes tendemos a achar que um final é negativo só porque não houve uma vitória final, quando na verdade esse final foi equilibrado e/ou esperançoso. Os exemplos abaixo definem bem um final balanceado.

Exemplos:

Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991) – Sem dúvida um dos melhores filmes dos últimos vinte anos, narra a história de duas amigas que resolvem fazer uma pequena viagem para fugir do cotidiano. Os problemas graves começam quando em uma noitada no bar, uma  amiga mata um homem que tentava abusar sexualmente da outra. Elas se desesperam e fogem, iniciando uma corrida contra a polícia com o objetivo de chegar ao México. No fim, cercadas pela lei, resolvem jogar o carro do topo da montanha em direção a morte. De início podemos achar que se trata de um Final Negativo. Porém, ao longo do filme, as amigas realizam uma jornada de descobertas em relação ao sentido da vida, se envolvendo em aventuras e tendo excelentes momentos. A imagem final do filme não mostra o carro se chocando nas montanhas, mas sim congela a tela com o carro no meio do ar, como se a vida durasse para sempre. Nos créditos finais vemos uma montagem de fotos que mostra momentos de alegria das amigas. Foi uma jornada (quest) que acabou em morte, mas nos mostrou como a vida pode ser intensamente vivida, e que é melhor, pelo menos para alguns, morrer livre do que viver preso.

Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood, 2006) – Pela primeira vez um filme ocidental tenta mostrar a Segunda Guerra pela visão dos japoneses, retratando a famosa batalha na ilha de Iwo Jima contra os EUA no Oceano Pacífico. O filme é tenso, destacando o conflito entre a honra japonesa de morrer pelo seu império e o desejo de sobreviver a uma guerra insana e talvez inútil. Há suicídios coletivos, execuções e uma grande derrota dos japoneses. Porém, um dos personagens principais, um padeiro, sobrevive aos combates, e no final, sendo tratado por médicos americanos, observa o nascer do sol e realiza que voltará para a casa para rever seu esposa que estava grávida. É um final balanceado pois após toda a carnificina, termina com uma mensagem positiva.


FINAL INCONCLUSIVO


Os finais inconclusivos são aqueles onde o fim da obra não nos dá uma resposta definitiva sobre o destino do personagem principal, sendo um final praticamente “aberto”, ou seja, sujeito a inúmeras especulações. Funcionam melhor em filmes mais artísticos e de vanguarda, que não tem um caráter comercial. O Final Inconclusivo pode algumas vezes ser visto em capítulos de minisséries ou revistas em quadrinhos mensais, mas nesses casos ele acaba sendo concluído no próximo episódio ou revista.

Esse tipo de final sempre vai provocar polêmica, e para ser válido requer muita habilidade dos envolvidos na obra, principalmente do escritor e do diretor, no caso de um filme. A audiência está acostumada com finais fechados, que estabelecem um ponto final nas dúvidas levantadas na narrativa. Portanto, a obra, para ter um Final Inconclusivo, deve ser construída com atenção especial em certos detalhes, evitando o estabelecimento de objetivos pessoais muito fortes. Quanto mais a obra focar no objetivo de um personagem, mais a audiência desejará uma conclusão definitiva, ficando mais complicado para o Final Inconclusivo ter sucesso.

Exemplos:

2001: Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) – Talvez o melhor exemplo de final inconclusivo, 2001 narra uma expedição secreta de astronautas rumo a Júpiter para tentar desvendar a origem de misteriosos monolitos que aparentam ter milhões de anos. No fim, ao encontrar um desses monolitos, o astronauta Dave Bowman atravessa um túnel colorido, presenciando vários efeitos, e termina em um quarto com um estilo antigo de decoração. Dave vai se tornando mais velho dentro do quarto e depois é transformado em um gigantesco bebê que, em posição fetal viaja no espaço próximo a Terra. Cada um que tire suas próprias conclusões.

Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959) – Clássica obra prima do Cinema Novo francês, narra a história de um jovem adolescente chamado Antoine Doinel que luta contra o rígido sistema familiar e escolar, se tornando um ladrão e rebelde. Enviado para um campo de trabalho próximo ao mar, Doinel escapa e foge para perto do oceano. No fim, temos um zoom da câmera que congela sua face, concluindo de forma aberta a obra. Não sabemos o que Doinel pensa nesse momento nem quais são seus principais planos.


FINAL SURPREENDENTE


Sabe aquele final que você fica parado, meio com cara de quem não entendeu nada, pois tudo aconteceu muito rápido? E aquele final onde de repente surge um personagem que não havia aparecido anteriormente e participa decisivamente do destino protagonista? Esses são os chamados Finais Supreendentes. Na verdade, os Finais Surpreendentes seriam uma espécie de subtipo, pois um Final Supreendente pode ser utópico, positivo, negativo, balanceado ou inconclusivo. Um Final Surpreendente não existe sem a companhia de um outro tipo.

Esse tipo de final se relaciona com o termo da narrativa Deus Ex Machina (Deus surgido da máquina), originário do teatro grego, quando do nada surgia um Deus (geralmente um ator no alto sendo segurado por um mecanismo) para solucionar ou dar rumo a trama.

Muitas vezes um Final Surpreendente pode ocorrer na última cena da obra, sem dar chance para um epílogo, justamente para tentar ganhar o espectador/leitor com uma imagem final impactante. É um final muito arriscado para o escritor, pois a audiência pode se sentir enganada. Portanto, o escritor deve ter muito cuidado e respeitar as características da sua história. Será que ela se encaixa bem com um Final Surpreendente?

Exemplos:

Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006) – Narra os eventos relacionados a dois espiões, um da máfia infiltrado na polícia, e outro da polícia infiltrado na máfia. Após um bom desenrolar da trama, temos uma sequência de cenas finais rápidas, onde os personagens principais morrem sem qualquer tipo de drama. Isso pode até ser mais próximo da realidade, mas em uma narrativa é perigoso. Nesse caso, Scorsese agradou a academia, que lhe concedeu o Oscar de melhor diretor e Os Infiltrados ainda levou outras três estatuetas, incluindo melhor filme.

Estrada para a Perdição (Sam Mendes, 2002) – Michael Sullivan Jr. está curioso para saber sobre o trabalho do pai e acaba descobrindo que o mesmo é um soldado da máfia ao presenciá-lo cometer um crime junto com comparsas. O menino promete silêncio, mas a máfia executa sua mãe e irmão querendo eliminar qualquer testemunha. Agora, ele e o pai precisam escapar e ainda buscar vingança. A máfia chega a contratar um assassino psicopata para matar ambos, que fracassa em uma tentativa de assassinato em um hotel. Porém, no fim do filme, esse assassino retorna, de maneira meio que inesperada, matando o pai mas morrendo no processo. O problema aqui é que o assassino não é o principal inimigo. Ele não é o principal obstáculo, portanto não teria que ter esse papel no final. Houve uma completa quebra de clímax no que era um bom filme até então.


CONCLUSÃO


Logicamente que essa classificação que eu fiz não pode ser tratada como definitiva. Ela deve ser apenas um guia. Um exercício interessante seria tentar identificar os tipos de finais das obras que você assistir ou ler, e pensar em outros finais alternativos, seguindo a classificação. Esse é um bom exercício que vai aumentar o seu conhecimento.

Porém, qual é o melhor tipo de final? Bem, isso vai depender do contexto e do tom da obra. É praticamente impossível um final que agrade a todos, mas o que devemos ter no fim é aquela sensação de que o final escrito é crível, possível e respeita a obra e a audiência em si. Nenhum escritor tem a obrigação de escrever um final pensando em agradar o maior número de pessoas, e na verdade isso seria trair sua própria criatividade. Finais que chocam só para conseguir alguma polêmica e finais “diferentes” colocados só para provocar discussões não são boas saídas. O escritor tem é que ser honesto e o final tem que ser condizente com a narrativa mostrada.

Bons estudos!


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