Estruture suas cenas – Exercício: Objetivo, conflito e Desastre


Vocês devem estar acompanhando a série que estou traduzindo sobre como estruturar as cenas de uma história.  Quem chegou agora pode dar uma lida rápida na parte um http://buff.ly/1FZmo2U e na parte dois http://buff.ly/1wT0y99  dessa série antes de prosseguir.

Bem, queria saber se estou entendendo direito as instruções da autora. Ela usou como referência uma cena de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Não sei se tiveram tempo para dar uma olhada nessa cena, mas é que pra mim ainda não estava suficiente.  É que a autora já havia dado as dicas então foi fácil identificar os pontos na cena. Queria ver se conseguia fazer essa identificação sozinha e em qualquer livro que pegasse, queria saber se realmente é algo que os autores usam.  Pois bem, estou lendo uma trilogia já pela terceira vez, chamada “Nascidos da bruma: o império final” de Brandon Sanderson. É um livro maravilhoso de fantasia com um sistema de magia único que foge bastante daquela coisa batida a lá Tolkien, com elfos e anões e magos. E não tem dragões também (não se enganem, eu a-do-ro os livros do Tolkien, mas covenhamos que tem cópias demais do estilo dele zanzando por aí. De vez em quando é bom ser criativo!) Anyway, o livro é muuuuuuito bom mesmo.  Ai peguei o livro e abri logo no inicio e fui analisar as primeiras cenas, dessa vez com olhos de escritora e não de leitora como usualmente faço.  Queria identificar o objetivo,  o conflito e o desastre da cena. Esse é um excelente exercício que todos deviam fazer pra fixar o aprendizado.  A gente aprende com a repetição.  Então tá,  comecei a ler cuidadosamente e fui percebendo que tinha alguma dificuldade. Passei para a segunda cena, foi bem mais fácil.  Aqui percebemos que kelsier (esse é o protagonista) quer causar uma rebelião, o autor se utiliza de dois outros personagens para dizer isso, além da fala do próprio Kelsier onde ele admite ser apenas um encrenqueiro. Então o objetivo dele está bem claro. O conflito aparece na conversa com Mennis onde ele questiona o motivo dos skaa não reagirem à toda maldade que são submetidos e Mennis diz que é preferível esse tipo de vida do que a morte.  Ou seja, os skaa não vão se rebelar. Ai entra o desastre.  Gritos são ouvidos na noite e Kelsier descobre que são de uma jovem skaa que está sendo levada para o senhor da plantação e que ela não vai sobreviver porque ele mata todas as jovens skaa depois de ter relações com elas. Kelsier sai da choupana e mergulha nas brumas.

Muito bom isso! Consegui encontrar todos os pontos direitinho.  Voltemos a cena um. Me deu um lampejo agora! Na cena um temos que analisá-la do ponto de vista de quem tem o P.O.V, ou seja, Lorde Tresting e não o de Kelsier como havia tentado antes. Essa é a desvantagem de ter lido o  livro tantas vezes. Como já conheço a história acabo me adiantando.  O certo é ficar estritamente com os dados que a cena está me fornecendo (difícil quando já se sabe o que vai acontecer!). Como essa primeira cena é a que apresenta o personagem Kelsier, fiquei com ele na mente e não me toquei que a cena é narrada do ponto de vista de um outro personagem. Quando me ajustei a isso as coisas ficaram mais fáceis. Pois bem. Lorde Tresting deseja fechar um contrato com outra casa nobre chamada Venture. Esse é seu objetivo. Isso está muito claro também.  Aparece com todas as letras na voz do Obrigador. O conflito foi mais complicado de reconhecer.  É que ele aparece somente como um pensamento de Tresting.  Ele fica pensando como agradar Venture,  se conseguiria uma colheita extra, mas se depara com o problema da morosidade dos skaa. Ele imagina se apertando-os um pouco mais não conseguiria a tal desejada colheita  extra quando entra em cena o desastre: um skaa o encara com fogo no olhar, desafiando-o.

Legal. Tá ai o exercício feito.  Quem puder compre o livro e leia pois é bom demais. Se quiser ajudar a manter o blog compre através desse link (para os leitores que estão no exterior) e nesse link para os leitores no Brasil.

Estruturando as cenas de sua história, Pt2


Olá pesoal. Demorei um pouco a postar pois tive algumas dificuldades na tradução. Esta é a segunda parte da série sobre como estruturar as cenas do seu livro e foi traduzido livremente por mim. Se tiverem qualquer dúvida podem verificar o texto original em inglês no link ao final da página. Divirtam-se.
(Não deixe de ler a primeira parte dessa série em https://fenixresurrected.wordpress.com/2015/02/06/aprenda-a-estruturar-suas-cenas/)

Estruturando as cenas de sua história, Pt2:

As três partes da Cena

Como a própria história, cada Cena segue uma estrutura específica. No fundo, o arco da Cena é o mesmo da estrutura maior da história exibido ao longo do curso do livro:

1.Inicio = Gancho

2.Meio = Desenvolvimento

3.Fim = Clímax

Quando olhamos para o arco dessa forma, ele nos dá uma espécie de sentido fundamental/básico. Mas não nos oferece nenhum conselho específico em como criar esses elementos dentro da Cena. Então vamos esmiúçar isso mais ainda.Tanto a cena quanto a sequência seguem um arco fundamental de três partes, mas os elementos são significativamente diferentes em cada uma das partes. Hoje vamos dar uma olhada nos três elementos fundamentais da cena. Conforme prosseguimos com a série, olharemos algumas variações dessas três partes do arco, mas, em termos gerais, suas cenas terão que conter o seguinte:

Parte Nº 1:Objetivo

É onde tudo começa. O que seu personagem quer em larga escala é o que guia toda a história. O que ele quer em pequena escala guia sua cena. Se ele não quer nada, então sua história não tem ímpeto.

Sem objetivo = sem história

O que seu personagem quer em qualquer cena será um reflexo minúsculo do objetivo geral na história e/ou um passo na direção de alcançar tal objetivo. Por exemplo, se o objetivo geral do personagem é escapar de um campo de prisioneiros, o objetivo da cena pode ser encontrar uma pá, subornar um guarda para que deixe seu posto ou convencer um colega de juntar se a ele. Quando souber o objetivo do personagem em uma certa cena, você saberá o objetivo da cena.

Sem objetivo = sem propósito

Estabeleça o objetivo do personagem o mais cedo possível na cena.Leitores precisam compreender o que está em jogo.O que o personagem está tentando realizar. Porquê ele está tentando realizar isso? O que acontecerá se ele falhar?

Parte Nº 2:Conflito

Uma vez que seu objetivo esteja no lugar sua próxima responsabilidade será criar um obstáculo que impedirá o personagem de alcançar facilmente o resultado que almeja. “Sem conflito, sem história” pode ser dito mais precisamente como “sem conflito, sem cena“. Conflito é o que impede o personagem de alcançar seu objetivo – e por conseguinte o que impede a história de acabar muito rapidamente. Conflito é o que compõe a seção do meio/desenvolvimento do arco de cena. O grosso de sua cena irá provavelmente ser tomada pelo conflito. Em nosso exemplo do campo de prisioneiros, o conflito geral da história pode ser ser mais esperto e escapar do oficial cruel que comanda o campo. Mas com relação à cena, este conflito se manifesta de formas como ser pego roubando uma pá, ser chantageado pelo guarda que foi subornado ou discutir com o colega que está inseguro sobre a fuga. Seja qual for o conflito da cena, ele deve surgir naturalmente como um obstáculo para o objetivo. Uma briga aleatória com o valentão do campo pode oferecer conflito mas se não põe em perigo a habilidade do protagonista de alcançar seu objetivo então não é o tipo de conflito que você está buscando. Conflito vem de diversas formas – qualquer coisa desde uma briga com facas até um colapso por conta de um cartão de crédito perdido. Não tem que ocorrer entre duas pessoas. Não tem nem que ser uma briga ou discussão no sentido tradicional das coisas. Tudo que importa é se atrapalha o objetivo da cena de ser alcançado.

Parte Nº 3: Desastre (desfecho)

Enfim, o conflito tem a obrigação de ser resolvido decididamente – e provavelmente sem beneficiar o protagonista. O desfecho da cena é o acúmulo para a próxima Cena. Se tudo estiver muito bem amarrado não haverá nenhum próximo passo lógico e a história acabará. Alguns autores não gostam do rótulo “desastre” para o desfecho da cena pois parece indicar que algo terrível tem que acontecer ao final de cada cena. Se você está escrevendo um thriller, então está tudo bem, mas se sua história for um romance ou uma saga literária quieta? Dificilmente poderá ter gente tomando tiros ou batendo seus carros ao final de cada cena. Isso é bem verdade. É também verdade que é quase impossível terminar cada cena com um desastre total. As vezes para a história andar o conflito simplesmente tem que ser resolvido favorecendo o protagonista. (falaremos mais sobre isso no post “Variações da Cena”)

Mesmo com tudo isso em mente ainda prefiro a ênfase no desastre, se por nenhuma outra razão além de ser um lembrete contínuo de que muito está em jogo e o protagonista está desequilibrado. Como tal, desastres podem vir de várias maneiras. Tiroteios e batidas de carro estão no lado extremo da balança. Do lado mais manso encontramos desfechos que não são favoráveis como: ser feito de otário ao fazer uma má aposta, um pneu furado ao se dirigir a uma entrevista importante ou mesmo deixar aquela caixa de bombons derreter a ponto de virar uma bagunça pegajosa. O desastre também deve desenvolver-se naturalmente a partir do conflito que o criou. Se seu herói toma um fora de sua namorada como resultado de uma briga, isso é um desastre natural. Se ele discute com ela e depois é preso por estar andando imprudentemente na rua (“jaywalking” –  isso é crime em países como Estados Unidos), este provavelmente não será um desfecho muito coerente. Ou você precisa mudar o desastre para se ajustar ao objetivo e ao conflito, ou mudar o objetivo e o conflito para que eles corretamente estabeleçam a prisão como desastre. Nossas cenas no campo de prisioneiros podem acabar desastrosamente com o ladrão de pás não achando uma pá, o guarda subornado ameaçando jogar nosso herói na solitária ou nosso colega assustado lançando acusações de imprudência interesseira. O propósito em cada desastre é que o herói se acha em apuros – o que nos levará direto para a sequência.

A Cena acontecendo

Como exemplo desses três elementos da cena, considere o terceiro capítulo de Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo: Dançar no baile e chamar atenção dos recém chegados de Londres.

Conflito: Há mais mulheres do que homens, então não há parceiros suficientes para todas.

Desastre: Darcy rejeita Elizabeth como parceira.

Então tá ai! Uma cena completa do início ao fim. Uma vez que compreenda a mecânica do mais importante componente de toda história, poderá intencionalmente construir cenas fortes que não teráo só peso próprio mas que irão dar suporte a história e criarão uma trama que flui logicamente e poderosamente do inicio ao fim.

*Nesta série Cena com C maiúsculo se refere a cena em geral (que pode incluir em sua definição a sequência). Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequência para me referir aos dois tipos de Cena.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-2.html

Achei um link com o livro da Jane Austen pra quem quiser checar:  http://www.miniweb.com.br/Literatura/Artigos/livros/Jane_Austen_Orgulho_Preconceito.pdf

Aprenda a estruturar suas cenas


Aqui está o primeiro artigo na série Aprenda estruturar suas cenas. Mais uma vez o artigo foi retirado do site “Helping writers become authors”. Esse site é uma verdadeira mina de ouro e quem souber o inglês não deve deixar de passar por lá. Estou conseguindo esclarecer muita coisa na minha cabeça agora que vejo como uma cena de fato funciona. Aprender a mecânica da coisa certamente está me ajudando, afinal escrever não depende somente de inspiração. Aprender a manejar certas técnicas são imprescindíveis para desenvolver a nossa escrita. Aí vai o texto, divirtam-se!

Estruturando as cenas de sua história, parte 1:

Dominando os dois tipos de cena

Pergunta tipo pegadinha para vocês: Qual a parte mais negligenciada no quebra-cabeças que é a sua história? Okay, então não é realmente uma pegadinha. É uma questão legítima com uma resposta legítima e um tanto assustadora. E a resposta é: a cena. Sim, você ouviu direito. A cena – aquela parte de qualquer história que é mais integral, mais óbvia e mais universal – é também a mais negligenciada e menos compreendida quando falamos da arte de contar histórias. Como se explica a cena? Cada um tem uma resposta diferente.

  1. A cena é a unidade de ação. (Okay, isso é ótimo, mas no que consiste a unidade?)
  2. Uma cena é uma unidade de ação que acontece em um ambiente. (Bem, geralmente isso é verdade, mas há exceções claras.
  3. Uma cena é uma unidade de ação que caracteriza-se por um elenco específico de personagens. Quando esse elenco muda (ex: um personagem entra ou deixa a cena), a cena acaba. (Nem de perto.

É claro, algumas cenas começam e terminam com a entrada de personagens, mas outras continuam com uma porta rotatória/giratória de personagens coadjuvantes que entram e saem.

Antes de seguirmos adiante, gostaria que tirasse um momento e considerasse sua definição de cena. E aposto que quantificá-la é mais dificil do que você pode imaginar, não é?

Os dois tipos de cena

Estruturando seu romance: Chaves essenciais para escrever uma história espetacular.

O problema com a maior parte das definições de cena é que elas são, vamos colocar assim, vagas.

E por serem vagas não são de muita ajuda para autores que desejam entender essa parte fundamental da história. No curso dos próximos doze Domingos gostaria de compartilhar com vocês uma série sobre o âmago da questão no que se refere à cena. Vamos explorar alguns fatos concretos. Vamos aprender a estrutura básica das cenas, variações dessa estrutura e como usar nossa compreeensão sobre esse assunto para comprimir uma sobre a outra até termos uma história que é sólida como uma rocha do início ao fim. Para começar deixe-me ressaltar que estaremos focando em dois tipos diferentes de cenas: cena (ação) e sequência (reação). Na minha opinião estes títulos são absolutamente ridículos e que não ajudam em nada os equívocos em volta da questão. Entretanto, uma vez que estes são os termos normalmente usados para os componentes da história que estaremos falando, decidi mantê-los. Para os objetivos desta série, “Cena” com um “C” maiúsculo se referirá a cena em geral (o qual pode incluir em sua definição a sequência). Usarei um “c” minúsculo e itálicos para cena e sequência quando me referir aos dois tipos de Cenas. Na medida que a série progride, quebrarei as cenas e sequências em pedaços menores para podermos analisar o que as faz funcionar. Mas por enquanto, vamos dar uma olhada no todo.

Infográfico: A progressão emocional da cena e da sequência (Do livro “Structuring Your Novel Workbook”)

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O que é uma cena?

Lembre-se do que falamos semana passada sobre conflito e tensão? A cena é onde achamos o conflito. Esta é a parte da ação na dupla ação/reação. Grandes coisas acontecem nas cenas. Pontos da trama mudam o curso da história. Personagens agem de formas que afetam tudo o que acontece depois. Estas são as cenas que vão se sobressair em suas histórias.

O que é uma sequência?

A sequência é um fator em sua história muito mais quieto mas tão importante quanto a cena. Dentro da sequência achamos os personagens reagindo. Geralmente não há muito conflito direto, mas há abundância de tensão. Estas são as Cenas em que tanto personagens como leitores são permitidos recuperar o fôlego depois dos eventos desenfreados e fascinantes das Cenas anteriores. Reações serão processadas e decisões serão tomadas de modo que os personagens possam pular de volta na próxima cena.

Enquanto mergulhamos mais profundamente no mundo excitante da Cena, falaremos sobre como estruturar o arco de cada Cena, como ligar todas as cenas e sequências de forma que elas se comportem como pequenos dominós, como utilizar esse conhecimento para detectar problemas na trama, e iremos fundo brevemente no nivel micorscópico do parágrafo e estrutura de frases dentro da Cena.

Será divertido, então fique de olho!

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-1.html