Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções


Nas últimas semanas estamos traduzindo um a série de K.M. Weiland sobre as partes que constituem as cenas da sua história. Para mim os textos dessa autora foram um divisor de águas. Nunca sequer imaginei os mecanismos que faziam as cenas funcionarem, agora vendo todas as partes desmontadas dessa forma, ficou muito mais fácil de dar continuidade ao trabalho que tenho lutado tanto para desenvolver nos ultimos anos. Não sei se vocês se deram conta ainda, mas escrever um livro é um verdadeiro mistério que pouquissimas pessoas compartilham. Quem sabe fazer guarda o segredo à sete chaves com medo de que com a informação à disposição surjam muitos concorrentes no mercado e eles – os que sabem fazer –  acabem sofrendo alguma espécie de prejuízo. Graças a Deus, na boa e velha America as coisas são bem diferentes e há abundância de gente de boa vontade compartilhando esse conhecimento que trago até vocês. Infelizmente nem todos brasileiros conseguem ler em inglês e daí a “raison d’être” deste blog. Percebo que nessa arte pelo menos 50% corresponde à talento mas os outros 50% são pura técnica e essa parte pode ser aprendida (e olha que estou sendo muito conservadora nessa porcentagem, há quem diga que 10% é talento e 90% técnica!). Assim espero então que curtam essas traduções que faço livremente e tentem por em prática esse conhecimento no WIP – work in progress – de vocês. Quem perdeu as outras partes é só clicar nos links a seguir e pôr a leitura em dia. Parte 1, parte 2, parte 3.

Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções

Uma vez estabelecido o objetivo de cena do seu personagem, a diversão começa de verdade! Conflito é o que faz uma história. Sem ele o personagem alcançaria seu objetivo final em minutos, todas as pontas soltas seriam amarradas instantaneamente num lindo laço vermelho e a história terminaria com um belo “e eles foram felizes para sempre”. Isso pode ser bom para seus personagens, mas irá matar os leitores.

Lá vai seu personagem, alegremente saltitante na direção de seu objetivo – que é contribuir para a caridade anual de Natal – quando POW! bandidos invadem a pista, bloqueiam o acesso ao objetivo e exigem que o personagem dê a eles todo seu dinheiro. Ta-daaaa! Instantaneamente sua cena fica mais interessante. Os leitores estão ofegantes para saber se seu personagem irá escapar dos bandidos e entregar o dinheiro da doação de caridade aos órfãos pobrezinhos. Conflito mantém sua história andando para frente. Nós dizemos “sem conflito, sem história” porque sem conflito a história acaba. Quando o objetivo inicial do personagem é bloqueado pelo conflito, ele o faz reagir com um novo objetivo, que é bloqueado por um novo conflito, que o faz mudar de objetivo – e assim por diante, até que finalmente ele alcançe o objetivo e a história acabe.  Surpreendentemente, autores as vezes experimentam dificuldades em injetar conflito suficiente em suas histórias. Seus personagens passam timidamente pela vida se dando bem com todos e fazendo nada de grande importância. Ou, se eles tem alguma briga com alguém ou alcançam algo importante, as ramificações são resolvidas tão rapidamente e discretamente que elas acabam nem sendo cruciais nem divertidas. Não tenha medo de dificultar as coisas para seus personagens. Sem conflito – e o sofrimento associado à ele – personagens não tem razão para existir. Analise suas cenas para ter certeza que cada uma põe obstáculos entre seu personagem e o objetivo dele.

Alternativas para conflitos

Como os objetivos de cena, o conflito da cena oferece possibilidades ilimitadas. Conflitos podem aparecer numa variedade de sabores, mas na maioria das vezes podem ser divididos nas seguintes categorias:

1.Oposição direta (outro personagem, clima, etc que interfere e impede o protagonista de alcançar seu objetivo).

2.Oposição interna (o personagem aprende algo que modifica suas ideias sobre seu objetivo).

3.Dificuldades circunstanciais ( não tem farinha para fazer o bolo, não tem parceiro para dançar, etc).

4.Conflito ativo (discussão, luta, etc)

5.Conflito passivo (ser ignorado, ser deixado sem informações, ser evitado, etc).

Essas generalidades podem incluir(mas não estão limitadas à elas):

1.Altercação Física.

2.Altercação verbal.

3.Obstáculo físico (clima, obstáculo na estrada, dano pessoal, etc).

4.Obstáculo mental (medo, amnésia, etc).

5.Falta física (sem farinha pra fazer o bolo).

6.Falta mental (sem informação).

7.Agressão passiva (intencional ou não).

8.Interferência indireta (oposição à distancia ou oposição não-intencional por outro personagem).

Seu conflito é integral?

Como se não tivéssemos o suficiente para nos manter ocupados só em imaginar uma boa altercação, nós também temos que limitar nosso conflito para aquilo que é integral a cada cena específica. Nas palavras de Dwight V. Swain: “conflito só por conflito” não é bom o suficiente. Se o personagem bondoso de nossa ilustração anterior perde o dinheiro da doação para os bandidos, provavelmente esse é um bom conflito. Ele diretamente interfere com seu objetivo de dar o dinheiro aos órfãos. Mas se os bandidos nunca mais aparecerem na história – se eles apareceram somente para roubar aquele dinheiro – eles não irão representar um conflito integral.

Muito pior é quando o conflito não tem nada a ver com o objetivo. Se Allie está descendo a rua, com o objetivo de ir ao salão de beleza antes de sua estréia na Broadway, uma discussão aleatória sobre o valor e importância da parada do Dia de Ação de Graças da Macy’s simplesmente não vai funcionar. Ao invés disso, temos que assegurar que o conflito de cada cena é um resultado direto de um acontecimento anterior (talvez nosso protagonista deixou o líder dos bandidos furioso jogando uma bola de neve em sua cara) e um obstáculo direto entre o protagonista e seu objetivo (talvez a parada da Macy’s está impedindo Allie de chegar no salão de beleza).

Perguntas a fazer sobre o conflito da sua cena

Uma vez identificado o conflito da cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.A oposição ao objetivo do personagem é importante para ele?(Se não, então só para começar, ele não deseja o objetivo o suficiente)

2.O conflito evolui naturalmente do objetivo?

3.A motivação da oposição faz sentido dentro do todo da história?

4.O conflito leva a um resultado lógico (resolução ou desastre)?

5.O conflito diretamente interfere com o objetivo do protagonista ou o ameaça?

Conflitos de cenas acontecendo

Como conflitos eficazes se manifestam em histórias de sucesso? Vamos dar mais uma olhada em nossos livros e filmes escolhidos:

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

No primeiro capítulo, o objetivo da Sra Bennet é conseguir que seu marido convide o Sr. Bingley para que suas filhas mais tarde possam ser apresentadas para esse jovem partidão. Seu objetivo é atrapalhado pela resistência passiva do Sr. Bennet à sua importunação. O conflito toma a forma de uma altercação verbal. Mesmo não sendo uma discussão outrightdireta e certamente não violenta ou mesmo agressiva, ainda oferece conflito simplesmente porque os dois personagens estão obviamente em desacordo. Se o Sr. Bennet fosse ceder imediatamente aos desejos da Sra. Bennet (Ah, certamente, amorzinho, ficaria mais que feliz em visitar o Sr. Bingley já que você gosta tanto dele), a cena acabaria instantaneamente (induzindo-nos a bocejar de tédio).

It’s a Wonderful Life dirigido por Frank Capra:

O conflito da cena de abertura vem na forma da incopetência do anjo Clarence. O objetivo de Joseph, o anjo superior, é enviar Clarence à Terra para salvar George Bailey. Mas Clarence não só está atrasado e preocupado com sua inaptidão, ele também é incapaz de ver a narrativa de Joseph sobre o passado de George. Isto é um conflito menor (e um que é transposto pelo menos parcialmente, com facilidade uma vez que tudo o que Joseph tem que fazer é ajudar Clarence a ver o passado), mas serve não só para apimentar a cena como também demonstrar facetas chave do caráter de Clarence.

Ender’s Game de Orson Scott Card:

No primeiro capítulo o objetivo de Ender é muito simples: ele só quer entrar no ônibus escolar e ir para casa. Mas o conflito se levanta imediatamente na forma de Stilson e outros brigões que tentam impedir o progresso de Ender. O conflito surge naturalmente dos personagens e da trama, uma vez que os brigões estão insultando Ender por causa da perda de seu monitor (ou tutor). Mas ele vai muito além do conflito só pelo conflito. Essa primeira altercação não só habilmente demostra qualidades importantes do protagonista, ela também leva a um desastre que irá aparecer prominentemente através do livro –  e finalmente prenunciar o clímax.

Master and Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir

O conflito aparece na primeira cena quando o aspirante de marinha Sr. Hollom se debate em dúvida sobre ter avistado o navio inimigo Acheron. A cena de abertura é inicialmente confinada ao conflito interno de Hollom, o que é ilustrado por uma troca de palavras concisas entre ele e outro aspirante de marinha. O conflito dramatiza belamente facetas importantes da vida no navio, prepara o conflito de Surprise vs. Acheron e prenuncia o arco do personagem Hollom. Conflito é sem duvidas uma das partes mais fáceis e prazerosas de escrever em qualquer história.

Depois de você preparar direito o conflito dentro de cada cena, sua história irá fluir, quase sem muito esforço.

Retirado do site: http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/structuring-your-storys-scenes-pt-4/

Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3


Mais uma da série de K.M. Weiland sobre como estruturar suas cenas. Se você não faz ideia do que estou falando leia a parte 1 e a parte 2 dessa fantástica série antes de prosseguir.

Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3: Objetivos em uma Cena – opções

A história como um todo e cada cena dentro dela inicia-se com um objetivo. Seu personagem deseja alguma coisa – algo que ele terá dificuldades em alcançar. O que ele quer molda o enredo tanto no nível macro e micro. O que ele quer o define como pessoa, e , por extensão, o tema do livro como um todo. Os objetivos possíveis para as cenas são infinitos – e muito específicos para sua história. Seu personagem pode querer qualquer coisa em qualquer cena, mas dentro daquele universo de opções você precisa diminuir os desejos expressados dentro da cena para aqueles que irão orientar a trama. Desejar comprar cravos rosados para o Dia das Mães é um objetivo digno, mas se a mãe do personagem tem um papel inexistente na sua história de guerrra nuclear, isso não vai fazer parte da sua história – e certamente não funcionará como objetivo de sua cena. Os objetivos da Cena são os dominós que estou sempre me referindo. Cada objetivo é um passo adiante em sua história. Um objetivo leva a um resultado que induz a um novo objetivo e assim por diante. Bing-bing-bing – eles caem um sobre o outro, um dominó depois de outro. Se não – se um objetivo está fora do lugar no geral da história – a linha de dominós irá parar e a história vai vacilar, talvez fatalmente.

Objetivo da trama vs. Objetivo da Cena

A trama geral de seu personagem será um dilema que levará toda a história para ser resolvido. Ele pode querer ser Presidente, ele pode querer resgatar sua filha que fora sequestrada, ele pode querer casar com a vizinha ou ele pode querer alcançar cura emocional e um novo começo após a morte de seu pai. Se quebrarmos o objetivo global da história em pedaços pequenos, descobrimos que ele na verdade é feito de objetivos menores em sequência. Seu personagem pode não começar já sabendo que ele quer um novo começo ou que quer casar com a vizinha (embora isso deva ser imediatemente evidente ao leitor ao menos por dedução se não por outro motivo). Mas na primeirissima cena ele vai saber que deseja algo. Talvez ele saiba que quer que o cachorro da vizinha pare de comer suas petúnias. Então ele sabe que precisa encontrá-la e convence-la a mante-lo na corrente. Então ele percebe que ela é irritantemente bonita. Então ele percebe que quer sair com ela. Então ele sabe que tem que superar a péssima primeira impressão que deu a ela. Então ele sabe que deveria comprar flores para ela. E etc, etc, etc. antes que você perceba, todos esses pequenos objetivos de cena irão te levar até o objetivo global da história. O fator mais importante a se manter em mente enquanto identifica cada objetivo de cena é sua pertinência à trama. Subenredos podem dar oportunidades a objetivos que não estão diretamente relacionados ao seu objetivo principal de casar com a vizinha, mas eles também devem finalmente se amarrar na trama geral de uma forma ressonantemente impactante ou temática.  Se a realização  ou não realização de qualquer objetivo de cena não afeta o resultado final da historia é porque ele não é suficientemente pertinente.

Objetivos de Cenas: opções

Objetivos de cena se manifestarão de formas descontroladamente diferentes. Seu personagem pode querer queimar um pacote de cartas, tirar um cochilo, se esconder no armário ou afundar um barco. Mas a maioria dos objetivos das cenas podem ser resumidos em uma das categorias seguintes. Seu personagem irá querer:

1.Algo concreto (um objeto, uma pessoa, etc)

2.Algo incorpóreo (admiração, informação, etc)

3.Escapar de algo físico (encarceramento, dor, etc)

4.Escapar de algo mental (preocupação, suspeita, medo, etc)

5.Escapar de algo emocional (luto, depressão, etc)

Seus métodos de alcançar essas coisas irão frequentemente se manifestar em uma das seguintes formas (embora esta lista não seja definitiva):

1.Buscar informação.

2.Esconder informação.

3.Se esconder.

4.Esconder outra pessoa.

5.Confrontar ou atacar outra pessoa.

6.Reparar ou destruir objetos físicos.

Objetivos parciais e que atravessam várias cenas

Embora objetivos de cena sempre sejam de curto alcance (ao contrário do objetivo da trama que é de longo alcance), eles não irão sempre ficar confinados a uma unica cena ou serão completados em uma unica cena. Às vezes sua história pedirá objetivos que ultrapassem e se espalhem por várias cenas. Por exemplo, seu personagem pode saber na cena nº 3 que ele deseja sair com a vizinha mas esse não é um objetivo que ele possa alcançar em uma unica cena. Ele pode não conseguir alcançar esse objetivo específico até a cena nº 11! É ai que objetivos parciais entram na jogada. Da mesma forma que objetivos de cena conduzem ao objetivo geral da história, objetivos parciais conduzem a cumprir objetivos que ultrapassam a cena, que por sua vez levarão ao objetivo global. Em nosso exemplo, a jornada do personagem para alcançar esse determinado objetivo que vai além da cena pode incluir objetivos parciais como esbarrar com ela inumeras vezes, conseguir o telefone dela, comprar flores para ela e se desculpar por ter gritado com o cachorro dela. Objetivos que vão além, que requerem várias cenas para alcançar o alvo não negam a necessidade de objetivos individuais dentro de cada cena intermediária. Mas não se limite com a noção de que cada cena tenha que ser uma ilha em si mesma. Cada cena é somente uma pequena parte de um todo maior. A partir do momento que tudo deve ser integral, é impossível que tudo não esteja entrelaçado.

Perguntas a fazer sobre objetivos da Cena

Uma vez identificado o  objetivo de cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.O objetivo faz sentido dentro da trama geral?

2.O objetivo é inerente à trama geral?

3.A complicação/resolução do objetivo levará a um novo objetivo/conflito/desastre?

4.Se o objetivo é mental ou emocional (ex. ser totalmente feliz hoje),  tem ele uma manifestação física (ex. sorrir para todp mundo)? (Isso não é sempre necessário, mas permitir que personagens demonstrem externamente seus objetivos oferece uma representação mais forte do que meramente dizer, via narrativa interna).

5.O sucesso ou fracasso do objetivo diretamente afeta o narrador da cena? (Se não, seu POV provavelmente não foi bem escolhido).

Objetivos de cena em ação

Vamos examinar alguns objetivos de cena em ação. Só por amor à continuidade estarei usando exemplos dos mesmos quatro livros e filmes que usei em minha série “Segredos da Estrutura da História”.

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo de Sra. Bennet no primeiro capitulo é convencer seu marido a visitar o recém chegado Sr. Bingley. Apesar dela não ser a protagonista da história, ela é a atriz principal nesta primeira cena, então é apropriado que o primeiro objetivo pertenca a ela. O capítulo oferece um maravilhoso objetivo de abertura (que abre/inicia o livro) uma vez que não só apresenta um objetivo de cena de curto prazo mas também perfeitamente molda o objetivo geral da história.

It´s a Wonderful Life de Frank Capra:

O objetivo do anjo Joseph na primeira cena é encontrar um anjo que ele possa enviar para ajudar George Bailey. Como em Orgulho e Preconceito o filme abre com uma perspectiva externa ao protagonista, mas apresenta uma imagem instatânea e precisa do objetivo geral da história (salvar George Bailey ajudando-o a entender que sua vida vale a pena ser vivida).

Ender´s Game de Orson Scott Card:

O livro abre com várias cenas curtas indicando os objetivos de pessoas que não são o protagonista (usado, mais uma vez, para moldar o foco geral da trama). O primeiro objetivo de Ender é evitar os brigões e conseguir chegar no ônibus escolar sem incidentes.

Master e Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir:

Tanto o objetivo geral da história e por extensão a primeira cena individual são introduzidos na cena de abertura do fime com a revelação das ordens de  Jack Aubrey para achar e destruir o corsário francês Acheron. O filme estabelece esse objetivo permitindo os leitores diretamente ler as ordens, então pula para a primeira cena com o oficial vigiando o mar em busca de qualquer anomalia que prove ser sua caça.

Uma vez que que você colocou no lugar o objetivo o resto da cena provavelmente fluirá facilmente e naturalmente. Enquanto cada cena for inerente a sua história e mover a trama para frente você estará em curso para alcançar um romance sólido e coeso.

*Para os propósitos desta série “Cena” com um C maiúsculo se referirá a cena em geral (o que pode incluir em sua definição a sequência).

Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequencia quando me referir aos dois tipos de Cenas.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-3.html

Aprenda a estruturar suas cenas


Aqui está o primeiro artigo na série Aprenda estruturar suas cenas. Mais uma vez o artigo foi retirado do site “Helping writers become authors”. Esse site é uma verdadeira mina de ouro e quem souber o inglês não deve deixar de passar por lá. Estou conseguindo esclarecer muita coisa na minha cabeça agora que vejo como uma cena de fato funciona. Aprender a mecânica da coisa certamente está me ajudando, afinal escrever não depende somente de inspiração. Aprender a manejar certas técnicas são imprescindíveis para desenvolver a nossa escrita. Aí vai o texto, divirtam-se!

Estruturando as cenas de sua história, parte 1:

Dominando os dois tipos de cena

Pergunta tipo pegadinha para vocês: Qual a parte mais negligenciada no quebra-cabeças que é a sua história? Okay, então não é realmente uma pegadinha. É uma questão legítima com uma resposta legítima e um tanto assustadora. E a resposta é: a cena. Sim, você ouviu direito. A cena – aquela parte de qualquer história que é mais integral, mais óbvia e mais universal – é também a mais negligenciada e menos compreendida quando falamos da arte de contar histórias. Como se explica a cena? Cada um tem uma resposta diferente.

  1. A cena é a unidade de ação. (Okay, isso é ótimo, mas no que consiste a unidade?)
  2. Uma cena é uma unidade de ação que acontece em um ambiente. (Bem, geralmente isso é verdade, mas há exceções claras.
  3. Uma cena é uma unidade de ação que caracteriza-se por um elenco específico de personagens. Quando esse elenco muda (ex: um personagem entra ou deixa a cena), a cena acaba. (Nem de perto.

É claro, algumas cenas começam e terminam com a entrada de personagens, mas outras continuam com uma porta rotatória/giratória de personagens coadjuvantes que entram e saem.

Antes de seguirmos adiante, gostaria que tirasse um momento e considerasse sua definição de cena. E aposto que quantificá-la é mais dificil do que você pode imaginar, não é?

Os dois tipos de cena

Estruturando seu romance: Chaves essenciais para escrever uma história espetacular.

O problema com a maior parte das definições de cena é que elas são, vamos colocar assim, vagas.

E por serem vagas não são de muita ajuda para autores que desejam entender essa parte fundamental da história. No curso dos próximos doze Domingos gostaria de compartilhar com vocês uma série sobre o âmago da questão no que se refere à cena. Vamos explorar alguns fatos concretos. Vamos aprender a estrutura básica das cenas, variações dessa estrutura e como usar nossa compreeensão sobre esse assunto para comprimir uma sobre a outra até termos uma história que é sólida como uma rocha do início ao fim. Para começar deixe-me ressaltar que estaremos focando em dois tipos diferentes de cenas: cena (ação) e sequência (reação). Na minha opinião estes títulos são absolutamente ridículos e que não ajudam em nada os equívocos em volta da questão. Entretanto, uma vez que estes são os termos normalmente usados para os componentes da história que estaremos falando, decidi mantê-los. Para os objetivos desta série, “Cena” com um “C” maiúsculo se referirá a cena em geral (o qual pode incluir em sua definição a sequência). Usarei um “c” minúsculo e itálicos para cena e sequência quando me referir aos dois tipos de Cenas. Na medida que a série progride, quebrarei as cenas e sequências em pedaços menores para podermos analisar o que as faz funcionar. Mas por enquanto, vamos dar uma olhada no todo.

Infográfico: A progressão emocional da cena e da sequência (Do livro “Structuring Your Novel Workbook”)

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O que é uma cena?

Lembre-se do que falamos semana passada sobre conflito e tensão? A cena é onde achamos o conflito. Esta é a parte da ação na dupla ação/reação. Grandes coisas acontecem nas cenas. Pontos da trama mudam o curso da história. Personagens agem de formas que afetam tudo o que acontece depois. Estas são as cenas que vão se sobressair em suas histórias.

O que é uma sequência?

A sequência é um fator em sua história muito mais quieto mas tão importante quanto a cena. Dentro da sequência achamos os personagens reagindo. Geralmente não há muito conflito direto, mas há abundância de tensão. Estas são as Cenas em que tanto personagens como leitores são permitidos recuperar o fôlego depois dos eventos desenfreados e fascinantes das Cenas anteriores. Reações serão processadas e decisões serão tomadas de modo que os personagens possam pular de volta na próxima cena.

Enquanto mergulhamos mais profundamente no mundo excitante da Cena, falaremos sobre como estruturar o arco de cada Cena, como ligar todas as cenas e sequências de forma que elas se comportem como pequenos dominós, como utilizar esse conhecimento para detectar problemas na trama, e iremos fundo brevemente no nivel micorscópico do parágrafo e estrutura de frases dentro da Cena.

Será divertido, então fique de olho!

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-1.html

Ordenando as cenas de sua obra


Ordenando as Cenas de sua Obra

Por Sandro Massarani

O processo de escrita de uma obra está longe de ser linear. Eu penso que este processo de criação esteja mais próximo da maneira de como o artista constrói uma escultura, ou seja, moldando seu objeto de forma gradativa, tendo uma visão ampla do todo ao seu redor.

Como vimos em Estrutura da História (pré-requisito para entendermos esse assunto), o enredo de uma obra pode se dividido em atos, sendo o mais comum a obra em três atos. Indo agora um pouco mais além, esses atos são compostos por sequências de cenas. Logo, uma história também seria uma coletânea de cenas. Observe o simples esquema a seguir:

HISTÓRIA

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ATOS

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CENAS

A cena, portanto, é uma unidade de medida dentro da sua história. Uma determinada sequência de cenas cria um ato, de acordo com os critérios de cada escritor.

Toda vez que existe uma situação dentro de um determinado espaço e tempo temos a configuração de uma cena. Se há a mudança da localidade ou um avanço ou retrocesso do relógio, há automaticamente uma mudança de cena. O autor deve estar bem atento a tudo isso, e deve aprender a construir sua obra tendo em mente a sua divisão em cenas. O enredo de uma história nada mais é, portanto, que o “encadeamento” de cenas, como já disse Aristóteles há mais de dois mil anos.

Após ter a noção de como funciona a estrutura de uma história, o próximo passo do escritor seria o de pegar as suas idéias e tentar organizá-las de modo coerente e eficaz, formulando cenas e colocando-as em uma sequência que o agrade. O autor não precisa e nem deve começar a escrever a obra pelo seu início, e na verdade o ideal seria iniciar a escrita somente após ter todas as cenas planejadas e em ordem, mesmo que de maneira apenas provisória, deixando espaço para mudanças.

De acordo com Blake Snyder, o número ideal de cenas para um roteiro de cinema seria 40. Já Robert McKee estabelece o número de cenas entre 40 e 60. Menos de 40 cenas se for uma obra voltada para teatro e mais de 60 se for para um romance literário. Existem contos consagrados que contam com apenas uma cena. Esse número depende do objetivo a ser alcançado.

Cartões de Cena

Uma das melhores e mais flexíveis formas de organizar o seu processo de escrita é criar um cartão para cada cena e depois ordená-los em sequência para se obter uma visão total de toda a obra.

Primeiramente, escreva em cartões um resumo de suas cenas e não se preocupe por enquanto com a ordem e nem se a cena vai ser utilizada. Como comentei antes, tente o mais cedo possível pelo menos esboçar o fim da história. Você precisa ter um ponto de destino para melhor criar o caminho a ser percorrido.

Vamos dar uma olhada em um exemplo típico de cartão de cena:

Tendo em mãos os diversos cartões, procure separá-los em três grupos, um para cada Ato (isso se o escritor utilizar a divisão por Atos). Alguns escritores chegam a prender esses cartões em um grande mural para ter uma visão mais privilegiada. Outros espalham os cartões pela mesa para depois ordená-los. Se você desejar, não precisa nem fazer os cartões, basta escrever o resumo da cena no computador e ir montando a ordem em um processador de texto ou planilha.

Normalmente, o Ato 1 corresponde no máximo a 30% da obra, o Ato 2 fica em torno de 55% e o Ato 3 em 15%. Logicamente, isso é apenas um parâmetro geral e não deve ser sempre seguido de maneira fixa.

Cada Cena é um Pequeno Filme

O essencial de uma obra é retratar os conflitos que o protagonista tem que ultrapassar para conseguir (ou não) seu objetivo. Cada cena individualmente deve ser tratada da mesma forma, ou seja, cada uma deve ter o seu próprio conflito e objetivo, lembrando que o autor sempre deve fazer a história se mover, evitando estaticidade e diálogos vazios.

Porém, uma boa obra não pode ter somente cenas com intensos conflitos, senão a audiência se desgastará rapidamente. O leitor / espectador precisa de cenas um pouco mais leves para ter um alívio e sustentar a tensão. O ideal é o escritor classificar suas cenas de acordo com o nível de intensidade delas: Baixa, Média e Alta.

As cenas de baixa intensidade são cenas rápidas, de preparação e ligação para o que está por vir. Não demore muito nesse tipo de cena. As cenas de média intensidade compreende a maioria da obra e devem ter conflitos e emoções intensas, diálogos importantes, e construir a essência da história. Já as cenas de alta intensidade são as cenas de grande importância e momentos chave, geralmente pontos de transição e o clímax final. Não deve-se ter mais do que três ou quatro cenas desse tipo em uma obra, pois são cenas de picos emocionais e muito desgastantes. Se essas cenas forem de alta qualidade, já é meio caminho para uma história memorável.

É interessante também o escritor ter a noção do processo de Ação Crescente (Rising Action), ou seja, o protagonista deve enfrentar ao longo da obra obstáculos cada vez mais fortes, sempre aumentando o conflito e a tensão envolvida. Logo, uma cena de alta intensidade no final da obra deve estar ligada a um problema maior do que uma cena de alta intensidade no início da obra. Sempre dificulte a vida do protagonista, ele não deve obter nada facilmente.

Conclusão

Após o escritor decidir a ordem das cenas e a qual ato elas pertencem, quais são os principais personagens, seus objetivos e conflitos, está na hora de começar a escrever. O mais importante é sempre se lembrar de que a ordem das cenas pode mudar a qualquer momento, e que isso é uma prática comum. O escritor sempre deve trabalhar em um processo de tentativa e erro. Com o sistema de cartões ou outra forma de organização semelhante, o autor tem toda a visão de sua obra, e sabe claramente onde está o início, o meio e o fim.

É lógico que boas obras podem e foram criadas sem um sistema de organização e ordenação das cenas, e ninguém deve limitar sua criatividade ficando preso a esquemas rígidos. Porém, quanto maior for o controle do escritor sobre sua história, maior será a sua chance de ver e consertar erros na sua estrutura.

Bons estudos!

http://www.massarani.com.br/Rot-Cenas-Roteiro-Cinema.html