Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3


Mais uma da série de K.M. Weiland sobre como estruturar suas cenas. Se você não faz ideia do que estou falando leia a parte 1 e a parte 2 dessa fantástica série antes de prosseguir.

Estruturando as Cenas de sua história, Pt.3: Objetivos em uma Cena – opções

A história como um todo e cada cena dentro dela inicia-se com um objetivo. Seu personagem deseja alguma coisa – algo que ele terá dificuldades em alcançar. O que ele quer molda o enredo tanto no nível macro e micro. O que ele quer o define como pessoa, e , por extensão, o tema do livro como um todo. Os objetivos possíveis para as cenas são infinitos – e muito específicos para sua história. Seu personagem pode querer qualquer coisa em qualquer cena, mas dentro daquele universo de opções você precisa diminuir os desejos expressados dentro da cena para aqueles que irão orientar a trama. Desejar comprar cravos rosados para o Dia das Mães é um objetivo digno, mas se a mãe do personagem tem um papel inexistente na sua história de guerrra nuclear, isso não vai fazer parte da sua história – e certamente não funcionará como objetivo de sua cena. Os objetivos da Cena são os dominós que estou sempre me referindo. Cada objetivo é um passo adiante em sua história. Um objetivo leva a um resultado que induz a um novo objetivo e assim por diante. Bing-bing-bing – eles caem um sobre o outro, um dominó depois de outro. Se não – se um objetivo está fora do lugar no geral da história – a linha de dominós irá parar e a história vai vacilar, talvez fatalmente.

Objetivo da trama vs. Objetivo da Cena

A trama geral de seu personagem será um dilema que levará toda a história para ser resolvido. Ele pode querer ser Presidente, ele pode querer resgatar sua filha que fora sequestrada, ele pode querer casar com a vizinha ou ele pode querer alcançar cura emocional e um novo começo após a morte de seu pai. Se quebrarmos o objetivo global da história em pedaços pequenos, descobrimos que ele na verdade é feito de objetivos menores em sequência. Seu personagem pode não começar já sabendo que ele quer um novo começo ou que quer casar com a vizinha (embora isso deva ser imediatemente evidente ao leitor ao menos por dedução se não por outro motivo). Mas na primeirissima cena ele vai saber que deseja algo. Talvez ele saiba que quer que o cachorro da vizinha pare de comer suas petúnias. Então ele sabe que precisa encontrá-la e convence-la a mante-lo na corrente. Então ele percebe que ela é irritantemente bonita. Então ele percebe que quer sair com ela. Então ele sabe que tem que superar a péssima primeira impressão que deu a ela. Então ele sabe que deveria comprar flores para ela. E etc, etc, etc. antes que você perceba, todos esses pequenos objetivos de cena irão te levar até o objetivo global da história. O fator mais importante a se manter em mente enquanto identifica cada objetivo de cena é sua pertinência à trama. Subenredos podem dar oportunidades a objetivos que não estão diretamente relacionados ao seu objetivo principal de casar com a vizinha, mas eles também devem finalmente se amarrar na trama geral de uma forma ressonantemente impactante ou temática.  Se a realização  ou não realização de qualquer objetivo de cena não afeta o resultado final da historia é porque ele não é suficientemente pertinente.

Objetivos de Cenas: opções

Objetivos de cena se manifestarão de formas descontroladamente diferentes. Seu personagem pode querer queimar um pacote de cartas, tirar um cochilo, se esconder no armário ou afundar um barco. Mas a maioria dos objetivos das cenas podem ser resumidos em uma das categorias seguintes. Seu personagem irá querer:

1.Algo concreto (um objeto, uma pessoa, etc)

2.Algo incorpóreo (admiração, informação, etc)

3.Escapar de algo físico (encarceramento, dor, etc)

4.Escapar de algo mental (preocupação, suspeita, medo, etc)

5.Escapar de algo emocional (luto, depressão, etc)

Seus métodos de alcançar essas coisas irão frequentemente se manifestar em uma das seguintes formas (embora esta lista não seja definitiva):

1.Buscar informação.

2.Esconder informação.

3.Se esconder.

4.Esconder outra pessoa.

5.Confrontar ou atacar outra pessoa.

6.Reparar ou destruir objetos físicos.

Objetivos parciais e que atravessam várias cenas

Embora objetivos de cena sempre sejam de curto alcance (ao contrário do objetivo da trama que é de longo alcance), eles não irão sempre ficar confinados a uma unica cena ou serão completados em uma unica cena. Às vezes sua história pedirá objetivos que ultrapassem e se espalhem por várias cenas. Por exemplo, seu personagem pode saber na cena nº 3 que ele deseja sair com a vizinha mas esse não é um objetivo que ele possa alcançar em uma unica cena. Ele pode não conseguir alcançar esse objetivo específico até a cena nº 11! É ai que objetivos parciais entram na jogada. Da mesma forma que objetivos de cena conduzem ao objetivo geral da história, objetivos parciais conduzem a cumprir objetivos que ultrapassam a cena, que por sua vez levarão ao objetivo global. Em nosso exemplo, a jornada do personagem para alcançar esse determinado objetivo que vai além da cena pode incluir objetivos parciais como esbarrar com ela inumeras vezes, conseguir o telefone dela, comprar flores para ela e se desculpar por ter gritado com o cachorro dela. Objetivos que vão além, que requerem várias cenas para alcançar o alvo não negam a necessidade de objetivos individuais dentro de cada cena intermediária. Mas não se limite com a noção de que cada cena tenha que ser uma ilha em si mesma. Cada cena é somente uma pequena parte de um todo maior. A partir do momento que tudo deve ser integral, é impossível que tudo não esteja entrelaçado.

Perguntas a fazer sobre objetivos da Cena

Uma vez identificado o  objetivo de cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.O objetivo faz sentido dentro da trama geral?

2.O objetivo é inerente à trama geral?

3.A complicação/resolução do objetivo levará a um novo objetivo/conflito/desastre?

4.Se o objetivo é mental ou emocional (ex. ser totalmente feliz hoje),  tem ele uma manifestação física (ex. sorrir para todp mundo)? (Isso não é sempre necessário, mas permitir que personagens demonstrem externamente seus objetivos oferece uma representação mais forte do que meramente dizer, via narrativa interna).

5.O sucesso ou fracasso do objetivo diretamente afeta o narrador da cena? (Se não, seu POV provavelmente não foi bem escolhido).

Objetivos de cena em ação

Vamos examinar alguns objetivos de cena em ação. Só por amor à continuidade estarei usando exemplos dos mesmos quatro livros e filmes que usei em minha série “Segredos da Estrutura da História”.

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo de Sra. Bennet no primeiro capitulo é convencer seu marido a visitar o recém chegado Sr. Bingley. Apesar dela não ser a protagonista da história, ela é a atriz principal nesta primeira cena, então é apropriado que o primeiro objetivo pertenca a ela. O capítulo oferece um maravilhoso objetivo de abertura (que abre/inicia o livro) uma vez que não só apresenta um objetivo de cena de curto prazo mas também perfeitamente molda o objetivo geral da história.

It´s a Wonderful Life de Frank Capra:

O objetivo do anjo Joseph na primeira cena é encontrar um anjo que ele possa enviar para ajudar George Bailey. Como em Orgulho e Preconceito o filme abre com uma perspectiva externa ao protagonista, mas apresenta uma imagem instatânea e precisa do objetivo geral da história (salvar George Bailey ajudando-o a entender que sua vida vale a pena ser vivida).

Ender´s Game de Orson Scott Card:

O livro abre com várias cenas curtas indicando os objetivos de pessoas que não são o protagonista (usado, mais uma vez, para moldar o foco geral da trama). O primeiro objetivo de Ender é evitar os brigões e conseguir chegar no ônibus escolar sem incidentes.

Master e Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir:

Tanto o objetivo geral da história e por extensão a primeira cena individual são introduzidos na cena de abertura do fime com a revelação das ordens de  Jack Aubrey para achar e destruir o corsário francês Acheron. O filme estabelece esse objetivo permitindo os leitores diretamente ler as ordens, então pula para a primeira cena com o oficial vigiando o mar em busca de qualquer anomalia que prove ser sua caça.

Uma vez que que você colocou no lugar o objetivo o resto da cena provavelmente fluirá facilmente e naturalmente. Enquanto cada cena for inerente a sua história e mover a trama para frente você estará em curso para alcançar um romance sólido e coeso.

*Para os propósitos desta série “Cena” com um C maiúsculo se referirá a cena em geral (o que pode incluir em sua definição a sequência).

Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequencia quando me referir aos dois tipos de Cenas.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-3.html

Estruture suas cenas – Exercício: Objetivo, conflito e Desastre


Vocês devem estar acompanhando a série que estou traduzindo sobre como estruturar as cenas de uma história.  Quem chegou agora pode dar uma lida rápida na parte um http://buff.ly/1FZmo2U e na parte dois http://buff.ly/1wT0y99  dessa série antes de prosseguir.

Bem, queria saber se estou entendendo direito as instruções da autora. Ela usou como referência uma cena de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Não sei se tiveram tempo para dar uma olhada nessa cena, mas é que pra mim ainda não estava suficiente.  É que a autora já havia dado as dicas então foi fácil identificar os pontos na cena. Queria ver se conseguia fazer essa identificação sozinha e em qualquer livro que pegasse, queria saber se realmente é algo que os autores usam.  Pois bem, estou lendo uma trilogia já pela terceira vez, chamada “Nascidos da bruma: o império final” de Brandon Sanderson. É um livro maravilhoso de fantasia com um sistema de magia único que foge bastante daquela coisa batida a lá Tolkien, com elfos e anões e magos. E não tem dragões também (não se enganem, eu a-do-ro os livros do Tolkien, mas covenhamos que tem cópias demais do estilo dele zanzando por aí. De vez em quando é bom ser criativo!) Anyway, o livro é muuuuuuito bom mesmo.  Ai peguei o livro e abri logo no inicio e fui analisar as primeiras cenas, dessa vez com olhos de escritora e não de leitora como usualmente faço.  Queria identificar o objetivo,  o conflito e o desastre da cena. Esse é um excelente exercício que todos deviam fazer pra fixar o aprendizado.  A gente aprende com a repetição.  Então tá,  comecei a ler cuidadosamente e fui percebendo que tinha alguma dificuldade. Passei para a segunda cena, foi bem mais fácil.  Aqui percebemos que kelsier (esse é o protagonista) quer causar uma rebelião, o autor se utiliza de dois outros personagens para dizer isso, além da fala do próprio Kelsier onde ele admite ser apenas um encrenqueiro. Então o objetivo dele está bem claro. O conflito aparece na conversa com Mennis onde ele questiona o motivo dos skaa não reagirem à toda maldade que são submetidos e Mennis diz que é preferível esse tipo de vida do que a morte.  Ou seja, os skaa não vão se rebelar. Ai entra o desastre.  Gritos são ouvidos na noite e Kelsier descobre que são de uma jovem skaa que está sendo levada para o senhor da plantação e que ela não vai sobreviver porque ele mata todas as jovens skaa depois de ter relações com elas. Kelsier sai da choupana e mergulha nas brumas.

Muito bom isso! Consegui encontrar todos os pontos direitinho.  Voltemos a cena um. Me deu um lampejo agora! Na cena um temos que analisá-la do ponto de vista de quem tem o P.O.V, ou seja, Lorde Tresting e não o de Kelsier como havia tentado antes. Essa é a desvantagem de ter lido o  livro tantas vezes. Como já conheço a história acabo me adiantando.  O certo é ficar estritamente com os dados que a cena está me fornecendo (difícil quando já se sabe o que vai acontecer!). Como essa primeira cena é a que apresenta o personagem Kelsier, fiquei com ele na mente e não me toquei que a cena é narrada do ponto de vista de um outro personagem. Quando me ajustei a isso as coisas ficaram mais fáceis. Pois bem. Lorde Tresting deseja fechar um contrato com outra casa nobre chamada Venture. Esse é seu objetivo. Isso está muito claro também.  Aparece com todas as letras na voz do Obrigador. O conflito foi mais complicado de reconhecer.  É que ele aparece somente como um pensamento de Tresting.  Ele fica pensando como agradar Venture,  se conseguiria uma colheita extra, mas se depara com o problema da morosidade dos skaa. Ele imagina se apertando-os um pouco mais não conseguiria a tal desejada colheita  extra quando entra em cena o desastre: um skaa o encara com fogo no olhar, desafiando-o.

Legal. Tá ai o exercício feito.  Quem puder compre o livro e leia pois é bom demais. Se quiser ajudar a manter o blog compre através desse link (para os leitores que estão no exterior) e nesse link para os leitores no Brasil.

Estruturando as cenas de sua história, Pt2


Olá pesoal. Demorei um pouco a postar pois tive algumas dificuldades na tradução. Esta é a segunda parte da série sobre como estruturar as cenas do seu livro e foi traduzido livremente por mim. Se tiverem qualquer dúvida podem verificar o texto original em inglês no link ao final da página. Divirtam-se.
(Não deixe de ler a primeira parte dessa série em https://fenixresurrected.wordpress.com/2015/02/06/aprenda-a-estruturar-suas-cenas/)

Estruturando as cenas de sua história, Pt2:

As três partes da Cena

Como a própria história, cada Cena segue uma estrutura específica. No fundo, o arco da Cena é o mesmo da estrutura maior da história exibido ao longo do curso do livro:

1.Inicio = Gancho

2.Meio = Desenvolvimento

3.Fim = Clímax

Quando olhamos para o arco dessa forma, ele nos dá uma espécie de sentido fundamental/básico. Mas não nos oferece nenhum conselho específico em como criar esses elementos dentro da Cena. Então vamos esmiúçar isso mais ainda.Tanto a cena quanto a sequência seguem um arco fundamental de três partes, mas os elementos são significativamente diferentes em cada uma das partes. Hoje vamos dar uma olhada nos três elementos fundamentais da cena. Conforme prosseguimos com a série, olharemos algumas variações dessas três partes do arco, mas, em termos gerais, suas cenas terão que conter o seguinte:

Parte Nº 1:Objetivo

É onde tudo começa. O que seu personagem quer em larga escala é o que guia toda a história. O que ele quer em pequena escala guia sua cena. Se ele não quer nada, então sua história não tem ímpeto.

Sem objetivo = sem história

O que seu personagem quer em qualquer cena será um reflexo minúsculo do objetivo geral na história e/ou um passo na direção de alcançar tal objetivo. Por exemplo, se o objetivo geral do personagem é escapar de um campo de prisioneiros, o objetivo da cena pode ser encontrar uma pá, subornar um guarda para que deixe seu posto ou convencer um colega de juntar se a ele. Quando souber o objetivo do personagem em uma certa cena, você saberá o objetivo da cena.

Sem objetivo = sem propósito

Estabeleça o objetivo do personagem o mais cedo possível na cena.Leitores precisam compreender o que está em jogo.O que o personagem está tentando realizar. Porquê ele está tentando realizar isso? O que acontecerá se ele falhar?

Parte Nº 2:Conflito

Uma vez que seu objetivo esteja no lugar sua próxima responsabilidade será criar um obstáculo que impedirá o personagem de alcançar facilmente o resultado que almeja. “Sem conflito, sem história” pode ser dito mais precisamente como “sem conflito, sem cena“. Conflito é o que impede o personagem de alcançar seu objetivo – e por conseguinte o que impede a história de acabar muito rapidamente. Conflito é o que compõe a seção do meio/desenvolvimento do arco de cena. O grosso de sua cena irá provavelmente ser tomada pelo conflito. Em nosso exemplo do campo de prisioneiros, o conflito geral da história pode ser ser mais esperto e escapar do oficial cruel que comanda o campo. Mas com relação à cena, este conflito se manifesta de formas como ser pego roubando uma pá, ser chantageado pelo guarda que foi subornado ou discutir com o colega que está inseguro sobre a fuga. Seja qual for o conflito da cena, ele deve surgir naturalmente como um obstáculo para o objetivo. Uma briga aleatória com o valentão do campo pode oferecer conflito mas se não põe em perigo a habilidade do protagonista de alcançar seu objetivo então não é o tipo de conflito que você está buscando. Conflito vem de diversas formas – qualquer coisa desde uma briga com facas até um colapso por conta de um cartão de crédito perdido. Não tem que ocorrer entre duas pessoas. Não tem nem que ser uma briga ou discussão no sentido tradicional das coisas. Tudo que importa é se atrapalha o objetivo da cena de ser alcançado.

Parte Nº 3: Desastre (desfecho)

Enfim, o conflito tem a obrigação de ser resolvido decididamente – e provavelmente sem beneficiar o protagonista. O desfecho da cena é o acúmulo para a próxima Cena. Se tudo estiver muito bem amarrado não haverá nenhum próximo passo lógico e a história acabará. Alguns autores não gostam do rótulo “desastre” para o desfecho da cena pois parece indicar que algo terrível tem que acontecer ao final de cada cena. Se você está escrevendo um thriller, então está tudo bem, mas se sua história for um romance ou uma saga literária quieta? Dificilmente poderá ter gente tomando tiros ou batendo seus carros ao final de cada cena. Isso é bem verdade. É também verdade que é quase impossível terminar cada cena com um desastre total. As vezes para a história andar o conflito simplesmente tem que ser resolvido favorecendo o protagonista. (falaremos mais sobre isso no post “Variações da Cena”)

Mesmo com tudo isso em mente ainda prefiro a ênfase no desastre, se por nenhuma outra razão além de ser um lembrete contínuo de que muito está em jogo e o protagonista está desequilibrado. Como tal, desastres podem vir de várias maneiras. Tiroteios e batidas de carro estão no lado extremo da balança. Do lado mais manso encontramos desfechos que não são favoráveis como: ser feito de otário ao fazer uma má aposta, um pneu furado ao se dirigir a uma entrevista importante ou mesmo deixar aquela caixa de bombons derreter a ponto de virar uma bagunça pegajosa. O desastre também deve desenvolver-se naturalmente a partir do conflito que o criou. Se seu herói toma um fora de sua namorada como resultado de uma briga, isso é um desastre natural. Se ele discute com ela e depois é preso por estar andando imprudentemente na rua (“jaywalking” –  isso é crime em países como Estados Unidos), este provavelmente não será um desfecho muito coerente. Ou você precisa mudar o desastre para se ajustar ao objetivo e ao conflito, ou mudar o objetivo e o conflito para que eles corretamente estabeleçam a prisão como desastre. Nossas cenas no campo de prisioneiros podem acabar desastrosamente com o ladrão de pás não achando uma pá, o guarda subornado ameaçando jogar nosso herói na solitária ou nosso colega assustado lançando acusações de imprudência interesseira. O propósito em cada desastre é que o herói se acha em apuros – o que nos levará direto para a sequência.

A Cena acontecendo

Como exemplo desses três elementos da cena, considere o terceiro capítulo de Orgulho e preconceito de Jane Austen:

Objetivo: Dançar no baile e chamar atenção dos recém chegados de Londres.

Conflito: Há mais mulheres do que homens, então não há parceiros suficientes para todas.

Desastre: Darcy rejeita Elizabeth como parceira.

Então tá ai! Uma cena completa do início ao fim. Uma vez que compreenda a mecânica do mais importante componente de toda história, poderá intencionalmente construir cenas fortes que não teráo só peso próprio mas que irão dar suporte a história e criarão uma trama que flui logicamente e poderosamente do inicio ao fim.

*Nesta série Cena com C maiúsculo se refere a cena em geral (que pode incluir em sua definição a sequência). Usarei C minúsculo e itálicos para cena e sequência para me referir aos dois tipos de Cena.

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-2.html

Achei um link com o livro da Jane Austen pra quem quiser checar:  http://www.miniweb.com.br/Literatura/Artigos/livros/Jane_Austen_Orgulho_Preconceito.pdf

Aprenda a estruturar suas cenas


Aqui está o primeiro artigo na série Aprenda estruturar suas cenas. Mais uma vez o artigo foi retirado do site “Helping writers become authors”. Esse site é uma verdadeira mina de ouro e quem souber o inglês não deve deixar de passar por lá. Estou conseguindo esclarecer muita coisa na minha cabeça agora que vejo como uma cena de fato funciona. Aprender a mecânica da coisa certamente está me ajudando, afinal escrever não depende somente de inspiração. Aprender a manejar certas técnicas são imprescindíveis para desenvolver a nossa escrita. Aí vai o texto, divirtam-se!

Estruturando as cenas de sua história, parte 1:

Dominando os dois tipos de cena

Pergunta tipo pegadinha para vocês: Qual a parte mais negligenciada no quebra-cabeças que é a sua história? Okay, então não é realmente uma pegadinha. É uma questão legítima com uma resposta legítima e um tanto assustadora. E a resposta é: a cena. Sim, você ouviu direito. A cena – aquela parte de qualquer história que é mais integral, mais óbvia e mais universal – é também a mais negligenciada e menos compreendida quando falamos da arte de contar histórias. Como se explica a cena? Cada um tem uma resposta diferente.

  1. A cena é a unidade de ação. (Okay, isso é ótimo, mas no que consiste a unidade?)
  2. Uma cena é uma unidade de ação que acontece em um ambiente. (Bem, geralmente isso é verdade, mas há exceções claras.
  3. Uma cena é uma unidade de ação que caracteriza-se por um elenco específico de personagens. Quando esse elenco muda (ex: um personagem entra ou deixa a cena), a cena acaba. (Nem de perto.

É claro, algumas cenas começam e terminam com a entrada de personagens, mas outras continuam com uma porta rotatória/giratória de personagens coadjuvantes que entram e saem.

Antes de seguirmos adiante, gostaria que tirasse um momento e considerasse sua definição de cena. E aposto que quantificá-la é mais dificil do que você pode imaginar, não é?

Os dois tipos de cena

Estruturando seu romance: Chaves essenciais para escrever uma história espetacular.

O problema com a maior parte das definições de cena é que elas são, vamos colocar assim, vagas.

E por serem vagas não são de muita ajuda para autores que desejam entender essa parte fundamental da história. No curso dos próximos doze Domingos gostaria de compartilhar com vocês uma série sobre o âmago da questão no que se refere à cena. Vamos explorar alguns fatos concretos. Vamos aprender a estrutura básica das cenas, variações dessa estrutura e como usar nossa compreeensão sobre esse assunto para comprimir uma sobre a outra até termos uma história que é sólida como uma rocha do início ao fim. Para começar deixe-me ressaltar que estaremos focando em dois tipos diferentes de cenas: cena (ação) e sequência (reação). Na minha opinião estes títulos são absolutamente ridículos e que não ajudam em nada os equívocos em volta da questão. Entretanto, uma vez que estes são os termos normalmente usados para os componentes da história que estaremos falando, decidi mantê-los. Para os objetivos desta série, “Cena” com um “C” maiúsculo se referirá a cena em geral (o qual pode incluir em sua definição a sequência). Usarei um “c” minúsculo e itálicos para cena e sequência quando me referir aos dois tipos de Cenas. Na medida que a série progride, quebrarei as cenas e sequências em pedaços menores para podermos analisar o que as faz funcionar. Mas por enquanto, vamos dar uma olhada no todo.

Infográfico: A progressão emocional da cena e da sequência (Do livro “Structuring Your Novel Workbook”)

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O que é uma cena?

Lembre-se do que falamos semana passada sobre conflito e tensão? A cena é onde achamos o conflito. Esta é a parte da ação na dupla ação/reação. Grandes coisas acontecem nas cenas. Pontos da trama mudam o curso da história. Personagens agem de formas que afetam tudo o que acontece depois. Estas são as cenas que vão se sobressair em suas histórias.

O que é uma sequência?

A sequência é um fator em sua história muito mais quieto mas tão importante quanto a cena. Dentro da sequência achamos os personagens reagindo. Geralmente não há muito conflito direto, mas há abundância de tensão. Estas são as Cenas em que tanto personagens como leitores são permitidos recuperar o fôlego depois dos eventos desenfreados e fascinantes das Cenas anteriores. Reações serão processadas e decisões serão tomadas de modo que os personagens possam pular de volta na próxima cena.

Enquanto mergulhamos mais profundamente no mundo excitante da Cena, falaremos sobre como estruturar o arco de cada Cena, como ligar todas as cenas e sequências de forma que elas se comportem como pequenos dominós, como utilizar esse conhecimento para detectar problemas na trama, e iremos fundo brevemente no nivel micorscópico do parágrafo e estrutura de frases dentro da Cena.

Será divertido, então fique de olho!

Acessado em 02/02/2015 em http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/2012/12/structuring-your-storys-scenes-pt-1.html

Ordenando as cenas de sua obra


Ordenando as Cenas de sua Obra

Por Sandro Massarani

O processo de escrita de uma obra está longe de ser linear. Eu penso que este processo de criação esteja mais próximo da maneira de como o artista constrói uma escultura, ou seja, moldando seu objeto de forma gradativa, tendo uma visão ampla do todo ao seu redor.

Como vimos em Estrutura da História (pré-requisito para entendermos esse assunto), o enredo de uma obra pode se dividido em atos, sendo o mais comum a obra em três atos. Indo agora um pouco mais além, esses atos são compostos por sequências de cenas. Logo, uma história também seria uma coletânea de cenas. Observe o simples esquema a seguir:

HISTÓRIA

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ATOS

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CENAS

A cena, portanto, é uma unidade de medida dentro da sua história. Uma determinada sequência de cenas cria um ato, de acordo com os critérios de cada escritor.

Toda vez que existe uma situação dentro de um determinado espaço e tempo temos a configuração de uma cena. Se há a mudança da localidade ou um avanço ou retrocesso do relógio, há automaticamente uma mudança de cena. O autor deve estar bem atento a tudo isso, e deve aprender a construir sua obra tendo em mente a sua divisão em cenas. O enredo de uma história nada mais é, portanto, que o “encadeamento” de cenas, como já disse Aristóteles há mais de dois mil anos.

Após ter a noção de como funciona a estrutura de uma história, o próximo passo do escritor seria o de pegar as suas idéias e tentar organizá-las de modo coerente e eficaz, formulando cenas e colocando-as em uma sequência que o agrade. O autor não precisa e nem deve começar a escrever a obra pelo seu início, e na verdade o ideal seria iniciar a escrita somente após ter todas as cenas planejadas e em ordem, mesmo que de maneira apenas provisória, deixando espaço para mudanças.

De acordo com Blake Snyder, o número ideal de cenas para um roteiro de cinema seria 40. Já Robert McKee estabelece o número de cenas entre 40 e 60. Menos de 40 cenas se for uma obra voltada para teatro e mais de 60 se for para um romance literário. Existem contos consagrados que contam com apenas uma cena. Esse número depende do objetivo a ser alcançado.

Cartões de Cena

Uma das melhores e mais flexíveis formas de organizar o seu processo de escrita é criar um cartão para cada cena e depois ordená-los em sequência para se obter uma visão total de toda a obra.

Primeiramente, escreva em cartões um resumo de suas cenas e não se preocupe por enquanto com a ordem e nem se a cena vai ser utilizada. Como comentei antes, tente o mais cedo possível pelo menos esboçar o fim da história. Você precisa ter um ponto de destino para melhor criar o caminho a ser percorrido.

Vamos dar uma olhada em um exemplo típico de cartão de cena:

Tendo em mãos os diversos cartões, procure separá-los em três grupos, um para cada Ato (isso se o escritor utilizar a divisão por Atos). Alguns escritores chegam a prender esses cartões em um grande mural para ter uma visão mais privilegiada. Outros espalham os cartões pela mesa para depois ordená-los. Se você desejar, não precisa nem fazer os cartões, basta escrever o resumo da cena no computador e ir montando a ordem em um processador de texto ou planilha.

Normalmente, o Ato 1 corresponde no máximo a 30% da obra, o Ato 2 fica em torno de 55% e o Ato 3 em 15%. Logicamente, isso é apenas um parâmetro geral e não deve ser sempre seguido de maneira fixa.

Cada Cena é um Pequeno Filme

O essencial de uma obra é retratar os conflitos que o protagonista tem que ultrapassar para conseguir (ou não) seu objetivo. Cada cena individualmente deve ser tratada da mesma forma, ou seja, cada uma deve ter o seu próprio conflito e objetivo, lembrando que o autor sempre deve fazer a história se mover, evitando estaticidade e diálogos vazios.

Porém, uma boa obra não pode ter somente cenas com intensos conflitos, senão a audiência se desgastará rapidamente. O leitor / espectador precisa de cenas um pouco mais leves para ter um alívio e sustentar a tensão. O ideal é o escritor classificar suas cenas de acordo com o nível de intensidade delas: Baixa, Média e Alta.

As cenas de baixa intensidade são cenas rápidas, de preparação e ligação para o que está por vir. Não demore muito nesse tipo de cena. As cenas de média intensidade compreende a maioria da obra e devem ter conflitos e emoções intensas, diálogos importantes, e construir a essência da história. Já as cenas de alta intensidade são as cenas de grande importância e momentos chave, geralmente pontos de transição e o clímax final. Não deve-se ter mais do que três ou quatro cenas desse tipo em uma obra, pois são cenas de picos emocionais e muito desgastantes. Se essas cenas forem de alta qualidade, já é meio caminho para uma história memorável.

É interessante também o escritor ter a noção do processo de Ação Crescente (Rising Action), ou seja, o protagonista deve enfrentar ao longo da obra obstáculos cada vez mais fortes, sempre aumentando o conflito e a tensão envolvida. Logo, uma cena de alta intensidade no final da obra deve estar ligada a um problema maior do que uma cena de alta intensidade no início da obra. Sempre dificulte a vida do protagonista, ele não deve obter nada facilmente.

Conclusão

Após o escritor decidir a ordem das cenas e a qual ato elas pertencem, quais são os principais personagens, seus objetivos e conflitos, está na hora de começar a escrever. O mais importante é sempre se lembrar de que a ordem das cenas pode mudar a qualquer momento, e que isso é uma prática comum. O escritor sempre deve trabalhar em um processo de tentativa e erro. Com o sistema de cartões ou outra forma de organização semelhante, o autor tem toda a visão de sua obra, e sabe claramente onde está o início, o meio e o fim.

É lógico que boas obras podem e foram criadas sem um sistema de organização e ordenação das cenas, e ninguém deve limitar sua criatividade ficando preso a esquemas rígidos. Porém, quanto maior for o controle do escritor sobre sua história, maior será a sua chance de ver e consertar erros na sua estrutura.

Bons estudos!

http://www.massarani.com.br/Rot-Cenas-Roteiro-Cinema.html

Como escrever cenas de suspense


Mais um artigo retirado do site de Júlio Rocha, que inclusive recentemente escreveu um livro de técnicas para escrever ficção. Bem que ele podia me dar um livro pra sortear, né? Vou escrever pra ele, quem sabe ele concorda. Esse e outros artigos podem ser encontrados no site de Júlio Rocha no endereço http://news.thate.com.br/jrocha/site/index.jsp

Como Escrever Cenas de SuspenseRecebi alguns e-mails solicitando técnicas para escrever cenas de suspense. Só quero deixar claro que existe uma diferença muito grande entre suspense e terror. Digo isso, pois alguns e-mails pareciam confundir um pouco os dois conceitos. é claro que você pode usar suspense e terror na mesma narrativa. Aliás, histórias de terror sempre são acompanhadas de muito suspense.

Para simplificar:

– Terror ocorre quando a cena é forte, onde coisas ruins acontecem e reagimos com sentimentos de medo e repulsa.

– Suspense acontece quando ficamos ansiosos para saber o que virá a seguir.

Nosso objetivo aqui é falar sobre como fazer suspense, seja para romances, comédias, terror ou qualquer outro gênero.

Vamos começar com as premissas básicas para uma boa cena de suspense:

1 – Os personagens envolvidos devem ser verdadeiros e inspirar confiança para o leitor (vide dicas “Como Construir Personagens Partes I, II e III”);

2 – Você deve escolher o melhor ponto de vista para a cena (vide dicas “Como Estabelecer o Ponto de Vista – Partes I e II”);

3 – O leitor deve ter estabelecido algum envolvimento emocional com o(s) personagem(ns) principal(is) (vide dica “Como Criar uma Conexão Emocional Entre Leitor e Personagem”);

Agora vamos aos ingredientes:

– Objetivo. O personagem deve ter um objetivo claro a ser conquistado e que justifique o esforço para alcança-lo.

– Contagem regressiva. O personagem deve cumprir seu objetivo em um determinado período de tempo, caso contrário, irá fracassar e as consequências serão dramáticas.

– Obstáculos. O personagem deve encontrar obstáculos imprevisíveis e difíceis de superar.

Muito bem, considerando que as premissas foram atendidas e os ingredientes são conhecidos, vamos exercitar. Partimos de uma situação comum:

Renato sai de casa para ir ao museu.

Nada demais, correto? Então vamos melhorar acrescentando um objetivo claro.

Renato precisa raspar um pedaço de osso do Tiranossauro Rex, ingrediente fundamental para a poção que irá salvar a vida de Lila.

Agora adicionamos o ingrediente “Tempo”.

São quatro e meia da tarde e Renato precisa chegar ao museu antes das cinco, quando os portões são fechados. Mas o prazo para salvar Lila é o que mais preocupa. Hoje à noite, a lua completa seu ciclo e quando aparecer, exatamente às vinte e uma horas, será o fim de Lila. A única salvação é a poção, que reverterá o processo de envelhecimento e fará com que Lila volte a ser saudável.

E, finalmente, os obstáculos. Primeiro um que irá tornar-se uma preocupação para o personagem e, consequentemente, para o leitor.

Ao entrar no carro, Renato olha para o ponteiro da gasolina. Está na reserva. Ele não terá tempo de reabastecer, pois o tempo de deslocamento até o museu, em condições normais é de quarenta minutos. Ele terá que correr e rezar para que o combustível não acabe no meio do caminho.

Um imprevisível.

Já na estrada, Renato não consegue tirar os olhos do painel. A luz que indica falta de combustível pisca insistente e ele precisa de gasolina por mais cinco quilômetros. Ele vê a saida que dá acesso à avenida principal e pega a pista da direita. Desce a rampa e é surpreendido por um gigantesco engarrafamento. Vários carros bloqueiam seu caminho. Sem ter como voltar para a estrada ou pegar outro desvio, Renato se desespera. Restam apenas 10 minutos para o fechamento do museu. Ele precisa encontrar uma saída.

O que mais pode ser usado nesta história para gerar suspense? Eu diria que o céu é o limite! Tudo vai depender da imaginação do escritor. Podemos, por exemplo, parar o capítulo nesta última sentença, deixando o leitor sem saber se Renato irá ou não conseguir encontrar um meio de chegar ao museu a tempo. Então dedicamos o próximo capítulo à Lila, vivendo o drama do ponto de vista dela! Imagine se criarmos uma situação onde o prazo de Lila para ficar viva se torne ainda menor? E, pior, Renato só fique sabendo disso depois que voltar do museu com o ingrediente para a fórmula?

Como você pode ver, a receita é simples, mas o cozinheiro deve saber usar os ingredientes de forma inteligente.