Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções


Nas últimas semanas estamos traduzindo um a série de K.M. Weiland sobre as partes que constituem as cenas da sua história. Para mim os textos dessa autora foram um divisor de águas. Nunca sequer imaginei os mecanismos que faziam as cenas funcionarem, agora vendo todas as partes desmontadas dessa forma, ficou muito mais fácil de dar continuidade ao trabalho que tenho lutado tanto para desenvolver nos ultimos anos. Não sei se vocês se deram conta ainda, mas escrever um livro é um verdadeiro mistério que pouquissimas pessoas compartilham. Quem sabe fazer guarda o segredo à sete chaves com medo de que com a informação à disposição surjam muitos concorrentes no mercado e eles – os que sabem fazer –  acabem sofrendo alguma espécie de prejuízo. Graças a Deus, na boa e velha America as coisas são bem diferentes e há abundância de gente de boa vontade compartilhando esse conhecimento que trago até vocês. Infelizmente nem todos brasileiros conseguem ler em inglês e daí a “raison d’être” deste blog. Percebo que nessa arte pelo menos 50% corresponde à talento mas os outros 50% são pura técnica e essa parte pode ser aprendida (e olha que estou sendo muito conservadora nessa porcentagem, há quem diga que 10% é talento e 90% técnica!). Assim espero então que curtam essas traduções que faço livremente e tentem por em prática esse conhecimento no WIP – work in progress – de vocês. Quem perdeu as outras partes é só clicar nos links a seguir e pôr a leitura em dia. Parte 1, parte 2, parte 3.

Estruturando as cenas de sua história pt4 – Conflitos em uma cena: opções

Uma vez estabelecido o objetivo de cena do seu personagem, a diversão começa de verdade! Conflito é o que faz uma história. Sem ele o personagem alcançaria seu objetivo final em minutos, todas as pontas soltas seriam amarradas instantaneamente num lindo laço vermelho e a história terminaria com um belo “e eles foram felizes para sempre”. Isso pode ser bom para seus personagens, mas irá matar os leitores.

Lá vai seu personagem, alegremente saltitante na direção de seu objetivo – que é contribuir para a caridade anual de Natal – quando POW! bandidos invadem a pista, bloqueiam o acesso ao objetivo e exigem que o personagem dê a eles todo seu dinheiro. Ta-daaaa! Instantaneamente sua cena fica mais interessante. Os leitores estão ofegantes para saber se seu personagem irá escapar dos bandidos e entregar o dinheiro da doação de caridade aos órfãos pobrezinhos. Conflito mantém sua história andando para frente. Nós dizemos “sem conflito, sem história” porque sem conflito a história acaba. Quando o objetivo inicial do personagem é bloqueado pelo conflito, ele o faz reagir com um novo objetivo, que é bloqueado por um novo conflito, que o faz mudar de objetivo – e assim por diante, até que finalmente ele alcançe o objetivo e a história acabe.  Surpreendentemente, autores as vezes experimentam dificuldades em injetar conflito suficiente em suas histórias. Seus personagens passam timidamente pela vida se dando bem com todos e fazendo nada de grande importância. Ou, se eles tem alguma briga com alguém ou alcançam algo importante, as ramificações são resolvidas tão rapidamente e discretamente que elas acabam nem sendo cruciais nem divertidas. Não tenha medo de dificultar as coisas para seus personagens. Sem conflito – e o sofrimento associado à ele – personagens não tem razão para existir. Analise suas cenas para ter certeza que cada uma põe obstáculos entre seu personagem e o objetivo dele.

Alternativas para conflitos

Como os objetivos de cena, o conflito da cena oferece possibilidades ilimitadas. Conflitos podem aparecer numa variedade de sabores, mas na maioria das vezes podem ser divididos nas seguintes categorias:

1.Oposição direta (outro personagem, clima, etc que interfere e impede o protagonista de alcançar seu objetivo).

2.Oposição interna (o personagem aprende algo que modifica suas ideias sobre seu objetivo).

3.Dificuldades circunstanciais ( não tem farinha para fazer o bolo, não tem parceiro para dançar, etc).

4.Conflito ativo (discussão, luta, etc)

5.Conflito passivo (ser ignorado, ser deixado sem informações, ser evitado, etc).

Essas generalidades podem incluir(mas não estão limitadas à elas):

1.Altercação Física.

2.Altercação verbal.

3.Obstáculo físico (clima, obstáculo na estrada, dano pessoal, etc).

4.Obstáculo mental (medo, amnésia, etc).

5.Falta física (sem farinha pra fazer o bolo).

6.Falta mental (sem informação).

7.Agressão passiva (intencional ou não).

8.Interferência indireta (oposição à distancia ou oposição não-intencional por outro personagem).

Seu conflito é integral?

Como se não tivéssemos o suficiente para nos manter ocupados só em imaginar uma boa altercação, nós também temos que limitar nosso conflito para aquilo que é integral a cada cena específica. Nas palavras de Dwight V. Swain: “conflito só por conflito” não é bom o suficiente. Se o personagem bondoso de nossa ilustração anterior perde o dinheiro da doação para os bandidos, provavelmente esse é um bom conflito. Ele diretamente interfere com seu objetivo de dar o dinheiro aos órfãos. Mas se os bandidos nunca mais aparecerem na história – se eles apareceram somente para roubar aquele dinheiro – eles não irão representar um conflito integral.

Muito pior é quando o conflito não tem nada a ver com o objetivo. Se Allie está descendo a rua, com o objetivo de ir ao salão de beleza antes de sua estréia na Broadway, uma discussão aleatória sobre o valor e importância da parada do Dia de Ação de Graças da Macy’s simplesmente não vai funcionar. Ao invés disso, temos que assegurar que o conflito de cada cena é um resultado direto de um acontecimento anterior (talvez nosso protagonista deixou o líder dos bandidos furioso jogando uma bola de neve em sua cara) e um obstáculo direto entre o protagonista e seu objetivo (talvez a parada da Macy’s está impedindo Allie de chegar no salão de beleza).

Perguntas a fazer sobre o conflito da sua cena

Uma vez identificado o conflito da cena, pare e se faça as seguintes perguntas:

1.A oposição ao objetivo do personagem é importante para ele?(Se não, então só para começar, ele não deseja o objetivo o suficiente)

2.O conflito evolui naturalmente do objetivo?

3.A motivação da oposição faz sentido dentro do todo da história?

4.O conflito leva a um resultado lógico (resolução ou desastre)?

5.O conflito diretamente interfere com o objetivo do protagonista ou o ameaça?

Conflitos de cenas acontecendo

Como conflitos eficazes se manifestam em histórias de sucesso? Vamos dar mais uma olhada em nossos livros e filmes escolhidos:

Orgulho e preconceito de Jane Austen:

No primeiro capítulo, o objetivo da Sra Bennet é conseguir que seu marido convide o Sr. Bingley para que suas filhas mais tarde possam ser apresentadas para esse jovem partidão. Seu objetivo é atrapalhado pela resistência passiva do Sr. Bennet à sua importunação. O conflito toma a forma de uma altercação verbal. Mesmo não sendo uma discussão outrightdireta e certamente não violenta ou mesmo agressiva, ainda oferece conflito simplesmente porque os dois personagens estão obviamente em desacordo. Se o Sr. Bennet fosse ceder imediatamente aos desejos da Sra. Bennet (Ah, certamente, amorzinho, ficaria mais que feliz em visitar o Sr. Bingley já que você gosta tanto dele), a cena acabaria instantaneamente (induzindo-nos a bocejar de tédio).

It’s a Wonderful Life dirigido por Frank Capra:

O conflito da cena de abertura vem na forma da incopetência do anjo Clarence. O objetivo de Joseph, o anjo superior, é enviar Clarence à Terra para salvar George Bailey. Mas Clarence não só está atrasado e preocupado com sua inaptidão, ele também é incapaz de ver a narrativa de Joseph sobre o passado de George. Isto é um conflito menor (e um que é transposto pelo menos parcialmente, com facilidade uma vez que tudo o que Joseph tem que fazer é ajudar Clarence a ver o passado), mas serve não só para apimentar a cena como também demonstrar facetas chave do caráter de Clarence.

Ender’s Game de Orson Scott Card:

No primeiro capítulo o objetivo de Ender é muito simples: ele só quer entrar no ônibus escolar e ir para casa. Mas o conflito se levanta imediatamente na forma de Stilson e outros brigões que tentam impedir o progresso de Ender. O conflito surge naturalmente dos personagens e da trama, uma vez que os brigões estão insultando Ender por causa da perda de seu monitor (ou tutor). Mas ele vai muito além do conflito só pelo conflito. Essa primeira altercação não só habilmente demostra qualidades importantes do protagonista, ela também leva a um desastre que irá aparecer prominentemente através do livro –  e finalmente prenunciar o clímax.

Master and Commander: The Far Side of the World dirigido por Peter Weir

O conflito aparece na primeira cena quando o aspirante de marinha Sr. Hollom se debate em dúvida sobre ter avistado o navio inimigo Acheron. A cena de abertura é inicialmente confinada ao conflito interno de Hollom, o que é ilustrado por uma troca de palavras concisas entre ele e outro aspirante de marinha. O conflito dramatiza belamente facetas importantes da vida no navio, prepara o conflito de Surprise vs. Acheron e prenuncia o arco do personagem Hollom. Conflito é sem duvidas uma das partes mais fáceis e prazerosas de escrever em qualquer história.

Depois de você preparar direito o conflito dentro de cada cena, sua história irá fluir, quase sem muito esforço.

Retirado do site: http://www.helpingwritersbecomeauthors.com/structuring-your-storys-scenes-pt-4/